O
HOMEM QUE NÃO SABIA NADA
Por Marco Antonio Coutinho (1)
É possível que aquele
velhinho que acabava de falecer não soubesse realmente tudo. Afinal de contas,
quem é que sabe? Mas naquele dia, com a morte de Dantinne, desaparecia também
um homem que foi considerado um mestre entre os mestres, o Príncipe da Iniciação
Ocidental: Sâr Hiéronymus.
Da vida pessoal do mestre
pouco se sabia, mesmo na época de sua maior influência, que se estendeu
principalmente entre os anos 20 e 50. Durante esse período, a figura enigmática
de Sâr Hiéronymus aparecia tão somente por ocasião dos cenáculos e conventos
secretos das ordens tradicionais, quando ele fazia valer sua autoridade e
conhecimentos, para orientar os dirigentes das mais antigas confrarias de
estudantes de mistérios do Ocidente. O Grande Mestre da AMORC para a França na
época, Hans Grüter, inquietou-se com tanto mistério, e chegou a comentar numa
carta: "Não conhecendo nem o seu nome profano, nem o seu endereço,
perguntei ao nosso grande amigo Mallinger como poderia lhe fazer chegar uma
palavrinha". Jean Mallinger era Sâr Elgin, braço direito de Hiéronymus, e
um dos raros interlocutores do mestre que podia ter acesso à sua vida pessoal.
Hiéronymus era secreto por natureza. Se, por um lado, aqueles que participavam
de suas atividades iniciáticas nada conheciam sobre sua vida privativa, tampouco
os que o conheciam pessoalmente sabiam qualquer coisa de suas atividades
tradicionais.
MESTRE ROSACRUCIANO,
MARTINISTA E PITAGORICIANO
Sâr Hiéronymus nasceu em
19 de abril de 1884, em Huy Sur Meuse, na Bélgica. Foi batizado na Igreja
Católica Romana, à qual permaneceu fiel até o fim de seus dias. Embora tenha
interrompido seus estudos aos dezesseis anos de idade, para sustentar a família,
retomou-os mais tarde, na Universidade de Liège, onde tornou-se um especialista
em línguas orientais. O ‘nomem mysticum’ "Sâr Hiéronymus", sob o qual
ele ficou mais conhecido, era consequência direta de sua posição nos meios
esotéricos europeus. Sâr, título reservado a alguns dirigentes ou iniciados de
alto grau no mundo da iniciação, é de origem egípcia, e significa Filho do Sol
(Sa = filho e R', ou Rá, ou ainda Rê = Sol). Ao lado desse título, os
dirigentes que tinham o direito reconhecido de usá-lo apunham um nome sagrado.
Assim, por exemplo, Harvey Spencer Lewis ficou conhecido como Sâr Alden, Jeanne
Guesdon como Sâr Puritia, e Léon Lelarge como Sâr Agni. Quanto a Dantinne,
continuou impessoal até na adoção de seu nome sagrado: Hiéronymus significa simplesmente...
"nome sagrado"!
Na vida civil Émile
Dantinne era bibliotecário de sua cidadezinha, e funcionário do
"Télégraphes et Téléphones". Essas atividades pareciam
proporcionar-Ihe tudo aquilo de que necessitava: silêncio, estudo,
tranquilidade e anonimato. E foi nesse clima de vida quase monástica que
Dantinne empreendeu sua fulgurante jornada iniciática. Desde os primeiros
estudos aos pés de seu mestre, Josephin Péladan (Sâr Merodack), até a venerável
posição de Imperator da Rose+Croix da Europa, ele percorreu um caminho de muito
sacrifício, muito estudo, e organizou dedicadamente as mais importantes ordens
esotéricas na Europa. Dentre elas, a Rosa-Cruz, o Martinismo e o Pitagorismo.
As atividades
rosacrucianas de Dantinne foram herdadas diretamente de seu mestre Péladan. O
discípulo reorganizou a obra empreendida por seu predecessor, através da Ordem
Rosa-Cruz Universal, ou Interna, que era composta por três graus: Escudeiro,
Cavaleiro e Comendador. Esta nomenclatura se explica facilmente. Ao contrário
de algumas ramificações rosacrucianas igualmente importantes - que acentuam
mais a via do alquimista - a Rosa-Cruz de Hiéronymus enfatizava a via
cavaleiresca. Para ele "a R+C é uma ordem de cavalaria cristã, fiel à
tradição do cristianismo, que se considera como a guardiã do Espírito
Santo".
