Estes são socorros, ajuda; é preciso tentar
compreende-los para poder utilizá-los, e estes somente ocorrem por deferência.
Por que, talvez perguntem, o Céu não nos concede
estes ensinamentos sob uma forma mais
inteligível ? Para nos fazer trabalhar; para nos fazer aprender uma lição
ignorada e que nos seria indiferente se a curiosidade não nos alfinetasse; para
nos conduzir para a Vida, cuja tendência orgulhosa do mental nos desvia sensivelmente. A língua do
sonho é uma língua universal, a língua da vida. Os simples a compreendem,
porque estão mais pertos da realidade, porque se contentam em viver. De todos
os simples, é o místico o que melhor decifra esta linguagem, e que, alem disso,
fala, porque é ele quem vive com mais profundidade e mais intensidade.
Os seres complicados, ao contrario, de determinadas culturas
artificiais, presos nos sistemas, nas abstrações, nos jogos metafísicos, não
percebem mais a Vida, mas somente seu reflexo mental.
A ciência dos sonhos é, portanto intuitiva, uma
ciência do coração, uma arte propriamente dita. Exercê-la é um trabalho excelente
para a inteligência, para a imaginação, e nos faz progredir no conhecimento de
nós mesmos. Porque se a medicina hipocrática observasse cuidadosamente os
sonhos dos doentes, a vida do sono esclareceria também, de maneira mais feliz, as
dobras do ser interior e as imagens do inconsciente.
Digamos logo que, nas noites em que acreditamos serem
sem sonho, os sonhos não compreendidos contêm, quase sempre, uma força muito
ativa. Somente assimilamos bem o que nos é muito próximo; assim a união divina
é difícil, porque estamos longe de Deus; assim o discípulo do Cristo, quase
sempre, só tem para conduzi-lo, as
trevas profundas da fé.
Para melhor julgar os sonhos divinos, é preciso
primeiro viver no ambiente da Verdade. Nada em nós é puro, nem o coração, nem
os nervos, nem o princípio pensante;
nenhuma percepção é portanto exata. De mais, o mal que emanamos vicia a
atmosfera circundante em torno de nós e deforma os objetos. Na imensa maioria
dos casos, aquele que dorme não vê com exatidão; não entende bem as palavras de
sua visita espiritual; os meios que separam os espíritos dos homens do plano da
Verdade concedem sempre refringências. E
nossos sentidos, corporais ou espirituais, não obtêm mais que certezas
aproximativas.
Por conseqüência, na interpretação dos sonhos, é
preciso guardar-se das crenças supersticiosas e lembrar que nós somos velados
pelo Cristo com o cuidado mais terno e o
mais vigilante.
Em segundo lugar, é preciso apreciar a profundidade
do sono. Da mesma maneira que, quando trabalhamos, algumas partes somente do
ser trabalham enquanto o resto permanece indiferente, igualmente o corpo não
dorme nunca totalmente. Além do mais, o espírito pode se cindir; um dos seus
órgãos pode descer às entranhas da terra, um outro ir à China. O espírito do
corpo físico nada mais é do que o corpo do espírito total; cada víscera possui
seu espírito; o espírito de um braço pode sair de um lado, o espírito da cabeça,
de outro. Todos os reencontros, feitos em lugares tão diferentes, impressionam
o cérebro, desde que encontre uma célula receptiva; se estas impressões
são simultâneas, os sonhos se superpõem; o adormecido sonha uma cena, e,
nesta cena, ocorre um segundo sonho. Já vi até dez ou doze sonhos assim
entrelaçados. Se possuirmos uma grande calma, lembraremos; do contrário tudo se
confunde em uma mistura incoerente. Não é fácil explicar seus próprios sonhos;
Veja então quanto os sonhos dos outros podem ser embaraçosos.
Em terceiro lugar, é preciso conhecer as relações
biológicas do adormecido; discernir as afinidades da cada parte de seu indivíduo com os três reinos, com os outros
homens, com seu país, sua religião, seu planeta. Esta condição é muito difícil
de cumprir; mas o comum dos homens pode, sem ela, adquirir uma intuição
suficiente para as necessidades ordinárias; no caso excepcional de um
discípulo, destinado a uma missão especial, encontra-se sempre perto dele alguém mais avançado para instruí-lo.
