sábado, 7 de novembro de 2015

REFLEXÕES SOBRE O HERMETISMO




          Reflexões sobre o hermetismo**
                                           Por Jollivet Castelot


I. A Primavera

Há alguns anos observamos uma renovação geral dos estudos herméticos. Numerosas publicações por todo o mundo, inclusive em língua francesa sobre Pitágoras, seus discípulos mais eminentes (Empédocles, Apolônio de Tiana ), seus santuários secretos (a Basílica da Porta Maior), os Neoplatônicos, os Hermetistas do Renascimento, a ponto do domínio da magia, da teurgia e da alquimia serem de novo explorados por universitários e tradutores. Evidentemente devemos observar certa reserva com textos menos filosóficos consagrados à alquimia ou a teurgia. Mas esperamos que a curiosidade e a renovação destes estudos tragam frutos positivos.

II. Interesse dos estudos herméticos.               

Os homens manifestaram, em todos os tempos, uma curiosidade legítima para com o problema de sua própria existência e de seu derradeiro porvir. Sabe-se que existe, na natureza, um conjunto de segredos cujo conhecimento concede ao iniciado a paz do coração, a alegria de espírito e o sentido da vida.

A revelação lenta e gradual desses segredos formava, entre os antigos, o objeto dos Mistérios. Em nossos dias, muitas pessoas estão ainda à procura do conteúdo dessas antigas iniciações. Por nossa parte afirmamos que esta tradição não desapareceu e é perpetuada sob uma forma oculta, iniciática e filosófica.

Sendo verdade que, por um simples esforço de erudição ou pela Via da comunicação interior, todo pesquisador de boa vontade pode descobrir certos pontos da tradição hermética, porém é praticamente impossível atingir a revelação dos Mistérios Tradicionais, sem a assistência de um estudo regular e contínuo dos textos do passado, e de um ensinamento direto e progressivo pontuado por iniciações. Lembramos ainda que, raras são as escolas que transmitem este método com toda a exigência prática necessária.

Os Mistérios possuem mais que uma base metafísica. Repousam sobre um conjunto de fatos verificáveis pela experiência, quando o estudante adquire pouco a pouco as bases de sua arte. Certos fenômenos chamados hoje de paranormais ( telepatia, pressentimentos, inspiração súbita, sonhos premonitórios ) podem ser reencontrados.



Entregue a si-mesmo, o homem em razão da insuficiência de seus meios de investigação, somente pode encontrar elementos de respostas incompletos quanto aos problemas relativos a sua natureza, a seu fim, a seu papel no universo, em quanto que a iniciação hermética lhe abre as portas de uma revelação incessantemente profunda.

Certas religiões fornecem em maior número diversos ensinamentos esotéricos de forma velada e popular. Mas estes não satisfazem àqueles que, cuidadosos da livre escolha das doutrinas e partidários do princípio do livre exame, recusam sujeitar-se às disciplinas imperiosas, extremistas e ficam à parte da vida religiosa para salvaguardar sua liberdade.

Ao contrário, a Tradição Hermética pode ajudar esses espíritos investigativos e livres, oferecendo uma via iniciática realmente ocidental que não pede inicialmente uma adesão aos seus ensinamentos. Propondo soluções sem impor; somente consentirão após terem verificado a excelência pela experiência pessoal.

Desmoralizados pela anarquia do mundo, revoltados por suas injustiças e crimes, aflitos pelas agonias contemporâneas, muitas pessoas, imbuídas de altruísmo e idealismo, se interessam pelo porvir da humanidade. Portanto, é natural que se voltem para as personalidades do passado, Pitágoras de Samos, que foi não somente um geômetra, um músico e um moralista, mais também e sobretudo, um Mestre da Iniciação, Platão, Plotino, etc.. Todos seus ensinamentos são sempre atuais e é profundamente desconcertante ler textos dessas distantes épocas que parecem terem sido redigidas há algumas semanas atrás. Estes falam à nossa alma, à nossa experiência e respondem as questões, preocupações e ameaças de nossa época.


III. Finalidades dos Mistérios.

  Seria inútil conceder aos Mistérios um papel restrito à educação mística, de edificação e formação pessoal. Sem dúvida, fornecer uma resposta precisa a todos os problemas concernentes ao homem e ao mundo já seria uma tarefa considerável e um benefício de incalculável magnitude. Da mesma maneira, obter a salvação de cada um é uma tarefa imensa.

