domingo, 24 de maio de 2020

OS ROSA-CRUZES ESSENCIAIS


                  Os Rosa-Cruzes Essenciais
                                          Paul Sedir (1871 - 1926) **

Há seres sedentos de amor e de sacrifício que, após séculos e séculos de lutas e obras, alcançado o ápice da Ciência e do Poder, reintegrados misticamente no esplendor original de sua condição de homens, não podem suportar o espetáculo doloroso de seus irmãos ainda perdidos nos laços da paixão e ignorância. Isso os leva a serem reenviados à Criação e a participarem novamente de suas dores e de suas tentações. São missionados, os apóstolos, os místicos puros, os verdadeiros Rosa+Cruzes. Ruysbroek, o Admirável, os chama de crianças secretas do Senhor. Sua doutrina é indizível, pois eles professam que não se deve saber nada sem estar antecipadamente convencido da própria ignorância. Seu livro é o Evangelho. Sua prática é a imitação de Jesus-Cristo.

Essa teoria e essa prática parecem simples. No entanto, não há nada mais elevado a ser concebido e mais difícil de executar. As mais abstrusas especulações dos metafísicos hindus ou as autoridades mais espantosas de seus yogues desaparecem perante a terrível profundidade das máximas e dos ensinamentos evangélicos. Mas esses só podem ser compreendidos por quem já superou, com trabalho e sofrimento, a extremamente limitada natureza humana

Falar dos Rosa+Cruzes é coisa por pouco quase impossível. Eles formam uma organização invisível. Não deram eles a si mesmos o qualificativo de “invisíveis”? Cavalheiros do Espírito, eles nada relevam a não ser o Espírito, eles não podem ser conhecidos a não ser pelo Espírito. O Espírito é livre de toda limitação, os eleva além de toda contingência. Ele lhes nutre, lhes inspira, lhes conforta. Eles lhes ressuscita após cada uma das mortes inumeráveis que constituem a existência na relatividade dos apóstolos de Deus e de Seu Cristo. Vivendo do Absoluto, eles vivem no Absoluto.




 Eles próprios nos fazem compreender o mistério da união espiritual entre os irmãos através do espaço e do tempo, da união espiritual com seus pares e êmulos (1), discípulos do mesmo Mestre, devotados ao mesmo apostolado. Conforme o que o Cristo disse a seus discípulos:  “Onde eu estiver, vós aí estareis”.

Mas do mesmo modo que o homem sabe apenas captar a divindade em sua manifestação, os homens não podem perceber os Rosa+Cruzes, mensageiros divinos, à não ser em suas manifestações. “É sempre em um período crítico que se ouve falar neles. Eles chegam na época e no país onde uma forma social, tendo atingido sua completa realização, tende já a se alterar; quando os esforços lentos e contínuos do espírito humano, em vez de convergirem, como o tinham feito até então, na constituição e na afirmação de um organismo social, de um dogma religioso, de uma síntese científica, começam a divergir e abalam o edifício construído pelas gerações precedentes” (2)”.

Seu nome é o de sua função.

Eles podem, se quiserem, ser invisíveis aos homens e incógnitos; se eles o desejarem, podem viver no meio dos homens e como eles; são livres, mas de todo o modo, se apresentam aqueles a quem vieram socorrer. Adotam os costumes dos países onde se encontram. E, com efeito, podem viver no meio dos homens sem risco de serem identificados; apenas seus pares os reconhecem por uma certa luz interior. O Cristo disse: “O mundo não vos conhece”. É por isso que, quando eles mudam de país, mudam também de nome (3). Eles podem se adaptar a todas as condições, a todas as circunstâncias, falar a cada um em sua língua.

Eles agem a fim de que o que eles têm a dizer ao mundo seja dito. Aqueles que escrevem ou falam seu nome exprimem tão fielmente quanto podem os pensamentos, às inspirações que lhe são transmitidas pela via espiritual.

Do mesmo modo, esses arautos do Absoluto não inspiram seus apologistas quando eles só se preocupam em refutar seus detratores. Esses, como aqueles, se comportam de acordo com o que são capazes de ver luz que têm diante de si.

“Estrangeiros e viajantes na terra” (4), não desejam nada do mundo, nem beleza, nem glória, nada além de fazer a vontade de Deus, eles querem levar os fardos dos fracos, reanimar os mornos, restabelecendo por toda a parte a harmonia. Eles passam e o deserto torna-se um prado; eles falam e os corações se abrem ao apelo do Divino Pastor. Eles preparam o caminho para Aquele que deve vir.

Mas quem conhecerá as fadigas, quem enumerará os martírios sempre desconhecidos que aceitam, em seu imenso amor, esses pastores do Pai, para reconduzir as ovelhas indóceis que somos? O grande Cagliostro o disse nesses termos patéticos: "Eu venho do Norte, da bruma e do frio, abandonando por onde passo alguns pedaços de mim mesmo, me esgotando, me reduzindo a cada etapa, mas vos deixando um pouco de claridade, um pouco de calor, um pouco de força, até que eu seja, enfim, detido e parado definitivamente no fim de minha carreira, na hora em que a rosa florescerá sobre a cruz” (5).

Assim eles têm passado, imperceptíveis, no meio dos homens, para esclarecê-los e levá-los à Vida. Eles são vindos para recordar as criaturas às palavras pronunciadas nos séculos remotos, para despertar nelas o eco, que tinha se extinguido, das vozes que fizeram vibrar antigamente os seus corações. Eles são vindos para trabalhar em prol da renovação espiritual, da obtenção por esforços cotidianos dessa luz que ilumina todo homem vindo ao mundo e que nós repelimos, que nos obscurecemos pelos nossos desejos egoístas. Essa, têm eles dito, é a única via da regeneração individual, da redenção coletiva.