Há duas
classes de sonhos: aqueles provenientes do temperamento e aqueles que respondem à preocupação
dominante. O homem interior, de fato, recebe as influências dos elementos e dos
planetas, do Spiritus mundi, como dizem os hermetistas; e sua vontade
imprime ao temperamento uma direção conforme seu ideal: busca de fortuna, ou de
honras, ou da ciência, ou de paixão.
Se um pintor sonhar a mesma cena de um químico, por exemplo, o
sentido da visão deferirá; ver um curso d´água pressagia uma coisa a um homem
político e uma outra à uma mãe de família. Assim, cada pessoa, devido sua
própria individualidade e a qualidade central de seu eu, comunica-se com um centro
diferente do Invisível. Dando origem a um terceiro fator devido à diversidade
dos simbolismos. É o bispo Synésius quem menciona esta particularidade
importante. Isto obriga cada pessoa a construir um dicionário pessoal. Mas se
seguirem o Cristo com todas as suas forças, a parte da Natureza será reduzida
ao minimum, em seus sonhos e em todas as suas atividades, enquanto a parte
sobrenatural aumentará.
Este ponto é capital para nós, dedicados ao estudo
da Luz evangélica. Como procuramos Deus através de nossos trabalhos e nossos
temperamentos individuais, saímos dos domínios da Natureza. Quanto mais nossa
busca é ardente, sincera, desinteressada, menos as cadeias da matéria, as rodas
astrais, os satélites dos deuses agirão sobre nós. A chama de nossa devoção ao
serviço de Jesus libera todo nosso organismo. Desde então, durante as noites,
estes não são mais os habitantes de tal
reino elementar, de tal planeta que vem nos visitar; são os servidores invisíveis e
particulares do verbo. As energias recebidas não descem mais de tal ordem
criada; elas chegam em linha direta do mundo central vivente da Luz, da
Verdade, da Vida.
Por conseqüência, a interpretação de nossos sonhos é
especial. Ela desprende de uma lei
primitiva, a saber, a vida da Matéria é sempre oposta à do Espírito. Uma, é o
egoísmo, a luta pela vida, o terrestre; a outra é amor, o sacrifício, o
celeste. Assim, aos olhos do discípulo do Evangelho, toda felicidade mundana é
uma infelicidade divina, todo sofrimento corporal é um júbilo espiritual, e
inversamente; se no sonho choramos, estamos aflitos, feridos, significam
prazeres, sorrisos e sucessos para a personalidade exterior.
O soldado do Céu é instruído diretamente pela
Verdade, deixe-me redizer. É o Verbo Jesus que o conforta e o ensina. Ora,
nenhum grão levanta sem que a porção de terra, onde foi semeada, não sofra por lhe
fornecer o sustento necessário. O homem natural é a terra; a essência do Verbo
em nós é a semente. Para que este locatário se torne uma chama, é preciso que
seu envelope, a personalidade, se deixe consumir.
Para nós que não procuramos satisfazer nem as conveniências
do corpo, nem as curiosidades da inteligência, mas somente o instinto sagrado
do reencontro divino; para nós que somente nos preocupamos com o tremor
silencioso da regeneração mística; que
nos esforçamos em renunciar ao eu; que nutrimos um único desejo: Jesus e seu Reino,
os sonhos se revestem de gravidade e de profundidade, pois são as visitas dos
amigos de nosso Amigo.
Para os discípulos sinceros que desejamos ser, é bem
lógico que, por exemplo, os sonhos de cantos, de músicas, danças, pressagiam
dores morais; os sonhos fúnebres e os mortos indicam uma próxima transformação
interior, mais ou menos completa; os seres baixos, os objetos repugnantes
indicam acerto material; a escola, igreja, convento, sacerdotes, monges
significam provas purificadoras, iniciação prática. Ver o Cristo, nem que seja
em efígie, é um grande sofrimento;
Aquele que conversa em sonho com o Cristo, ou que recebe qualquer coisa Dele,
esmola, um copo d´água, pode se regozijar: Ele vai dar um grande passo rumo à
perfeição, ele sentirá uma das dores que o
Cristo sofreu. Ações simples, como semear, subir uma encosta, descer, ir
de carro, um caminho de ferro, tomar chuva, se referem ao curso cotidiano da
existência e se explicam por eles
mesmos. O automóvel indica um avanço gratuito. Animais ou homens de cor negra
são sempre perigosos, o mesmo com os gigantes ou monstros. Para o verdadeiro
discípulo, o cão é sempre um amigo, o
cavalo um mensageiro, o leão um protetor.