Mas os Mistérios não se contentam unicamente em esclarecer os iniciados, devem ainda levar por intermédio daqueles que os recebem, uma luz para ser repartida com o mundo.

A iniciação fornece àqueles que a recebem, um papel benfeitor e útil. O iniciado não pode egoísticamente tratar de sua própria salvação, de sua perfeição. Deve ao contrário utilizar a luz recebida para clarear e curar seus semelhantes, segundo suas possibilidades, sem, entretanto, descuidar das exigências primitivas de esforços pessoais. 

Este dever obtido com a iniciação, refletindo a luz recebida e levando a felicidade a outros, deve ser realizada sem fraqueza, sem lucros individuais, no mais inteiro desinteresse.

Nos tempos modernos, os destinos dos povos são regidos por potências políticas e econômicas às vezes amorais ou mesmo imorais. Motivo das discordâncias cada vez maiores entre esses regimes político-econômicos e as exigências humanas reais que são cada vez mais ignoradas. O trabalho do iniciado deve, portanto, contribuir para a salvação de todos.



Notemos que na antigüidade, as condições mais próximas de um ideal espiritual foram realizadas em certas épocas. No Egito, o governo era teocrático, os iniciados, principalmente os sacerdotes teriam nas mãos o poder político. O mesmo se daria em certas repúblicas gregas ( Métaponto, Tarento, Crotone ), onde os monges, notadamente, nos legam o testemunho indubitável da preponderância dos iniciados nos conselhos governamentais. Não concordamos, entretanto, estas tentativas de governo com uma república ideal semelhante à de Platão que teria como conseqüência ser ainda mais intransigente e intolerante do que os regimes ateus e extremistas. Esta sociedade é de benefício ideal no sentido filosófico e podemos para descrevê-la, resgatar as Academias Platônicas da Renascença. Notemos, entretanto, que elas implicam em indivíduos que realizaram plenamente seu papel esotérico resumido no ideal da abadia de Thélème de Rabelais.

IV. Natureza dos Mistérios.

Existem numerosos ensinamentos iniciáticos, todos os povos possuem seus Mistérios.

Do mesmo modo, que todos os raios levam ao centro de uma circunferência, todos os Mistérios levam ao conhecimento de uma única realidade iniciática válida para toda a humanidade.

No mundo Ocidental, a maior parte dos Mistérios, derivam da grande tradição egípcio-helênica que, embora pouco conhecida, parece melhor adaptada à nossa sensibilidade. Esta ensina entre outra: a natureza do homem e seus diferentes corpos celestes que o compõem; a sobrevivência póstuma da alma; seu julgamento post-mortem (o peso da alma ou psycostasia ); seu destino após o julgamento.

Esta tradição impõe algumas prescrições em relação a certos Mistérios: proibição de cremação (em certos casos, muito semelhante ao Pitagorismo ); respeito a hierarquia; animação espiritual dos objetos de culto; utilização pela liturgia da água magnetizada, do fogo sagrado e de incenso; etc.

São estes grandes Mistérios que Pitágoras levou para a Europa no século VI antes de nossa era.

V. Os agrupamentos iniciáticos.

As ordens iniciáticas são agrupamentos fechados, dando por via de seleções severas, um ensinamento preciso dos Mistérios a um pequeno número de discípulos, que continuam por sua vez a cadeia de iniciação tornando-se, um dia, Mestres iniciadores.

Este ensinamento é direto, dado pessoalmente de Mestre a discípulo por via oral, “de boca à ouvido”. Implicando como fundamental, um trabalho regular, cotidiano, durante vários anos de técnicas simples, mas fundamentais. A este trabalho, é associado uma meditação regular e contínua das grandes obras dos Mestres do passado.

O conhecimento dos segredos da natureza somente pode ser dado às almas puras, suscetíveis de fazerem um bom uso, e não utilizá-las para fins de dominação pessoal com finalidades egoístas. Não podemos profanar os mistérios os comunicando à simples curiosos, a imprudentes, à pessoas orgulhosas e interesseiras. Mas também é necessário reconhecer que mesmo no caso, “de erro”, os Mistérios não seriam totalmente profanados porque seriam inacessíveis ao interior daqueles que não seguiram a ascese necessária. Os Mistérios não se restringem à conselhos de prudência e de virtude; Eles  ultrapassam o papel ético. 