A iniciação cristã, com efeito, não tem por alvo, como as iniciações do extremo oriente, a orientação metafísica de atingir um grau superior de Saber: seu alvo é a Vida. Ora, a Vida é Amor e o pensamento é a imagem invertida da Vida. O amor é o único intérprete verídico da verdade: o amor é a sabedoria suprema, conforme com o que está escrito: “Aquele que ama Deus é aquele que conhece Deus” (1 João, IV,7).

A organização interior da fraternidade não foi revelada, nem seus segredos. Esses se referiam, exteriormente, à transmutação dos metais, à arte de prolongar a vida, à descoberta de coisas ainda ocultas. Mas os Rosa+Cruzes se davam por magos a fim de mascarar seu verdadeiro pensamento, seu objetivo primordial: a reforma do mundo, da qual eles eram os agentes predestinados. E isso que, por baixo de tudo, espanta o leitor dos escritos rosacruzes. Mais que os procedimentos que eles apresentavam para obter a pedra filosofal ou o elixir do prolongamento da vida, mais que o método que eles preconizavam para atingir a certa fórmula do saber, os Rosa+Cruzes levaram os europeus do século XVII arruinados pela guerra, divididos entre o catolicismo e o protestantismo, desagregados em sua mentalidade pelo espírito de crítica, palavras de concórdia e de apaziguamento. No meio do egoísmo universal, eles recordaram aos homens que eles são irmãos, filhos do mesmo Pai; no meio da anarquia crescente, eles falaram do Libertador, eles repetiram que o Cristo desceu e que Ele retornará para reunir em um só coro Seus serviços dispersos.

    Eis a mensagem trazida ao mundo pelos Rosa+Cruzes:

                       ELIAS ARTISTA

A Rosa+Cruz essencial existe desde que há homens sobre a terra.

Além do Sol amarelo que nos ilumina, há seis outros sóis ainda invisíveis que fazem viver a terra. Nosso Sol amarelo tem o propósito de produzir a assimilação das funções vitais. Um outro Sol, o Sol vermelho, tem por ofício a construção dos corpos terrestres: ele rege a morfologia, as afinidades físicas, químicas, intelectuais, sociais. Esses Sol vermelho é a residência do ser em Paracelso, o primeiro aqui em  baixo, denominou Elias Artista.

    

Elias Artista é o anjo da Rosa+Cruz. Ninguém pode saber quem le é, nem aquilo sobre o que ele repousa. Tudo o que se pode dizer é que ele é uma força atrativa, harmonizante e que ele tende a reunir os indivíduos em um só corpo homogêneo.

Eis como se expressa Stanislas de Guaita:
   
“Elias Artista é infalível, imortal, além disso, inacessível, às imperfeições, como às impurezas e aos ridículos dos homens de carne que se oferecem a manifestá-lo. Espírito de luz e de progresso, ele se encarna nos seres de boa vontade que o evocam. Se eles tropeçam no caminho, eis que o artista Elias não esta mais neles.  
“Fazer mentir o verbo superior é coisa impossível, ainda que se possa mentir em seu nome. Pois cedo ou tarde ele encontra um órgão digno de si (nem que seja por um minuto), uma boca fiel e leal (nem que seja pelo tempo de pronunciar uma palavra).

“Por esse órgão de sua escolha ou por essa boca de coincidência _ que importa? _ sua voz se faz ouvir, potente e vibrante dessa autoridade serena e decisiva que empresta ao verbo humano a inspiração do Alto. Assim, são desmentidos na terra aqueles que sua justiça condenou no abstrato.

“Guardemo-nos de falsear o espírito tradicional da Ordem; reprovados no alto na mesma hora, cedo ou tarde seríamos negados aqui em baixo pelo misterioso demiurgo que a ordem saúda pelo nome: Elias Artista.

“Ele não é a  Luz; mas, como João Batista, sua missão é a de dar o testemunho da Luz da glória, que deve se irradiar de um novo céu sobre uma terra rejuvenescida. Que ele se manifesta pelos Conselhos fortes e que ele derruba à pirâmide das santas tradições desfiguradas pelas heterogêneas camadas de detritos e de remendos que vinte séculos tem acumulado sobre ela! E que enfim, os caminhos estando por ele abertos para o advento do Cristo glorioso, - sua obra estando concluída -  desaparecerá na névoa maior o precursor dos tempos vindouros, a expressão humana do santo Paracelso, o “deimon” da ciência e da liberdade, da sabedoria e da justiça integrais: Elias Artista” (6) .  




                                          Elias Artista de Willian Blake


Por outro lado, se nós quisermos encarar o sacerdócio de Melquisedeque, cujo sacrifício é a prefiguração da Eucaristia, teremos que nos recordar que os sacerdotes “da ordem de Melquisedeque” constituem não uma ordem social, mas um sacerdócio cujo sacramento, representado pelo pão e pelo vinho, é o sacrifício de si mesmo ao próximo, por amor a Jesus-Cristo e pela unidade com Ele.

Em nossa opinião, Elias Artista é uma adaptação do Elias bíblico, que deve retornar no fim dos tempos, com Enoque, para desempenhar seu papel de testemunha do binário universal. Seria prematuro dizer quem foi Elias artista ou quem ele será. Tudo o que é útil saber é que esse nome designa uma forma do Espírito da inteligência.

É isso que entendiam os Rosa+Cruzes quando eles diziam que no dia C eles se reúnem em um local que se chama o Templo do Espírito Santo. Mas onde é esse lugar? (7) Eles próprios não o sabem, porque, dizem eles, é invisível.
   
Nós nos permitimos indicar a nossos leitores, se eles quiserem aprofundar o estudo desse tema misterioso, de meditar na história de Enoque, pai simbólico da Rosa+Cruz, inventor da tradição e da ciência e construtor de monumentos dos quais a lenda lhe atribui a paternidade.
   
