“Tudo acontece em
parábolas,
a fim de que, vendo, vejam
e não percebam;
e ouvindo, ouçam e
não entendam”.
Mateus, IV, 12
Durante um terço de nossa existência, nossa ser
consciente é condenado ao repouso. O
discípulo cuidadoso e escrupuloso em nada desperdiçar na Natureza e de utilizar
todos os recursos oferecidos por ela, espontaneamente, transforma estas horas
em trabalho espiritual. É o método desta transformação que hoje explicarei a
todos.

Vamos primeiro nos reter no fenômeno do sono, depois
no mecanismo do sonho; em seguida, procuraremos onde se manifestam as cenas
sonhadas; estudaremos os efeitos dos
sonhos, seus significados e enfim a maneira de se preparar para ter sonhos
reais.
* * *
Não seria útil detalhar todos os sistemas complexos,
elaborados pelas diferentes escolas de esoterismo, sobre a constituição do
homem. Tenhamos em vista a mais simples.
Além do corpo físico, por si mesmo não é mais que
uma matéria inerte, três
princípios se unem na composição humana:
* A
vitalidade, o od, o magnetismo, o
duplo;
* O espírito, intermediário parcialmente consciente pelas
faculdades sensoriais e mentais, na
maior parte inconsciente para todos os outros órgãos de relação com o Invisível; é a sede do Eu, da
vontade, do livre-arbítrio;
* A alma, essência eterna, incriada, luz do Verbo,
atualmente uma lamparina, mas que tomará
todo seu esplendor no momento de nosso novo nascimento místico.
Durante o dia, é o espírito consciente que governa
por meio da força nervosa cérebro-espinhal; à noite, esta força estando
esgotada, o consciente repousa, enquanto que os acumuladores se re-carregam
pelo cerebelo; o espírito inconsciente,
se podemos falar em saída, se distancia do corpo, e às vezes, de fato, se
divide; e os atos efetuados em seus trajetos, os encontros feitos, as cenas às quais assistiu, somente se
transmitem à consciência se houver no corpo, e
sobretudo no cérebro, muita força nervosa para registrá-los. Assim, sonhamos
constantemente, mas lembramos muito raramente.
Este espírito, intermediário entre a alma e o corpo,
não é um halo, uma aura, um ovo fluídico; é um verdadeiro organismo, bem mais
complexo e mais delicado que o corpo de
carne e cujos numerosos proprietários assentam em localizações diferentes. Ele
possui funções de nutrição, respiração, de
inervação; dos órgãos de locomoção e de percepção; uma inteligência,
livre arbítrio; e cada uma destas faculdades se corresponde com uma das partes
do corpo físico. Assim como o músculo
engrossa em razão do trabalho regular imposto, igualmente este espírito se desenvolve pelos exercícios que lhe são próprios: ambição,
inquietude, esforço de vontade, virtudes, vícios. Os treinamentos artificiais do
esoterismo o desenvolvem também, mas de uma maneira precoce e anormal. De todos
os trabalhos do espírito, somente a luta contra o egoísmo o afina e
purifica.
Além disso, igualmente, no corpo de carne, entram
pela alimentação e respiração,
moléculas de toda ordem; no espírito, entram, se instalam, repartem, vivem e
morrem todos os tipos de espíritos subordinados. Estas visitas produzem na consciência as intuições,
as idéias, os sentimentos, as descobertas, elas tornam possíveis os
acontecimentos da existência, as doenças, os reencontros; enfim participam na produção dos sonhos.
* * *
Durante o sono, o espírito se aventura mais ou menos
para longe. Quando ele vai para um
país bem desconhecido, ele se encontra estranho, pois nem seus próprios
elementos, e nem as células corporais, possuem afinidades com as coisas desta região. Devemos observar, se
instruir, ir e vir, mas o cérebro não tem como levar à consciência estas
explorações, pois suas moléculas são
incapazes de registrar mensagens que não as façam vibrar.
Quando o passeio é curto, ocorre o contrário, como
os objetos são mais familiares, a experiência é registrada.
É preciso dizer que estas excursões podem ocorrer
durante o dia; mas neste caso nada percebemos, porque a força nervosa é quase
toda inteiramente empregada nos atos da consciência, e também, porque nosso
cérebro não é robusto o bastante para suportar uma dupla tensão, nem nossa
vontade é calma o suficiente para resistir aos desejos novos que nasceria desta
segunda vida.