Os Mistérios não fornecem somente a chave da vida, os segredos da morte, da felicidade, e uma comunicação de certas ciências, mais ainda um poder oculto, o de agir sobre o plano espiritual. Os possuidores desses poderes são livres para dispor, o que impõe ao transmissor uma grave responsabilidade.

O Mestre iniciador é, não esqueçamos, um sacerdote, um “sacerdoce magnus”, um intermediário entre nosso mundo e o do alto; pode colocar em movimento as energias naturais, emitir ondas mentais onde é o gerador consciente e responsável.

É o pai de seus discípulos. Os inicia ( initium=começo ) comunicando, por uma magnetização, uma parte de sua própria vitalidade espiritual, de sua alma.  Dando-os uma carga psíquica induzida, porque iniciar, é de fato, dar a vida a um ser novo sobre o plano espiritual.  


Este ato tão importante quanto a geração sobre o plano material, não pode ser feito levianamente, porque empenha para sempre a responsabilidade do iniciador. A responsabilidade para com esses iniciados é equivalente à responsabilidade para com nossas crianças.

Concebemos assim a responsabilidade dos iniciadores face à humanidade, e com que prudência os Mistérios devem ser comunicados.

Compreendamos também a existência de falsas escolas de iniciação. Não podemos, por exemplo, considerar como escola iniciática um agrupamento que limita-se a leitura dos rituais sem os fazer viver sobre o plano espiritual; onde o Mestre iniciador é um simples guardião e doutor da lei; onde o Mestre iniciador não é mais que um professor de moral; onde não solicita a assistência de uma força espiritual, em que o universo está banhado; não comunicam nenhum poder porque o próprio jamais o recebeu.

As religiões desde que existem, isto é, desde a antiguidade mais recuada até nossos dias, são muito numerosas e engendraram teologias não menos numerosas. Estas religiões, assim como essas teologias, estão sempre em luta entre si, sem chegar jamais a se entenderem ou mesmo se compreenderem. Nenhuma entre elas jamais chegou a dominar inteiramente as outras nem a converter a humanidade inteira, malgrado esta finalidade faça parte de seu ensinamento dogmático, porque cada religião pretende ser diretamente revelada por Deus e deve triunfar um dia sobre toda a terra.


As religiões jamais chegaram a estabelecer entre si um acordo, malgrado uma certa comunhão de ideias encontradas, resultado do fato de seus fundadores terem sido frequentemente gênios religiosos que entreveram os mesmos princípios gerais da verdadeira devoção e da verdadeira moralidade e também do fato de que as concepções religiosas são em números muitos restritas. Não se trata de entrarmos nas questões doutrinais e nos diversos métodos religiosos. Estes pontos já foram tratados.

É inútil demonstrar a divergência profunda existente hoje entre os dogmas das principais religiões e as concepções modernas a respeito do Universo, sobre sua estrutura e sobre seus destinos, os quais são ligados à vida e aos destinos da humanidade. Estes pontos estão sendo colocados em evidência. Parece nitidamente, que a noção de Deus, as ligações entre o Mundo e Deus, não poderiam mais serem admitidos por nossa inteligência. A maneira de considerar as coisas da Natureza e as coisas da religião mudou inteiramente e não saberíamos mais retornar à anterior. 

Logo, as religiões não evoluíram quanto ao fundo de seus princípios e conservaram a vestimenta mitológica que as tornam insuportáveis ao entendimento moderno. Mesmo sob a forma atenuada, simbólica, que certas religiões adotaram, como o misticismo fabuloso, o sobrenatural transcendental alojado no ensinamento tradicional, para a religião cristã, por exemplo. Isto parece evidente para o protestantismo que conservou certas noções pela qual se aparenta ainda à mitologia e a fábula.

Contentemo-nos de lembrar a unicidade atribuída a Jesus, sua impecabilidade absoluta pelo qual ele se separa da humanidade, sua filiação especial por ligação a Deus, sua ação presente na cena assim como nos acontecimentos do mundo, enfim, a noção de milagre.

Nenhuma religião rejeita inteiramente as velhas crenças, que somente a razão e a ciência saberiam admitir. O misticismo está sempre na sua base e esse misticismo se desenvolve de formas diferentes e contraditórias nas diversas religiões que continuam a se levantar umas contra as outras sem procurar sinceramente a se confederar entre si. Poderão algum dia? É necessário não esquecer, de fato, que as religiões são um produto do meio étnico, nacional e social de onde nascem e se desenvolvem, de onde surgem as rivalidades e o antagonismo indestrutíveis. 