** Tradução do Capítulo II, págs.21-26 de “Les Rose-Croix”, de Sédir, Bibliotheque des “Amitiés Spirituelles”, Paris.  
   
Notas do autor:

1) O itinerário das viagens de Christian Rosenkreutz indica bem as filiações da fraternidade rosacruciana com outras tradições, principalmente com certos centros instalados no Egito e com certas Fraternidades muçulmanas que o pai encontrou em Fez.

2) “L’Évangille de Cagliostro”, traduzido do latim para o Francês e publicado pelo Dr. Marc Haven (Lalande), Paris, 1909 - Introdução. 2.1)Edição espanhola: “El Evangelio de Cagliostro”, Editorial Humanitas, Barcelona, 1987.

3) O nome é o símbolo da individualidade.

4) Hebreus, cap. XI, vers.13.

5) “Mémoire pour le Comte de Cagliostro accusé, contre le Procureur Général”, Paris, 1786.

6) Stanislas de Guaita: “essais de Science  Maldite - Trilogie - Paris, 1897, 1915, 1949.

7) Christoph-Stephan Kazauer, resp. J. Ludwig Wolf: “disputatio Historica de Rosacrucianis”, Wittenberg, 1715.



                                                                                                                                            
                                                                                                                                                                                                                            







        

quinta-feira, 23 de abril de 2020

EXPLICAÇÕES GERAIS SOBRE O MARTINISMO



            EXPLICAÇÕES GERAIS SOBRE O MARTINISMO




Quem é e como surgiu a Antiga Ordem Martinista - Martinismo


 Qual é a base da Iniciação Martinista? Um ritual da Ordem nos diz nos seguintes termos:

“Encerra a filosofia de nosso Venerável Mestre, baseada especialmente nas teorias dos Egípcios, sintetizadas por Pitágoras e sua Escola. Contém, em seu simbolismo, a Chave que abre o mundo dos Espíritos e que não está cerrado; segredo inefável, incomunicável e unicamente compreensível ao verdadeiro Adepto. Este trabalho não profana a santidade do Véu de Ísis por imprudentes revelações. Aquele que é digno e está versado na História do Hermetismo, em suas doutrinas e em seus ritos, em suas cerimônias e hieróglifos, poderá penetrar na secreta, porém real, significação do pequeno número de símbolos oferecidos à meditação do Homem de Desejo”.

O Martinismo é uma Escola de alto Hermetismo que se descobre a muito pouca gente, preferindo a qualidade à quantidade, como qualquer associação que não deseja ter ação política e que, se pensa proceder socialmente, prefere elevar a multidão à seleção, no lugar de descer da seleção até a multidão. 

A Iniciação Martinista é o resultado de um ensinamento, porém há em seu desenvolvimento uma parte imensa de formação pessoal. A Iniciação é gradual, conforme as capacidades daquele que deve seguir as fases de seu ensinamento antes de chegar aos graus superiores. Este é o sentimento que podemos extrair do célebre discurso pronunciado por Stanislas de Guaita e que encontramos no Umbral do Mistério:

“Fizemos-te iniciar: o papel dos iniciadores deve limitar-se aqui. Se chegares por ti mesmo à inteligência dos Arcanos merecerás o título de Adepto; mas, vê bem; seria em vão que os mais sábios Mestres quisessem revelar-te as supremas fórmulas da Ciência e do Poder mágico. A Verdade Oculta não poderá ser transmitida em um discurso: cada um deve evocá-la, criá-la e desenvolvê-la em si. És Inciciado: aquele que outros colocaram no caminho; esforça-te em chegar a Adepto, aquele que conquista a Ciência por si mesmo; em uma palavra: o Filho de suas obras.”

A Iniciação Martinista compreendida desta maneira, não pode transcorrer sem provas; porém estas não tem nada de comum com as de outras instituições iniciáticas. O discurso de Stanislas de Guaita, que não podemos aqui transcrever inteiramente, merece estudo e reflexão. Ele desenvolve esta doutrina: A Iniciação é, certamente, o resultado de um ensino, porém há em seu transcurso uma imensa parte de formação pessoal. Qualquer poder concedido pela Natureza ou pela Sociedade, para ser útil, deve desenvolver e adaptar à sua função aquele que deverá beneficiar-se com ele.

Existe uma qualidade de alma que caracteriza essencialmente o verdadeiro Martinista: é a afinidade entre espíritos unidos por um mesmo grau em suas possibilidades de compreensão e de adaptação; unidos por um mesmo comportamento intelectual, pelas mesmas tendências, do qual se segue a constatação obrigatória de que o Martinismo está composto, exclusivamente, por seres isolados, solitários, que meditam no silêncio de seu gabinete, buscando sua própria iluminação.

Cada um destes seres tem a obrigação, uma vez adquirido o conhecimento das leis do equilíbrio, de transmitir a compreensão alcançada, para aqueles que possam compreender e participar daquilo que ele crê constituir a verdade em sua vida espiritual. É aqui, então, que intervém a Missão de Serviço do Martinismo, é somente neste sentido que esta corrente espiritual especial encontra seu lugar na Tradição Ocidental.

Os assuntos de dinheiro são quase desconhecidos na Ordem; as quotas, “o tronco da viúva”, os direitos pelos diplomas não existem e os graus são conferidos sempre ao mérito e não podem nunca ser objeto de tráfico.

A filiação à Ordem Martinista é buscada, sobretudo, pela instrução que leva bastante longe e que compreende o estudo aprofundado das ciências simbólicas e herméticas.

Por outro lado, a Ordem abre suas portas tanto aos homens como às mulheres; não exige de seus membros juramento nenhum de obediência passiva, nem tampouco lhes impõe nenhum dogma; acolhe sem distinção a todos os que sentem em seus corações o amor ao próximo e que desejem trabalhar pelo bem comum.