Se o discípulo é bem sucedido, como digo toda hora,
em manter a plena possessão de suas faculdades durante o sono, chega a
colaborar com um dos grandes trabalhos místicos, àquele de Trabalhador ou
àquele de Soldado. Permita-me de dize algumas palavras sobre estas duas funções
importantes nas quais qualquer um de vocês pode, um dia, ser chamado a cumprir.
* * *
A grande batalha existente, desde o começo do mundo,
entre a Luz e as Trevas tem como árbitro o Pai. O chefe da primeira armada é o
Cristo; o chefe da segunda é Satã. Um e outro têm do Pai sua inteligência, seu
poder, seus soldados; suas forças são iguais; mas o Cristo tem alguma coisa a
mais que o Adversário, algo bem difícil
de conceber; podemos chamar esta vantagem: a sabedoria, ao compreender o
sentido pleno desta palavra. A arma do Céu é a doçura; Seus soldados dão tudo
que possuem: dinheiro, amizades, ciências, até sua vida. A arma do Inferno é a
cólera; seus soldados ferem, roubam e matam.
Esta batalha mística é conhecida por todas as
tradições.
O outro aspecto do drama cósmico, é a agricultura.
Em todos os lugares onde os soldados das Trevas acabaram de destruir, e em
todos os lugares que os soldados do Céu regaram com suas lágrimas e seu sangue,
vêem os valetes do trabalho do grande Semeador.
Seu trabalho é misterioso; eles preparam a obra definitiva; João batista é seu
chefe. Por seus cuidados, o Reino de Deus cresce insensivelmente; os desertos
se fertilizam, as moitas de espinho se cobrem de flores e de frutos; os atalhos,
escondidos nos matos, tornam-se estradas diretas e planas. De sorte que, na
conciliação final, o Pacífico poderá Se mostrar ao grande sol, Ele que Se mantêm
escondido durante séculos inumeráveis, onde
foi a coragem de todos os Seus soldados e a perseverança de todos os
Seus trabalhadores.
Estas duas armadas, estes dois povos possuem chefes. Nós já anunciamos quem são os
seus monarcas; cada um é representado sobre cada planeta: Satã pelo Príncipe
deste mundo, Jesus pelo Senhor deste mundo. O Príncipe centraliza todo o mal
que se comete aqui em baixo; o Senhor recolhe todas as preces e toda a
beneficência. Alguns homens, os mais meritosos e os mais humildes, recebem a
visita deste Senhor, general entre os soldados, mestre entre os trabalhadores,
amigo de Deus e tão unido ao Cristo que se torna semelhante, às vezes mesmo,
corporalmente (1).
Porque o Senhor deste mundo, e também o Príncipe, materializa,
quando julga útil, um corpo físico; entram e saem da vida, como um de nós, e
muitos esbarram com eles sem reconhecê-los. Feliz quem descobre a identidade
deste Senhor na aparência adotada. A grande parte dos discípulos crísticos
somente se aproxima em espírito; ele se apresenta então sob uma forma familiar,
mas com atributos que nenhuma outra criatura poderia se adornar; o Céu não o
permitiria. Somente em casos excepcionalmente raros, Ele adota a forma do
Cristo; a maior parte das aparições do Cristo para pessoas despertas, extáticas
ou em sono, não é verídica; trata-se somente de um servidor que tomou o manto
de seu Mestre.
Tudo isto, sem dúvida nenhuma, não terá uma
utilidade imediata. Entre as centenas de pessoas que me escutaram, terei feito me
entender, provavelmente, somente a uma única; uma só, talvez, se disponha ao
verdadeiro trabalho, a única necessária; É para esta que dei estes detalhes
e poderia falar mais dez anos, o que
faria com alegria se, no décimo primeiro ano, encontrar um coração pronto para
a ação.
Termino esta longa incursão nos domínios secretos do
misticismo.
O discípulo para aproveitar destas colaborações
celestes deve ser simples e integral; deve habitar no reino da Paz. O fenômeno
do sonho não lhe aparecerá como alguma coisa de excepcional; a seus olhos, é um
dos modos da Vida; é a mesma coisa que a
vigília; a sua contrapartida, o complemento, o prolongamento. Interpreta como
as circunstancias materiais, pois que todo o universo nada mais é para ele que
a expressão da potencia e da vontade divina. Não percebe as divergências, mas
as concordâncias; nem as similitudes aparentes, mas as identidades profundas.