Para ingressar na
Rosacruz Interna, no entanto, era necessário que os aspirantes passassem pelas
provas de uma outra organização, concebida como uma espécie de átrio, de pátio
externo, a Ordem Rosacruz Universitária, frequentada principalmente por estudantes,
e composta de nove graus: Zelator, Theoreticus, Practicus, Philosophus, Adeptus
Minor, Adeptus Major, Adeptus Exemptus, Magister Templi e Magus. Uma vez
concluído o grau de Magus, o aspirante poderia postular admissão à Rosacruz
Universal, ou Interna, sem ter qualquer certeza de que seria realmente
recebido.
Hiéronymus foi também um
alto iniciado na tradição pitagoriciana, e despertou na Europa a Ordem
Pitagoriciana, a qual ficou também conhecida, na época, como Ordem Hermetista
Tetramegista e Mística (O.H.T.M.), ou ainda Ordem de Hermes. A Ordem
Pitagoriciana era coordenada pelo Quadrado da Perfeição, formado pelo Sublime
Grão-Mestre da Ordem e seus três secretários ou Superiores Incógnitos, e
compunha-se de quatro graus. Os três primeiros - Loja Pitagoriciana, Soberano
Capítulo Ocultista e Grande Areópago Hermetista - eram presididos, cada um, por
um dos Superiores Incógnitos. O quarto e último grau - Sublime Consistório
Luminoso - funcionava sob a supervisão direta do próprio Grão-Mestre da Ordem.
Tardiamente, Dantinne foi iniciado nos ritos do Martinismo. Primeiramente na
Ordem Martinista e Sinárquica, e depois na Ordem Martinista Tradicional (no
Brasil, Tradicional Ordem Martinista). Entretanto, até hoje pairam dúvidas
sobre uma eventual filiação do mestre à Maçonaria. Alguns historiadores sugerem
que Dantinne veria com maus olhos a abolição do conceito do Grande Arquiteto do
Universo por determinados grupos maçônicos europeus (particularmente na
França), mas que poderia ter-se filiado a um dos ritos de Mênfis-Mizraïm,
eminentemente místicos e diretamente ligados à tradição esotérica do Antigo
Egito.
De todo modo, durante
muitos anos, Émile Dantinne animou as atividades tradicionais da velha Europa,
e dedicou-se profundamente às suas pesquisas pessoais. Ele era um especialista
na Medicina Espagírica, uma forma de arte terapêutica baseada nos princípios da
alquimia. Conhecia também em profundidade os princípios do magnetismo psíquico
(que deram origem à moderna hipnose) e a arte da radiestesia. Conta-se mesmo
que, durante a 2a Guerra Mundial, ele teria colaborado com a Resistência,
colocando seus conhecimentos radiestésicos a favor de seu amigo Léon Lelarge
(Sâr Agni), membro destacado na luta contra os nazistas, para ajudá-lo nos
projetos de sabotagem e destruição ferroviária.
Mas o maior dos mistérios
relativos a Sâr Hiéronymus aconteceu num belo dia de maio de 1933 e deixou sem
ação mesmo os seus discípulos e colaboradores mais íntimos. De repente, sem
qualquer explicação, ele decide abandonar tudo! Resolve cessar todas as suas
atividades esotéricas, sem dizer em nenhum momento o porquê desse estranho
gesto. Numa carta a Lelarge, Jean Mallinger dá uma idéia do desespero que tomou
conta de todos. "Eu Ihe perguntei francamente a respeito - diz Mallinger.
Esta notícia, vinda de um iniciado que é ‘sacerdos in aeternum’ parece-me tão
surpreendente, que prefiro acreditar numa prova cruel". A resposta de
Hiéronymus é uma só: "Tratai de sondar o insondável que nos dá a mão por
sobre o muro".
Não se sabe ao certo o
que aconteceu. Se foram os insistentes pedidos dos discípulos, ou o fruto de
suas reflexões pessoais, mas o fato é que Hiéronymus voltou atrás em sua
decisão. Da mesma forma repentina, e sem qualquer explicação. Na verdade, ele
saiu da crise com um estranho e renovado vigor. Dá uma nova dimensão ao
esoterismo na Bélgica, intensifica seus contatos com os confrades além das
fronteiras de seu país e mesmo do continente, e dá nascimento àquilo que
ficaria conhecido como a grande obra de sua vida: a Federação Universal das
Ordens e Sociedades Iniciáticas - FUDOSI .