Dentro da Ordem é de rigor possuir a maior tolerância, ou melhor, o espírito de compreensão mais acentuado. No que diz respeito à ajuda mútua, ela constitui também uma das características essenciais do Martinismo, cujos adeptos se esforçam, segundo suas possibilidades, em ajudar aos demais seres humanos, sejam ou não iniciados, pertençam ou não a nossa Ordem.

A Ordem Martinista compreende três graus: Associado, Iniciado e Superior Incógnito, conferidos de acordo com rituais que procuram dar a quem os recebe uma ajuda poderosa.

Já dissemos que o Martinismo é uma cavalaria, ou por outra, é uma tendência ou corrente cavalheiresca que persegue o aperfeiçoamento individual e coletivo. É necessário, portanto, que o Martinismo em todas as terras esteja formado por servidores perfeitos e sucessores dos verdadeiros Mestres do movimento; os Superiores Incógnitos, dos quais um dos primeiros a ser conhecido pelo mundo profano foi Louis Claude de Saint-Martin, que ainda pode ser conhecido como o Filósofo Desconhecido.



      PROGRAMA DE ESTUDO SUGERIDO POR PAPUS PARA O MARTINISMO:

I

1. História das raças humanas, tradições, etc.
2. Teoria geral e Filosofia (Saint-Martin, Saint-Yves d'Alveydre, etc.).
3. Uma língua sacra: o hebreu.
4. Psicurgia (primeiros elementos práticos).


II

1. História e simbolismo (Sociedades secretas e Maçonaria).
2. A Cabala.
3. Uma língua sacra: o sânscrito.
4. A Magia e as adaptações (Hipnotismo, Magnetismo, Orações).


III

1. História da Alquimia e da Rosa-cruz (Martinismo).
2. As religiões do Oriente: Budismo, Bramanismo e Taoísmo.
3. Uma língua sacra: o egípcio.
4. O Espiritismo: sua transformação desde a Antigüidade; sua adaptação.

IV

1. Os Cultos e seu esoterismo em todas as religiões.
2. A antiga iniciação no Egito; a Pirâmide e o Templo.
3. Hermetismo; a Alquimia; a Astrologia; o Arqueômetro.
4. A Maçonaria prática: constituição de um rito; as diversas adaptações sociais.

FONTE: 
O ABC do Ocultismo de Papus
Rituel dressé par Teder.






domingo, 12 de abril de 2020

O ELOGIO DO INCOERENTISMO



                              O ELOGIO DO INCOERENTISMO


                                                                                              “Oh! Revesti-vos de um vestido bizarro e alegre,
Bebei álcool e olhai nos olhos de vossas belas mulheres
Bendito seja o Nosso Senhor do Trindente, que encontrou
Que a via da salvação passava por ali!”
                   Mattavilasaprahasana 


A Iniciação é incoerentismo, ciência das incoerências. Enquanto que ao querermos dar coerência ao mundo, nós o complexificamos pelo conceito, ao reconhecermos a incoerência, ou a não-coerência do mundo,nós simplificamo-lo. Ora, a Iniciação é Simplificação, pois a percepção pura unifica, enquanto que o conceito multiplica e separa.

Em toda a conquista do Ser, existe um caminho pedagógico, evolutivo, religioso (que religa), periférico, e o caminho iniciático, ascético, por ruptura, uma devolução que provoca a experiência directa do Absoluto.

A entidade que nasce da ascese está necessariamente separada do mundo, o mundo consome-se na experiência do real, pois a incondicionalidade do esforço (e não o próprio esforço) faz reconhecer o mundo por aquilo que ele é, reflexo, sonho enebriado. Mas esta entidade, nascida da ascese, separada da persona, permanece separada do Ser até à dissolução do corpo físico. Ela é, de alguma maneira, a última máscara, o último reflexo, o reflexo mais puro, mas sempre um reflexo, reflexo suficientemente puro contudo para autorizar a experiência da imortalidade nesta vida, neste corpo.


A Tradição faz por vezes referência à inversão dos candelabros (por exemplo em Gustav Meyrink que foi Grão Mestre dos Irmãos Iniciados da Ásia), imagem simbólica próxima da do Enforcado do Tarot. Há duas inversões dos candelabros. Falando literariamente, eu poderei dizer que a primeira, a inversão (ou rotação) lateral corresponde aos mistérios menores, e que a segunda, a inversão (ou rotação) vertical corresponde aos mistérios maiores. A primeira inversão permite rodar para o mundo paradoxal e apreender o jogo ou a relatividade do mundo fenomenal. A segunda inversão dos candelabros constitui a apreensão do Real pelo adepto, ao mesmo tempo que a apreensão do adepto pelo Real.

É buscando a incoerência da coerência que a primeira inversão dos candelabros se pode produzir, é percebendo a coerência magnífica e divina da incoerência que a segunda inversão dos candelabros se manifesta.


Trecho do livro: “ O louco de Shakti, imortalidade, par e alquimia, Lisboa, Hugim, 1998, págs 17 e 18 (edição bilíngüe)” de Remi Boyer








                                                          




segunda-feira, 30 de março de 2020

O HOMEM DAS ALTURAS E O HOMEM DA TORRENTE

           O HOMEM DAS ALTURAS E O HOMEM DA TORRENTE

                                                  Por Marc Haven (Dr. Emmanuel Lalande)

A assustadora, esmagadora a massa de obras publicadas sobre as questões religiosas: livros sagrados, comentários, apologética, história das religiões e - especialmente desde o século XVIII crítica dos textos, estudos sobre os mitos, sobre a evolução das religiões, pesquisas sobre a natureza da fé, sobre suas origens! O salão da Biblioteca Nacional não seria suficiente para abrigar todos esses livros.

É apavorante, atroz, o pensamento dos rios de sangue derramados, das torturas suportadas desde os tempos primitivos até nossos dias em nome dessas duas palavras: os dogmas, a fé.