As religiões possuem sua utilidade em quanto fator de evolução em um momento dado e suas teologias têm o desenvolvimento necessário do ensinamento que se transforma, mais não ocorre o mesmo atualmente, as religiões estão cristalizadas, estando coaguladas e permanecendo atrás do movimento que arrasta em nossa época a ciência, os povos e as civilizações a caminho de qualquer coisa de novo, a caminho de um desconcertamento radical de nossas ideias e de nossa ação.

Mas, as velhas religiões não estão mortas. Conservam a vitalidade e defendem sua existência ameaçada e vacilante com uma severidade que anima os velhos desejosos de não morrerem. Entretanto, o golpe funesto foi dado em seu ser mais íntimo e estes não se erguerão mais. Desfazendo-se lenta, mas seguramente, como fizeram seus antepassados, nos tempos longínquos e cederão o lugar às formas religiosas mais jovens e diferentes que se apoderarão a seu turno, por um tempo determinado, de algumas certezas assim, como de algumas crenças, cujo espírito moderno fez a conquista.

Vejamos agora com toda prudência imposta por semelhante sujeito, qual deveria ser a evolução religiosa, do pensamento atual e futuro e em que podemos esperar um progresso real, um encaminhamento mais rápido entre a razão e a fé, entre a intuição e a experiência, entre o sentimento e a lógica, graças o qual surgirá a religião da ciência e a ciência da religião.

Encontramos a base desse desenvolvimento religioso filosófico e científico no hermetismo, cuja tradição esotérica persegue através dos séculos, desde uma época muito recuada, chegando a alguns milhares de anos. Tradição esta, restrita aos mistérios egípcios, aos ensinamentos iniciáticos da Índia e da Pérsia, e a cabala judaica que refletem os conhecimentos dos pensadores do Oriente.

Esta tradição, não obstante, às reservas necessárias, constitui a verdadeira síntese religiosa, científica, moral e social, porque repousa na fé sobre a intuição metafísica, sobre o misticismo naturalista, sobre o racionalismo filosófico e sobre as conquistas positivas e progressivas da experiência, sobre a exploração e o aprofundamento contínuo do domínio ilimitado da natureza.

Certamente, é inegável que a imaginação, frequentemente fantasiosa, se confunde à observação, ao pensamento, à contemplação e à pesquisa. Isto é o mesmo, alhures, em todos os conhecimentos humanos que não se edificam lentamente por um trabalho incessante de crítica e de eliminação. Não restando menos que o método geral aplicado pelos adeptos do hermetismo apoiado sobre a lógica, que escruta infatigavelmente a Natureza sob todas suas formas e que não abandona jamais o terreno sólido do Mundo o qual o homem pertence e que recebe as influências intelectuais e espirituais.

O hermetismo têm claramente demonstrado, a Unidade essencial de todas as religiões e o elo que as unem sob as diversas aparências dogmáticas, simbólicas e alegóricas. De fato, a explicação esotérica das religiões às conduzem a uma base única que é a astronomia. Todos os mitos religiosos recordam o movimento dos planetas, do sol e das constelações, emprestando uma aparência humana a certas revelações científicas personificadas em um Deus descendente sobre nosso globo e encarnado na humanidade. Este Deus-homem, nascido no solstício de inverno, morto e depois ressuscitado no equinócio da primavera [no hemisfério norte]. Os teóricos agregaram um grande número de definições alegóricas, e às vezes, mesmo filosóficas, a este culto solar universal. Contentemo-nos de lembrar a introdução do princípio platônico, o Logos na religião cristã, o que deu lugar à construção progressiva do dogma da trindade entre outros.

Não atemo-nos por mais tempo sobre esta matéria bem conhecida do público e colocada em evidência por numerosos escritores, desde a aparição da obra de Dupuis: L’Origine de tous les cultes ( A origem de todos os cultos ).


 A síntese religiosa do hermetismo introduziu, portanto, a ciência do Universo em sua explicação positiva dos aparentes mistérios que nos cercam, não desobrigando esta via de recorrer aos princípios da astrologia, da alquimia, da magia e das artes divinatórias. A astrologia estuda as influências dos astros sobre os acontecimentos físicos e orgânicos, sobre a evolução da terra e da humanidade, influências reconhecidas hoje novamente pela ciência oficial que afirma por seu lado, após ter ridicularizado os antigos, que o sol, a lua, e os planetas possuem uma ação eletromagnética sobre os seres e suas determinações.