OS
PRIMEIROS PASSOS
Na verdade, Hiéronymus já
vinha aprofundando, desde alguns anos antes, seus laços de amizade com
representantes de outras ordens esotéricas. Dentre esses contatos,
destacaram-se especialmente os mantidos com Harvey Spencer Lewis - Imperator de
um ramo rosacruciano das Américas, a AMORC - e com François Jollivet Castelot,
homem de profunda visão social e presidente da Sociedade Alquímica de França.
Desses contatos surge, então, uma estreita ligação e, logo, uma franca
colaboração, que serão as bases apropriadas para a formação da FUDOSI. Num
gesto de reconhecimento, Hiéronymus oferece a Lewis um diploma de honra da
Faculdade Livre de Filosofia Iniciática, sob os auspícios da Ordem Soberana da
Rosa+Cruz Ocultista e Dourada, e da R+C Universitária da Bélgica, onde atesta
os conhecimentos do Imperator R+C das Américas no Hermetismo Egípcio, na
Ciência Oculta e Cabalística, e na Magia Ritual, manifestados no interesse da
humanidade. A seguir, inicia Spencer Lewís no 13° Grau R+C, e dá os primeiros
passos, abrindo as atividades do Convento Internacional das Ordens e
Fraternidades Iniciáticas, do qual participam apenas as ordens rosacrucianas.
Pouco depois, faz abrir o Convento do Supremo Conselho Internacional da Ordem
Maçônica de Mênfis-Mizraïm. Paralelamente, acontece uma assembléia martinista,
durante a qual Hiéronymus e Lewis, juntos, são recebidos na Ordem Martinista e
Sinárquica. Todas essas preliminares dão nascimento à FUDOSI, que trabalha sob
a coordenação de um conselho supremo especialmente eleito e composto de três
imperatores: Sâr Hiéronymus (Émile Dantinne, Imperator da Europa), Sâr Alden
(Harvey Spencer Lewis, Imperator das Américas) e Sâr Yésir (Victor Blanchard,
Imperator para o Oriente e para as ordens afiliadas).
VOLTANDO
AO SILÊNCIO
A FUDOSI realizou o seu
trabalho durante dezessete anos, e foi particularmente maltratada durante a 2a
Guerra Mundial, com a perda de alguns de seus oficiais, mortos em combate, nos
campos de concentração, ou pela Gestapo, sob tortura. Mas para Dantinne, o
final da Guerra foi especialmente árido. Por um mal-entendido, e sob o calor e
o entusiasmo da libertação, ele foi injustamente acusado de colaborar com os
nazistas. Os mais afoitos cortaram rente e à força a sua bem cuidada barba, e
Dantinne não reagiu. Chocado com a acusação, ele apenas chorava copiosamente,
sem conseguir falar. Foi a julgamento e seu advogado, Jean Mallinger (Sâr
Elgin), provou diante de todos que Dantinne não apenas estava acima de tão
sórdida acusação, como havia participado ativamente da Resistência. Ele aceitou
silenciosamente os pedidos oficiais de perdão por parte do governo belga, mas
nunca mais quis retomar o cargo de bibliotecário de Huy Sur Meuse, do qual fora
suspenso durante o processo e que tentaram lhe devolver rapidamente, depois de
sua absolvição.
Com a dissolução da
FUDOSI, no início dos anos 1950, Hiéronymus desapareceu novamente no silêncio e
no anonimato que ele tanto amava. Ao que se diz, viveu seus últimos dias
estudando e meditando em Huy Sur Meuse, talvez ao lado de sua filha
Marie-Louise e alguns poucos discípulos, não na solidão, mas na ‘solitude’ que
parecia ser a sua vocação. Certamente viu com satisfação os resultados de seu
trabalho florescerem nos anos que se seguiram, seus ideais de transformação
social pela cultura e pelas artes tradicionais. E foi talvez assim satisfeito
que, no dia 21 de maio de 1969, com a idade de 85 anos, Émile Dantinne, Sâr
Hiéronymus, tratou de “sondar o insondável que nos dá a mão por sobre o
muro”.
Retirado da Revista “L´Initiation”,
N. 6 – Julho/Setembro de 2002, versão brasileira da Gnosis Editora, RJ.
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