O que existe é o homem, com um coração que ama, que gostaria de ser amado, de compreender melhor para melhor amar. E isto é tudo. É isto que sentimos, que sabemos, que nasce em nós, conosco. O homem ama
a partir do momento em que pensa. Como o feto que, tão logo desligado de sua mãe, torna-se um eu, abre sua boca, busca o ar em um primeiro grito; da mesma forma a alma humana, desde que pensa - e isto se dá muito rápido - ama, busca o amor, estende seus braços às carícias da natureza e às dos homens.

Surgiu então diante dele um homem com estátuas ou uma mulher com bonecas, todos os dois o cativando com cantos e imagens atraentes, falando de misteriosos perigos, de livros sagrados, de promessas, de ameaças, de segredos.

A partir do momento em que um homem te diz: "Eis o livro sagrado, eis o único, o verdadeiro livro; eis o Credo que se faz mister saber, vinde ao Meu Templo...", esteja certo de que tens diante de ti um homem que o orgulho, o erro ou, ainda mais freqüentemente, o interesse, fazem falar. Não discuta, fuja, fuja aterrorizado!

A partir do momento em que em tuas pesquisas teus olhos caem sobre um livro intitulado Críticas de tal religião, exposição de tal doutrina, ensaio sobre a evolução dos dogmas, etc., não o abras, foge, foge desgostoso.

Mais ainda, quando tua razão se mostra inquieta, levanta objeções sobre a antinomia da Fé e da Ciência, afasta esse fantasma, reencontra o bom cantinho, a natureza, o mundo vivente, harmonioso; foge da tua razão! foge dos demônios que deixaste penetrar em ti. Porque não são os homens, nem os livros, nem tua Ciência que irão te fornecer a solução do problema; nem o saber, nem a Paz.

É certo que se podem escrever volumes sobre volumes sem esgotar a história das loucuras, das crueldades humanas. É certo que houve segredos, conchavos, autos-de-fé, predicações e ritos desde a aurora dos tempos até nossos dias. Mas de que serviram todos esses atos, que adiantaria para ti estudá-los? Que ganharíamos com isto?

Que ganhará aquele que deixar de ser judeu para tornar-se cristão, protestante, depois católico? Não terá ele o mesmo coração, provavelmente inquieto com o mesmo escrúpulo? Não, o problema é outro e mais simples e resulta do seguinte:

Há duas categorias de seres humanos, apenas duas. Temos, de um lado, aquele que ainda possui, desenvolvido, o estado de espírito original de seus primeiros dias e que chamaremos o espírito religioso: esse ímpeto de amor que ele havia potencialmente engendrado. Ele pode pertencer a não importa que seita, confissão ou sociedade; ele busca, deseja a felicidade para si e para os outros; ama e gostaria de ser amado. Essa emoção que o emudece diante do belo, empurra-o para o bem, é um movimento irreversível espontâneo, diante do qual ele esquece inteiramente de si. Amo, desejo, quero compreender (isto é, tomar em mim, reunir à unidade em mim). Busco por detrás do objeto da ideia sua tradução em minha língua pessoal, seu eco em meu coração, seu parentesco com aquele desconhecido que persigo por todo o Universo, sob todos os fenômenos.

                                                             

Quero apenas esta relação com a unidade, um número, um local em um sistema lógico? Não, isto não passaria de um puro jogo filosófico, que não preencheria nem meu coração, nem minha vida. É o amor que me preme e que eu chamo, é um ser vivente e amante que busco, não uma fórmula. Por que? Porque sou feito assim. Não tenho a pretensão de explicá-lo, mas eu o sinto, eu o vivo, e isto ultrapassa toda explicação.

O fato de formular este problema, a emoção que me emudece, já me mostram que a solução existe, que o problema está mesmo resolvido. "Não me buscarias se já não me tivesses encontrado" (em ti).

Já encontramos estas palavras de Jesus expressadas quatro mil anos antes de sua vinda, nos textos dos Sábios da China. É um entusiasmo imperioso, não uma adivinhação filosófica fria, indiferente. Eis a diferença!

Aqueles que mantiveram em si esse fogo divino - por menos numerosos que sejam em alguma família, em algum lugar que o destino os tenha colocado, pessoas importantes no mundo ou simples camponeses, sacerdotes ou soldados - fazem parte do mesmo grupo. Através do espaço, ignorando inclusive suas existências, eles estão unidos em um mesmo ideal. Nenhuma seita os prende, e nenhuma raça, nenhuma profissão interpõe barreira entre eles.

                                                     

Esse estado de espírito não se limita a ser um sentimento improdutivo. Os que o possuem agem; seus atos são simultâneos, intercambiáveis e fecundos. Do sentimento nasce o saber, o conhecimento real, o discernimento dos espíritos (discernir os espíritos é reconhecer em cada indivíduo seu mandato, seu nome, a função para a qual ele foi criado e ajudá-lo no cumprimento de sua obra). Sua vida é caridosa por seu exemplo. O caminho se revela diante deles e eles podem indicá-lo aos outros. Esse caminho é a renúncia ao "Eu", o abandono ao espírito, o caminho da Cruz.

Mas não se trata aí de uma religião, menos ainda de uma ciência ou filosofia. A religião formula seu Deus, seu Credo. É Manu, Jeová ou o Sol. Ela cria ritos, castas, sanções, constroem templos e celas. Ela entra no mundo para a conquista desse mundo. O espírito religioso não formula nada, não limita nada, conhecedor que é da fragilidade de sua razão, da mobilidade da sua imaginação. Ele encontra o UM presente tanto na floresta quanto na cidade. Ele não materializa o espírito nas palavras ou em pedras; ao contrário, ele transmuta a matéria em espírito, sabendo que dessas pedras Deus pode fazer nascer os Filhos de Abraão. Ele faz sacrifício em todos os Templos e mesmo em lugares públicos. Fato capital que diferencia o espírito religioso do espírito do mundo, seja em meio aos acadêmicos ou às Igrejas; é que o espírito religioso é um sentimento e em nada revela ostentação. É um amor, é o Amor, enquanto que o espírito do mundo é científico, repousa sobre a experiência, sobre o raciocínio, recusando qualquer elemento emotivo.