A alquimia não é outra que o estudo da transformação atômica, da transmutação perpétua dos elementos químicos que constituem o Universo inteiro.

A magia que compreende as ciências precedentes estuda especialmente as forças ocultas da Natureza, ou seja, a ciência primitiva e é dela que saíram a física, a química, o magnetismo, o hipnotismo, psiquismo, como é da astrologia que saiu o conhecimento dos números, base da matemática e da geometria, da álgebra, etc. Sobre a magia repousa ainda hoje o ritualismo das cerimônias religiosas, assim como a maior parte da liturgia.

Enfim, as artes divinatórias repousam sobre o determinismo, às vezes previsíveis por certos meios intuitivos associados ao racionalismo, dos fenômenos e dos acontecimentos formadores da trama dos destinos do mundo e dos homens.
        
Temos então o hermetismo constituindo o verdadeiro conhecimento religioso e explicando os símbolos e as fábulas de todas as religiões e elevando-se acima de todas as crenças e se inspirando no espírito puro, liberado de todos os dogmatismos contraditórios e autoritários, e de todas as lendas que envolvem o sentimento religioso e impedem de atingir o centro divino de onde irradia a luz eterna que não profana nenhuma invenção pueril ou má, nenhuma imaginação desavergonhada ou errônea, isto é, preocupada de interesses humanos. 

O hermetismo conduz à religião universal que reconhece somente o Deus insondável e vivente, de outro culto que não seja o culto da Verdade, do Belo e do Bem.

O hermetismo, sempre se elevando a Deus por um sentimento profundo de fé e de amor, entrega-se sempre a uma especulação intelectual muito complexa e muito corajosa de Deus, jamais concebido como um ser pessoal como faz a maior parte das religiões, mais sempre considerado como o Ser dos seres, a potência eterna, absoluta, infinita e, por consequência insondável em sua essência, incognoscível nele-mesmo, mas cognoscível por sua manifestação no seio da Natureza, do Cosmo.

Para o hermetismo, Deus e o Mundo são Um em seu princípio e não podem ser, considerados separadamente, um do outro. O mundo não pode ser uma criação no sentido próprio da palavra, mais antes uma emanação, porque o infinito contém tudo, contendo todas as propriedades e todas as possibilidades contém o finito, produz o ato, compreende a afirmação ao mesmo tempo em que a negação, isto significa que ele unifica os contrários. Estes contrários não são outros, que os existentes no pensamento humano. Não existem antinomias no seio de Deus.             

Simbolicamente, Deus pode ser concebido como a Integral e o mundo como sua derivada ou sua diferencial.

Esta derivada, acrescida da Integral, não pode jamais ser integrada de uma maneira absoluta porque o mundo tende para a harmonia, para a perfeição sem jamais poder os encarnar absolutamente. Isto explica a imperfeição do mundo e dos seres comparativamente a Deus e isto será a famosa razão da queda fatal e necessária resultante do conhecimento e que constrange o mundo a perseguir incansavelmente um retorno sempre maior para sua fonte, embora este seja aproximativo. 

E é esta definição simbólica dada pela análise das altas matemáticas que permite considerar Deus como sendo a síntese e o mundo como sendo a substância anárquica, e esta explicação figurada permite construir o Universo com a ajuda da representação das esferas e das hiper-esferas se desenvolvendo e se penetrando reciprocamente, realizando a unidade sob formas múltiplas, mas de fundos idênticos, a esfera sendo a curva ilimitada traçada pelo infinito fechando sobre ela mesma para se abrir de novo para a hipérbole, curva abrindo-se sobre o infinito. É sempre a mesma vida, o infinito absoluto opondo-se no finito, em um espaço e em um tempo relativos, em uma imperfeição que se eclipsa na harmonia do Todo.

É impossível, em sentido filosófico como na pura religião, de separar Deus e o Mundo, de observar o Mundo como uma criação, isto é como uma aparição no infinito e na eternidade, como uma exteriorização voluntária e livre.

Não existe criação no seio do infinito e da eternidade que não comporte de instante ou de começo no tempo, pois o tempo não existe em Deus.

Disto resulta que o Mundo é consubstanciado a Deus, que o limite é posto pelo ilimitado do qual ele é somente uma expressão formal.