Bem melhor ainda que o ocultista, ele sabe que tudo se corresponde; que cada
molécula de seu corpo possui uma afinidade com tal acontecimento, tal gênio,
tal ciência, tal planeta, tal tentação, tal virtude. Ele sabe que as imagens
invisíveis podem entrar no mental por muitas portas; pelo espírito do dedo, dos
ossos, bem como pela do cérebro. Quando se bate à noite contra os negros
adversários, ele não se surpreende no outro dia de manhã ao sentir fisicamente
o cansaço e as contusões; se algum Amigo secreto o reconforta com uma bebida
[medicinal] ou com um maná, ele não é surpreendido ao não sentir nem fome e nem
sede, por vários dias, talvez.
Assim, vês, há uma enorme diferença entre as visões
superficiais, naturais, que atravessam-nos à noite e as atividades místicas que
ocupam alguns indivíduos da elite. Como adquirir estas prerrogativas conhecidas
em teologia com o nome de visão, êxtases, arrebatamento, como merecê-los? Não
devemos procurar adquiri-los, pois o verdadeiro cristão se remete para tudo a
seu Mestre; não podemos merecê-los, pois tudo isto que vem do Céu é gratuito,
nenhum de nossos esforços pode pagar os dons de Deus. A única coisa possível é
se colocar nas condições menos desfavoráveis para receber esta ajuda.
* * *
O sono é um fenômeno muito importante digno de
alguma preparação. É o tempo da atividade interior mais elevada. O espírito do
homem piedoso sobe então ás regiões mais elevadas possíveis para sua capacidade
atual; ele desce para o despertar; mas, sem preparação, não subirá até o limite
de sua força ascensional.
Primeiro, como dormir?
Temos o dever de fornecer ao corpo o tempo de
repouso necessário. O sono antes da meia noite é o melhor. A cama deve
estar com a cabeceira na direção do norte ou este. A cor geral do quarto, das
tinturas, das cobertas, acalma onde domina o azul ou a malva e mais força se
for o amarelo imperial. É bom estarem as janelas abertas e as cortinas fechadas.
Não dormir com luz incidindo diretamente sobre a cabeça. Uma sopa frugal, uma
boa limpeza antes de se colocar na cama, eis para o material.
Quanto ao espiritual, há duas preparações; uma
geral: é a boa conduta segundo o
Evangelho; a outra imediata: é a prece a Deus unicamente. A Oração dominical é
suficiente, se modificarmos o quarto pedido, dizendo: “Dê-nos nesta noite nosso pão cotidiano”
Então o Pai, Senhor de todos os seres, nos
escuta.
Ele nos envia Sua clemência evitando, assim, contaminações
espirituais atraídas por nossas faltas diárias. Ele nos envia Sua proteção
descartando os atentados possíveis de
certos parasitários invisíveis. Sua misericórdia e Sua ajuda são anjos reais
que asseguram a integridade de nosso espírito vital e o comércio com a Luz de nosso espírito
psíquico.
O “pão
cotidiano” comporta todos os pedidos possíveis, pois tudo isto que podemos
receber espiritualmente nutre alguns de nossos corpos invisíveis. Mas, para que
nossos sonhos sejam os mais sãos, os mais úteis, os mais frutíferos, não peça o
extraordinário, nem trate de coisas misteriosas. Peça aquilo que vos esclareça
sobre tuas faltas do dia, sobre teus trabalhos do dia seguinte, que mostre os
melhores métodos para te conduzir ao bem. Esta é a sabedoria prática, pois
estamos aqui somente para o cumprimento do dever cotidiano.
Seguramente, já observastes, se já teve pesquisas
sem resultado, e passou noites na procura da solução de um problema ou no meio
de contornar um obstáculo, e nada encontrando, confessou para si, ou diante de
Deus, tua ignorância e tua impotência, e então a dificuldade se resolveu
sozinha, em alguns dias, ou mesmo, em algumas horas. Tuas inquietações foram
uma prece, prece viva, portanto prece potente. O Céu responde desde que se
coloque na calma necessária.