Os que compõem esta segunda classe da humanidade são as pessoas práticas positivas: homens de negócio, de ação, os struggle for life, que observam, classificam, pensam tudo e buscam tirar o melhor partido possível de tudo o que os cerca para a ampliação do seu Eu. Eles podem atingir, no homem de ciência, no homem de estado, uma grandeza considerável, elevar-se a alturas metafísicas que, à primeira vista, se confundem com o espírito religioso, mas que dele diferem inteiramente pelo fato de partirem da sensação, atribuindo ao mundo exterior uma importância primordial; apóiam-se na razão, na lógica, como meio, e têm um único objetivo: o desenvolvimento do seu Eu ao máximo de suas possibilidades, mesmo que às expensas de outrem. É o Ser racional que não abre nele os diques do amor, a não ser que esteja seguro de auferir daí um proveito imediato ou futuro.

Ora, os dados dos sentidos nos quais ele se apóia são inverificáveis; nossas sensações subjetivas, incomunicáveis. A razão é uma máquina muito aperfeiçoada, mas que não pode trazer nenhum resultado, nenhum novo produto. Ela molda o grão; não saberia produzi-Ia. Se ela é empregada por um coração humano, dirigi da e alimentada por ele, então fornecerá um trabalho melhor ou pior, segundo o valor do operário. Mas, mesmo neste caso, ela é incapaz de nos revelar o ser e os sentimentos daquele que o emprega. Já o filósofo conhece apenas a razão, só quer servir-se dela. Ele parte do nada e chega ao nada; do desconhecido no infinitamente grande, ao desconhecido no infinitamente pequeno, das nebulosas ao átomo, da massa inexistente à força incompreensível sem ela. Ele discute inclusive os postulados de que parte e, sobre esta ciência, alicerça uma moral, uma sociologia.

Suas produções materiais, suas leis, servem o mal com a mesma intensidade que o bem. Ele se cerca de um nevoeiro, se enreda nos elos; cria para si uma vestimenta de folhas e de peles de animais que chegam a fazer desaparecer seu próprio corpo. Ao cultivar a vontade, o Eu, semeia o germe das futuras destruições. E não poderia se dar de forma diferente, já que sua inteligência, oposta ao espírito, ao UM, traz o selo do binário, da divisão.

É assim que a humanidade se encontra dividida em duas categorias de seres que, mesmo falando a mesma linguagem, mesmo que intimamente misturados em sua vida cotidiana e sob o verniz da mais perfeita cortesia, são e permanecerão eternamente inimigos. É exatamente quando têm o ar de estarem no mais perfeito acordo, é quando pronunciam as mesmas frases, que estão mais distanciados do ' coração.

Em todos os países, em todas as raças e religiões, pode-se encontrar uns - em pequeno número - e outros em massa, porque o egoísmo, a luta pela vida, reinam na humanidade. Mas essa grande massa que se inclina diante da ciência, diante da razão, a última deusa, não tem o poder que se poderia supor. Interesses, ambições, crenças, fazem de cada um o inimigo daquele que deveria ser seu companheiro de armas na batalha contra os defensores do espírito. Os homens de ação, de luta, destroem incessantemente pela própria prática de seus princípios, essas nações que eles construíram pela conquista, cercadas de fronteiras, de leis, nações sempre perturbadas por trustes, greves, guerras, revoluções, até o ponto em que não restem senão as agulhas das coníferas.

Entre eles, semeados pelo mundo, estão os outros, aqueles que chamamos "homens de espírito religioso". Artesãos, camponeses, padres ou soldados, pouco importa, são os justos de que fala o Zohar, aqueles dos quais basta um para salvar uma cidade. São os operários do Senhor, os sustentáculos do Mundo. Eles vivem irreconhecíveis no meio da multidão, desprezados em geral, longe dos colégios, das capelas, mais longe ainda das sociedades ditas iniciáticas. Em torno deles encontram-se alguns homens dotados, que vivem de sua luz, que respiram suas almas.

É a estes "homens dotados" que falamos, que lembramos a frase de Lao-Tsé: "Retornai à simplicidade primitiva", e o ensinamento do Cristo: "Se não vos tornardes crianças, não conhecereis o Reino de Deus".

Porque na simplicidade primitiva o homem possuía esse poder de amor que engendra o homem de desejo, depois o Homem-Espírito. A porta superior do seu coração se abre: o Espírito penetra nele, ele se torna UNO nesse espírito com o Senhor. Ele tem toda liberdade, todos os poderes, como disse o apóstolo Paulo: "O Senhor é espírito; lá onde está o espírito, está também a liberdade". Aí se encontra o único problema que se coloca e que se faz mister resolver; é o único caminho a seguir; é a boa nova (Evangelho) que, de idade em idade, sob formas diversas, os anjos vêm repetir, da qual eles testemunham por vezes ao custo de sua vida, sempre ao custo da sua paz e da sua felicidade, quando não se elevam a esta suprema santidade que Nosso Senhor Jesus Cristo foi o único a atingir, nas alturas da sua Cruz.

19 de agosto de 1926

Esta matéria foi republicada no N. 1 de 2002 da edição francesa de L´Initiation.

Retirado da edição em português da revista L´Initiation, N. 9 de 2003.






quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

A VIRGEM E O MARTINISMO

                                         A Virgem e o Martinismo!