O Mundo não pode resultar de desejos ou de movimentos exteriores porque em Deus não existe mudança e se o Mundo proviesse de um movimento, seria necessário supor que Deus não preenche todas as condições de felicidade e de harmonia, pois, um ser contido nele desejaria sair de Deus e viver sua própria vida, o que é impossível, absurdo e contraditório com a ideia de Deus. A tese sustentada por M. Julien Benda em seu livro “Essai d’un discours sur les rapports existant entre Dieu et le Monde” é, portanto falsa, contraditória, filosoficamente falando, não válida.


Não podemos diferenciar radicalmente o Ser concebido como Deus e o mesmo Ser concebido como Mundo. Esta diferenciação só pode ser relativa como é, pela representação da integral e da derivada saída de um Universo divino pelo seu princípio, abrindo-se sob a forma de esferas figurando os espaços não euclidianos a várias dimensões encerradas umas nas outras, como a 4a  dimensão contém as 3 dimensões conhecidas e como o hiperespaço fechando as esferas e os espaços à dimensões menores (1).

O Mundo e o universo finito, isto é considerado por nós como terminado, representaria por consequência a oposição do infinito a ele-mesmo, oposição que a forma de nosso pensamento nos constrange a admitir, embora na verdade não seja possível de ultrapassar o domínio da hipótese. As antimonias, Kant a provou magistralmente em sua “Crítica da razão pura” realçando somente a forma de nosso conhecimento e entendimento. Nós somos, portanto, obrigados a nos submeter a esta lei da razão humana, mais é necessário sempre nos lembrarmos que esses princípios são válidos apenas para nossa mentalidade, não possuindo um sentido absoluto. 

Dito isto, o símbolo matemático da integral e da derivada é de um uso cômodo e fecundo na circunstância. A derivada é indefinida mais não infinita e não se confunde com o infinito para o qual tende para integração e de que é, de algum modo, saída.

O Mundo, assim considerado como emanação eterna de Deus, não é, portanto, perfeito. Ele se distância, se desvia do absoluto e diferencia-se dele por derivadas sucessivas que são as causas secundárias. Deste estado de imperfeição, de individualização, de separação, de divisão, provém o que chamamos de uma maneira relativa o mal e o sofrimento, mas de outra parte, o mundo que encerra em si o princípio divino, aspira continuamente retornar a ele e a se juntar ao absoluto. O corpo de Deus, constituído pela emanação original, deseja e deve formar uma unidade com o espírito que lhe deu nascimento e como este corpo é animado de um movimento de evolução, o acesso à reintegração, cujo desvio o distanciou, torna-se natural.

Este desvio constitui o que as religiões chamam de queda, como já dissemos, mas esta queda não é imputável a um pecado e não é o mal. É o efeito da constituição mesmo de Deus. Resulta de sua própria natureza, de sua potência absoluta, infinita e eterna que anima todos os seres e os reconduz sem cessar a ela pelos estados sucessivos formando o desenvolvimento da consciência através da vida. É Deus ele-mesmo, que a consciência reencontra na sua parte mais profunda quando é purificada, e o duplo movimento aparente da queda e da redenção pertence à mesma realidade. É uma pulsação, é um sopro contínuo de exalação e de aspiração.

A religião revelada pelo hermetismo consiste, portanto, como vimos, em um modo intelectual e moral de pensar o mundo e de viver a fim de efetuar o retorno a Deus, princípio vivente da Unidade e da Identidade de todo ser e de toda coisa, pois Deus é o espírito animador do Cosmo que realiza seu organismo, seu corpo visível e invisível. A marcha ascendente consiste em uma evolução do particular ao Universal, do limitado ao ilimitado, do finito ao infinito, do relativo ao absoluto, do determinado ao indeterminado, do imperfeito à harmonia, da derivada à integral. O movimento derivativo ou diferencial da desintegração constitui o movimento de evolução. As duas oscilações do ser são eternas e simultâneas. A contemplação bem-aventurada nos fornece assim o conhecimento científico e o conhecimento filosófico e moral em uma síntese positiva, lógica e racional não excluindo nenhum atributo de nosso ser, nenhuma qualidade de nossa inteligência ou de nossa alma banhando na alma divina e universal da Natureza, esposa e filha de Deus. Esta contemplação, iluminando nosso espírito, o une ao espírito da fonte eterna de onde provém e esta união mergulha todos aqueles que atingem no êxtase inefável do amor e da adoração, porque a mais alta especulação intelectual, grave, serena, mas não austera, reverte-se de uma poesia sublime e sagrada que inspira e transfigura os grandes místicos do pensamento e os gênios imortais para que as barreiras do tempo e do espaço se desvaneçam diante da verdade conquistada.