De fato, somos tiranos; é preciso, custe o que
custar, que nossas faculdades, nossa vida, funcione conforme as opiniões
construídas por nós mesmos. Acontece
seguidamente que estas não podem se sujeitar às nossas exigências; não
mais que uma locomotiva rolaria sobre uma estrada. Devemos deixar a ação aos
nossos órgãos psíquicos. Não deseje a todo custo ter sonhos; Não tiranize nada
em você. Peça ao Céu; Não empregue jamais drogas, talismãs, ritos mágicos, para
provocar sonhos reveladores.
Não somos mestres de nós mesmos na vigília, com mais
razão, somos menos ainda no sono; precisamos, portanto, de ajuda contra os
inimigos possíveis, uma direção, um escudo. Não tente, sob o louvável pretexto
de ajudar aos outros, sair em corpo astral; não ponha tua vontade na direção
destes trabalhos. Diga a nosso Amigo:
Disponha-me se posso ser bom para alguma coisa; senão deixe-me em minha ignorância e em meu torpor.
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Sonhos tenebrosos: sucubos |
Quando, à noite, algum gênio nos aparece, é preciso
acolhê-lo com a cordialidade fornecida pela confiança em Deus; esta segurança,
já muito rara no plano físico, é muito difícil de conservar no sono. Diga sobre
tudo à sua visita que tu não os chamaste, peça-o de reconhecer Jesus, Filho de
Deus encarnado; e não siga seu conselho, utilize seu ensinamento somente após
um cuidadoso exame. Porque é necessária uma extrema prudência em suas ligações
com o “Lado de Lá”; onde encontramos,
ainda mais que aqui, usurpadores e simuladores.
Muito constantemente os operários das Trevas são belos e sabem seduzir.
O Cristo não receia nos propor, com a simplicidade da pomba, a prudência da serpente. E este mesmo conselho
sobre a prudência me impede de fornecer exemplos práticos: isto seria abrir uma
porta a tais inimigos emboscados.
Se pretendermos lembrar nossos sonhos, é preciso
primeiro pedir ao Céu, antes de dormir. Então, assim que o sonho termina,
seremos despertos alguns segundos necessários para tomar nota em duas ou três
palavras. Pouco a pouco a memória se
habituará. Mas, se formos negligentes, o anjo não nos despertará mais. É
importante dormir na serenidade mais perfeita possível; somente pela prece podemos
obter o esquecimento das agonias, das cobiças, remorsos, sofrimentos. A calma é
necessária para dormir bem, para lembrar-se dos sonhos, e para compreendê-los.
Porque, no momento que fizermos, não nos parecerão muito naturais e muito lógicos?
É então quando os compreendemos.
Assim nos habituaremos docemente a reconhecer se o
sonho é pessoal ou alegórico, se é referente à ciência, à religião, à pátria;
Se tem um valor profético ou atual;
concernente a um amigo, ao passado, ou futuro; se é uma clarividência, uma
telepatia, uma visão.
* * *
Desde que tenho falado tão longamente de um sujeito
que não tem um aspecto muito sério, não infira que o considere essencial. O
Cristo ama nos encorajar; que ele nos dê a esperança por meio de uma afeição
humana, de um sucesso, ou de um sonho,
Ele é o mestre de Sua escolha. Considerar os sonhos como tolices ou
preocupar-se muito, são dois erros. É preciso recebê-los com atenção e
reconhecimento, como lições benevolentes, e ao mesmo tempo reconhecer que
nossos vícios e nossos defeitos nos impedem de entender perfeitamente estas
explicações. Quando fazemos nosso possível para realizar o Evangelho, podemos
esperar que um ou dois por mês, de nossos sonhos, serão verídicos, descidos do
Reino Eterno. É um pequeno resultado, mas é um resultado. Somos muito fracos
ainda; o Céu não pode nos oferecer uma alimentação muito rica, nós não
assimilaríamos. Ele nos prepara com pequenas experiências, proporcionais à
nossa fraqueza, pequenos trabalhos que não cansam nossa versatilidade. Tudo é
admirável à observação piedosa do discípulo; todo aspecto lhe é eloquente, pois
fala lhe de Deus. Admiremos os cortejos
dos sonhos; eles nos encaminham para uma admiração mais inteligente e mais
profunda.
(1) N. do A: Encontramos alguma
coisa análoga no misticismo muçulmano.
* Retirado e traduzido do
livro de Paul Sédir: “Lês forces
mystiques et la conduite de la vie” ,
Paris, edição dos Amitiés Spirituelles, 1977, Cap. 9, págs 133 à 150.
TRADUÇÃO: Pseudo-Sedir