Este é um tema muito mal compreendido pelos Martinistas que ainda o olham ou com preconceito ou com fanatismo religioso. A adoração de um princípio feminino esta presente em todas as tradições religiosas e místicas do Ocidente ou do Oriente. Em cada povo/tradição assume uma roupagem própria: Isis, Myriam, Bhagavan Yogadevi, Shekhina e a Virgem Mária na tradição Cristã.


Cultuar e ser devoto da Virgem Universal é estabelecer a plena harmonia dos Mundos, é manter o equilíbrio perfeito entre entre o Rigor e Misericordia ( Geburah e Chesed), é unir o Céu e a terra ( Keter-malkut) em um único Ser, agora, Divino.

                       

            
   Ensinamentos de M. Philippe sobre a Virgem:

* Deve-se orar à Virgem. Ela predomina sobre todas as mulheres.

* Ela não pertencia ao mesmo "apartamento" que N. S. Jesus cristo.

* A Virgem: Ela, é a natureza, ou antes: a Criação inteira, e a Sabedoria é a Chispa Divina que constitui a Alma superior dessa Entidade maravilhosa que é a Virgem Universal...

* A Sabedoria, que era antes que a Criação fosse, não podia ser senão em Deus, porque essencialmente abstrata, e foi Ela que deus deu como alma, como Chispa Divina, à Santa Virgem ( cósmica). Assim pois, é Ela, no Mundo Divino.

* .... A Virgem é, não a Terceira Pessoa da Trindade, mas sim a Primeira das Criaturas fora da Trindade. Entretanto, Ela está no Mundo Divino... Deus-Pai, é o Poder Criador; Deus-Filho, é a Ação Criadora, o Pai cria pelo Verbo, parte integrante Dele-mesmo. O Espírito Santo é a Irradiação... - Cada uma dessas Três Pessoas da Divindade é Una com as Outras Duas, e as Três formam Um. Mas esta aritmética é um tanto árdua de se assimilar para os nossos cérebros tridimensionais....

* Essa Virgem Universal, por ordem de seu Criador, tomou um corpo, um corpo de mulher, pois que só a Virgem Universal, Rainha de todas as criaturas, Pura em sua Essência, podia dar um corpo e servir de Mãe do Verbo, encarnando-se para Se revelar aos homens. - A Santa Virgem, Mãe de N. S. J. Cristo, é pois de fato uma encarnação da Virgem Universal, mas não do Espírito Santo, Que NUNCA Se encarna...

      Ensinamento de Chapas e Paul Sedir

* A Virgem é o estribo do Céu. Ela ora continuamente pelos homens.

* Sevananda lembra que devemos prestar muita atenção no que TRANSMITE Chapas, sucessor de M. Philippe, pois ele era aquele que, diariamente, estava na Presença do Espírito Santo!

* Sedir: " Rogai à Virgem e Ela apresentará a vossa súplica ao seu Filho, que a atenderá".

* Segundo Sedir em " La Prière"(pág. 67), "A Ave Maria é a Oração mais importante do Cristianismo, após o Pater. Ela nos coloca em relação com a primeira das criaturas.
Sedir, ainda informa que, esta Oração, é o resultado da colaboração de um anjo (Gabriel) com diversos personagens."

                                                             

sábado, 25 de janeiro de 2020

O VALE DE JOSAPHAT


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                           O VALE DE JOSAPHAT**

A Bíblia Hebraica tendo sido redigida pelos grandes Iniciados da alta antiguidade, contem., minuciosamente descrito, aquilo que nossas religiões colocara na base de seus ensinamentos sob o nome de Revelação.

As circunstancias, embora, permitindo que o Texto sagrado não fosse integralmente transmitido, não permitiram que a língua Hebraica nos chegasse intacta. Conhece- se com uma aproximação suficiente, um quinto aproximadamente de suas palavras; o resto é traduzi do “às apalpadelas" com a finalidade de apresentar uma tradução racional. Infelizmente o resultado final é falso. Se bem que as pessoas atualmente não possam ler e ver nos textos sagrados a imensidade de verdades que esses escritos são encarregados de nos transmitir.

Mas saibam que o livro acaba de ser aberto! Vocês sabem igualmente, por São João, que o livro deve ser aberto no “final dos Tempos" Para o triunfo do Cordeiro.

Já que possuímos a coragem de atacar de frente, para rasgar; o Véu de obscurantismo que mascara aos olhos dos homens uma das verdades mais grandiosas, afirmando a realidade da Reencarnação, tenho, em testemunha de gratidão pela defesa que tens sempre suscitado à causa, mostrar até que ponto está em acordo com o ensinamento oculto de nossas Religiões atuais.

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As Religiões, de nossa infância, nos ensinam a ressurreição geral, em carne e osso, no Vale de Josaphat no dia do Juízo Final.

Esta frase, isolada, contém uma grande verdade e tomada “ao pé da letra” é falsa de uma ponta à outra.

Como elucidar a questão?

Simplesmente traduzindo a Bíblia Hebraica pelo método ensinado pelo próprio Pentateuco. Aquele que nos permitirá ver que a Natureza procede sempre conforme suas Leis Imutáveis.

Consideremos de início a Letra de nossa frase.

O Vale de Josaphat, ou do Cedron, está situado a leste da Vila de Jerusalém,ele representa a Bacia superior do Cedron, a parte onde a torrente margeando o planalto que assenta a vila, corre na direção Norte - Sul. Sua largura média não atinge 200 metros, e sua extensão não ultrapassa três quilômetros, sua superfície total pode portanto ser avaliada em 60 hectares. Para servir como lugar de peregrinação à viajantes numa bela temporada de verão, o sitio é largamente suficiente mais quantos seriamos se toda a humanidade se encontrasse no mesmo dia?