Todos, totalizados no imenso Universo sobre as terras inumeráveis onde sofremos, onde procuramos e morremos, somos chamados à serenidade e ao saber, porque somos solidários uns com os outros e que o mesmo ser reside em cada um de nós. A ele convém fixar de uma maneira definitiva e de molduras rígidas,  regras de condutas permissíveis de alcançar o desatar das cadeias que nos retêm prisioneiros e nos impedem de subir aos cumes entrevistos. Devemos, a exemplo das religiões, reduzir a existência às leis do código moral imutável e coagular a vida em uma atitude única, limitada por uma disciplina estreita? Não. As almas e os espíritos não são todos fundidos na mesma forma, e a maneira de ver e de enxergar as coisas varia com os indivíduos. Evitemos, todavia, de aconselhar o ascetismo como fazem várias religiões e certos sistemas filosóficos que consideram a vida como essencialmente má ou como radicalmente viciada por um pecado original, encontrando a salvação somente no abandono de todas as satisfações terrestres e de todos os esforços intelectuais e artísticos confinados a um pessimismo não menos falso que o otimismo beato e a negação, mais ou menos total do Mundo.  

Nada nos autoriza considerarmos a vida como um erro ou mesmo o resultado de uma falta pré-humana resgatada somente por um castigo contínuo, por um sofrimento voluntário tendo como objetivo destruir todo desejo, toda paixão, e conduzir ao aniquilamento da personalidade do indivíduo. A prática do ascetismo, fatigando o corpo por privações, provoca simultaneamente o enfraquecimento da alma e da inteligência, abrindo assim a porta às doenças físicas e mentais, cujos exemplos são dados pelas biografias dos místicos pertencentes às diversas religiões e as diversas seitas.

Recordamos que o Buda Chakya-Muni somente atingiu o conhecimento perfeito após ter renunciado ao ascetismo que o deprimia e que Jesus de Nazaré, não mais que Zoroastro e Maomé, não aconselhavam ou praticavam o ascetismo.

Não se trata de suprimir em nós a energia vital, mas de equilibrar, tornando-a rítmica, isto é harmoniosa, por uma disciplina forte e constante. Trata-se de suprimir progressivamente o egoísmo exagerado, manifestação da força centrípeta geradora do nascimento das paixões desordenadas, dos abusos de todos os tipos e de converter em um princípio regulador, moderador, suscetível de ordenar o ser à imagem da ordem divina emanada para nós, fonte de altruísmo e abnegação.

É impossível sobre esta terra vencer inteiramente o egoísmo, pivô da vida individual e determinada. E, se tal resultado fosse conseguido, nosso ser desapareceria no nada absoluto, no inconsciente total, porque todo estado de consciência é ligado a uma forma mais ou menos alta e mais ou menos larga do eu. Deus não poderia ser concebido ele-mesmo como negação da consciência, de modo pessoal, isto que seria, pelo menos, antropomorfizar uma consciência de um grau compelido até o infinito. O infinito inconsciente equivaleria ao nada.

O ascetismo mais radical não depura o ser de toda consciência nem de todo desejo, porque os ascetas morrem para o mundo dos sentidos para adquirir o esplendor e as volúpias inefáveis do mundo celeste. Portanto, não negam a vida, mas somente uma certa forma de vida. E é somente em comparação à vida sobrenatural que a vida presente é considerada como negativa, ou nula em face da existência divina, como a vida divina é nula em face da vida corporal. Há somente uma maneira de conceber as duas formas opostas da vida, vida idêntica em sua essência.

Mas como acabamos de dizer, o ascetismo é um exagero da alma e um entrave ao progresso, contrariando a finalidade proposta. Não se trata de procurar a dor e suprimir todo desejo e paixão. Trata-se, repetimos, ordenar a vida em conformidade com a ordem divina universal, de atrair para si a luz, a bondade, à força e justiça e de irradiar em torno de si estas qualidades. É necessário transmutar os valores morais a fim de realizar um mundo melhor, mais elevado que o nosso e somente será pela evolução de nossa consciência e de nossas almas que poderemos edificar o reino de Deus sobre a terra e outros, por meio sem duvida, das vidas sucessivas que conduzirão cada vez por mais tempo, e pelos esforços repetidos, ao objetivo cada vez mais claro e visível a nos mirar.