A ciência, baseada na observação, remontando até a idade da Pedra polida, assinala ao homem sobre a Terra uma origem remontando no mínimo trinta mil anos, ou seja, trezentos séculos, e é o mínimo. (1)

A população atual da Terra é de aproximadamente um bilhão e meio de habitantes. (2)

Admitamos que outrora a população menos densa não tenha atingido a metade desse número, e que a duração da vida média tenha sido de 50 anos para uma geração. O número de humanos tendo vivido sob o globo no espaço de um século seria representado de novo pelo número de um bilhão e meio.

Para trezentos séculos teríamos o formidável exército de quatrocentos e cinqüenta bilhões de seres humanos.

Portanto, tomando o texto ao "pé da letra”, seria necessário alojar pelo menos quatrocentos e cinqüenta bilhões de homens em um pequeno terreno de 60 hectares.

Não é loucura?

(...)

Retornemos aos livros sagrados e consultemos por sua vez as Escrituras Santas tão abandonadas.

Tudo muda:

O Vale de Josaphat, ou de Cedron, recebeu esses nomes para comemorar um fato importante, como em Paris, as ruas Londres ou Av. Victor Hugo receberam seus nomes sem que eles tivessem jamais tido alguma ligação direta entre essas ruas e o nome recebido.


Restam aos nomes, eles mesmos.

O Pentateuco nos ensina como é necessário ser hábil para os traduzir.

Josaphat, significa: Aquele que realiza um julgamento pressuposto.

Cedron, significa: Absolvimento.

Tomadas isoladamente essas tradições nada dizem ao pensamento. Seria necessário a tradução de todas as passagens contendo esses nomes, o que nos faria sair de nosso objetivo, é entretanto, o contexto dessas frases que fará claramente sobressair o emprego.

Duas palavras de comentários trarão uma melhor compreensão de seu valor.

Quando, em nosso cotidiano, lemos que um homem está sendo enviado à "Caiena" (3) ou que uma criança está sendo enviada. para uma prisão, a palavras "Caiena" e prisão evocam, cada uma, em seu sentido particular a idéia daquele que realiza um julgamento pressuposto. Quanto ao Vale, não é mais especialmente um vale ,do que uma planície ou colina, é simplesmente a Terra, esta Terra que nossos próprios poetas denominaram: “Vale de lágrimas".

A palavras absolvimento (Cedron) é urna tradução exata, mas brutal; é um Hebraismo que é preciso substituir por um Galicismo. Digamos portanto, segundo o uso francês: Libertação com o sentido de nascimento.

Qual o sentido deste nascimento ?

É o da mãe que colocou no mundo uma criança a quem forneceu um corpo em carne e osso, esta criança é um reencarnado.

Reencarnou a seu pedido porque cedeu a tentação da matéria. cometendo ela mesmo seu próprio pecado: e não possui outro pecado.

Nos meios invisíveis, onde primeiro viveu, estava feliz ao abrigo de nossas misérias, poderia permanecer assim durante séculos, porque o tempo não mais que a distância inexistem no mundo psíquico. Mas ela estaria numa felicidade calma, muito doce, sabendo que estaria melhor no “degrau acima".

Os encantos do desconhecido, do progresso possível, o atrativo das ciência s inerentes a esta matéria tão plena de mistérios para os invisíveis, os levou malgrado os conselhos recebido no “lado de lá", ceder a tentação de seu pecado original.

A árvore sensual o seduziu no Édem, e somente a morte, desde então, poderá devolver sua liberdade.

Isto não é tudo.

Pouco se sabe das contingências brutais do mundo material no "lada de lá", sabe-se o bastante para poder discernir o valor qualificativo de um meio apetecível para uma reencarnação, mas alto lá:

Nem tudo se passa como desejaríamos: Se fossemos livres , cada um faria sua escolha com um. discernimento maravilhoso.

É aqui que intervém esses fatores negligenciados tão voluntariamente na terra quando se trata de nós mesmos: O desenvolvimento moral, o desenvolvimento intelectual e psíquico, todos, resultantes de nossos esforços pessoais, de nossas lutas e de nossos sofrimentos nos cursos das existências anteriores.

Quando reencarnamos, cada um de nós esteve em seu Vale de Josaphat, isto é, no lugar em que se realizou o julgamento pressuposto sobre cada um de nós, segundo nossa situação de progresso ou de retrocesso.

Esse Vale é portanto, simultaneamente, o de Josaphat para aquele que renasceu, e de Cedron para a mãe que forneceu o corpo em carne e osso.

Eis como 450 mil seres humanos puderam retornar à nossa Terra após seu último julgamento, cada um deles achando o Vale de Josaphat em seu pequeno berço; e não é dos berços guarnecidos das mais delicadas rendas que saíram os maiores gênios e os melhores Guias da humanidade.

CONCLUSÃO

Não joguemos pedra nos Mestres inexperientes que guiaram nossos primeiros passos sobre a Terra, eles agiram seguindo suas consciências.

Sejamos reconhecidos por nos terem transmitido o pouco que sabiam sobre os Livros Santos. Desta maneira despertaram nossas atenções para esses textos.

Temos agora o dever sagrado de fazer brotar ondas dessa deslumbrante que deve guiar os últimos passos da humanidade soa Terra.
... .... ..... ......
Possa vosso livro trazer um pouco de esperança e de coragem àqueles que procuram, abrir os olhos daqueles cuja vista tenha sido falseada e lançar alguma semente n´ alma dos que cedem, inumeráveis, ao turbilhão da vida !

Vosso esforço não terá sido estéril !

** Por Heibling J.
Extraído da Revista L'initiation - março de 1912 Apud Papus: "La Reincarnation", Paris, Dangles, 1953, pgs 186 – 190.

NOTAS (do Tradutor):
1. Estes dados estão desatualizados segundo pesquisas modernas.
2. Estimativa de 1912
3. Prisão de segurança máxima da França situada na antiga Guiana Francesa.