Não queimemos rápido nossas etapas. Um curso rápido só interessa aos mais valentes, mas, fora os heróis por vezes temerários, há uma multidão incontável de homens médios, cujo vigor moral e intelectual, somente seriam afrontado com terríveis combates com o dragão que nos devora se não o enterrarmos. Somente sabem pedir a esta multidão para abandonar, sem ideia de retorno, as alegrias correntes e necessárias da existência cotidiana. Sem falar do estimado ascetismo inútil e perigoso, é fora de dúvida que a mudança completa da existência não poderia ser efetuada pela massa dos indivíduos e que a moral consiste para eles na pesquisa de um equilíbrio harmonioso de suas necessidades instintivas e de suas paixões diversas, com o trabalho paciente graças ao qual se elevarão e graças o qual, constituirá um mundo superior de maior dignidade.
Evidentemente, não será sob a forma terrestre que atingiremos o infinito, o absoluto, nem a felicidade eterna, mas isto não significa que o infinito seja a negação da vida, da consciência, da inteligência e do amor, que tudo seja nulo aos olhos de Deus.

Para a religião delineada, para a religião, para a fé metafísica e científica, que considera Deus e o Mundo como duas faces de um mesmo ser, a perfeição suprema consiste em uma união estreita e consentida, jamais absoluta, entre os dois princípios onde um é o centro incógnito e onde o outro é o cerco do ilimitado e do indefinido que traça a curva eterna entorno do ponto de onde é saído e constituído.

                                                                           Jollivet Castelot

1. Podemos representar a forma cilíndrica do Universo dizendo que a integral considerada como Deus engendra a derivada tomada como reta geradora, a qual se engendraria ao deslocar uma superfície cilíndrica. Assim o Universo, com sua estrutura geométrica, saída do princípio infinito e absoluto chamado Deus.
     Na hipótese de um Deus hiperbólico, seria necessário supor a formação de um cone circular  estreito e a divisão desse cone por um plano paralelo às duas geratrizes. O movimento das linhas do Universo seria engendrado pelo círculo ou a esfera e o cone daria nascimento à hipérbole que seria o resultado dos movimentos derivados da integral primitiva.

** Tradução: Pseudo-Sedir.




2 comentários:

  1. Sobre Deus Eterno "gerando" uma Criação efêmera - eu tive um estalo assistindo "A Origem" (filme com Leonardo di Capprio) que, talvez, ajude a resolver esses paradoxos aparentes da mente ao tratar sobre o Infinito "ativo".

    O Ser-em-si, se "dormir" (como na Noite de Brahma), pode deixar que, sem deixar de ser o que é, poderia passivamente deixar que se criassem seres efêmeros que não dependam de uma ação direta para existirem, mas tão-somente que Ele (o "Sonhador") esteja "vivo": seria como um "Sonho" Universal, em uma analogia primária.

    No filme, os seres se manifestam sempre nas "camadas do sonho", agindo sucessivamente nelas e em sequência. O sonhador (de cuja mente depende a manutenção do "sonho", a Manifestação) não influi no sonho, senão que o sonho desenvolve-se livremente dentro do teatro que sua mente deixe que se monte.

    Ainda no filme: quando um ser "morria" numa camada, automaticamente passava à camada superior, e assim por diante. Eis que, na camada mais superior do sonho, quando o ser superior "morria", então cessava a manifestação do Sonho e o Sonhador acordava.

    Dado que estamos num ciclo de evolução-involução, não considero o Dia e Noite de Brahma como fases da mesma manifestação Universal. Considero a Manifestação a própria Noite inteira de Brahma, onde toda a Criação é efêmera e, digamos assim, dependente do "sono" de um Sonhador que, ao mesmo tempo, é uma "Entidade Universal" e cuja mente é o terreno (espaço) onde essa Manifestação se dá fora da eternidade.

    Não sei se me fiz entender... enfim. Assista ao filme - se já não assistiu - com essas observações minhas à mão.

    Um abraço em Cristo!

    ResponderExcluir
  2. Boa noite Júlio!

    Infelizmente ainda não assisti este filme, por isso, estou com dificuldade de visualizar seus comentários. Vou assistir o filme e depois reler seu texto. Obrigado pela participação. Muita Paz!

    ResponderExcluir