Os sonhos substituem vantajosamente todas as
invenções pelas quais a ciência esotérica estabelece as ligações do homem com o
invisível. É um fenômeno normal, sadio, acessível a todos. Nenhum gênero de
vida especial é pedido. Além do mais, a Natureza prepara com cuidado as melhores
condições; o meio é organizado visando nossa instrução noturna como é
organizado para nossa substancia corporal. Durante a noite, a circulação
magnética-telúrica muda, a atmosfera é desbaratada de certos elementos muito
ativos; a lua substitui o sol amarelo, outras ordens de gênios se aproximam da
terra; o sol, o mar, as árvores, os animais emanam uma áurea especial e exercem
uma influencia propícia ao desprendimento
do espírito.
Tudo isto pode se tornar causa de um sonho: os
anjos, os deuses, os demônios, os defuntos, os clichês, as imagens deste que
foi, os fluidos em deslocamento nos espaços interiores, os espíritos das coisas
e dos viventes, as imagens deste que passa na hora, e de tudo que terá lugar
até o fim, em uma palavra, a Vida toda inteira pode tornar-se reflexo no
espelho translúcido da imaginação.
Mas, os fatores mais freqüentes dos sonhos são os
clichês do destino pessoal e as visitas dos membros da família espiritual.
Nosso eu central se prende, vocês sabem, ao coração
do Universo, no plano do Verbo; Somos
agrupados em famílias. Cada um destes grupos, onde, todos os membros se parecem,
mesmo corporalmente, e, naturalmente fazem trabalhos idênticos, seguem a mesma estrada. Assim, por
exemplo, o mais velho da família à qual pertenço possui, em maior perfeição, as
mesmas faculdades que eu mesmo; ele
encontra seus diversos clichês, e sempre na minha frente; pode ser que ele
receba o clichê da tuberculose aos trinta ou
cinqüenta anos e que eu, encontre somente em dez anos. Sob o ponto de
vista de Sirius, este tempo é
insignificante; mas se já estiver nascido sobre a terra quando o “cabeça da fila” tornar-se tísico, posso
em sonho ressentir uma dor no pulmão, para me prevenir da prova ainda distante.
Somente sonhamos coisas que possuam uma delegação,
uma célula física ou psíquica da mesma
natureza em nosso ser. Para que um clichê me afete, é preciso encontrar em mim
um ponto onde se agarrar. O sonho é este contato. É, por isto, que o único fato
de ser advertido de uma prova diminui ou aumenta nossa resistência; as miríades de pequenos
gênios cujo trabalho nos faz viver se
inquietam então, preparam-se para a defesa e vão procurar socorro em
toda parte.
Assim o ser do homem contém em si os germes de todas
as felicidades, de todas as infelicidades e de todas as prerrogativas. Sua
dignidade é, portanto, muito alta, sua missão grave e suas responsabilidades
pesadas.
* * *
O sonho, observado do plano físico, possui três
valores: o primeiro de profecia, o segundo
de instrução, o terceiro de taumaturgia.
É profético quando produzido pelo clichê de um acontecimento
futuro. Ao explicado sobre os
clichês, acrescentamos que nosso espírito pode recebê-los ou simplesmente os
ver. No primeiro caso, ocorre um presságio pessoal; no segundo, uma indicação
fortuita que interessará ao sonhador somente de longe.
O sonho pode instruir, fornecer um ensinamento,
mesmo de ciência positiva, revelar
segredos naturais, resolver uma dificuldade de mecânica, conceder uma iluminação. Mas um sonho jamais nos
ensina sobre a moral de alguém antes de sermos mestres de nós mesmos para
conservar, malgrado tudo, sentimentos de indulgência, justiça e de
benevolência. De fato, a traição, a duplicidade somente nos ataca quando as merecemos
por nossa conduta anterior. Escamotear uma prova é um mau negócio; cedo ou tarde
teremos que sofre-la.
A atividade do sono, às vezes, é transmitida ao
plano físico. À força de controlar os
impulsos nervosos, passionais ou mentais, como meio de os submeter à lei do
cristo, na esfera da consciência, o poder volitivo alcança as raízes secretas,
na esfera do inconsciente. Adquirimos autonomia no meio dos sonhos mais
movimentados; podemos: refletir, julgar, agir, como no físico, com toda a
presença de espírito.
Então o homem interior torna-se responsável, ele é
verdadeiro; mas os limites de sua ação se estendem singularmente. E como este
estado psíquico somente é acessível quando nosso coração já estiver penetrado
no coração universal: o Verbo; os atos do sonho repercutem sobre o físico,
devido a potencia que lhe confere esta penetração. Recebemos os benefícios dos
anjos, os dirigimos, comandamos com a permissão do Céu; podemos curar,
restituir a sorte ou mesmo evitar um acidente. Eis a primeira escala da
teurgia.
O cérebro, o aparelho nervoso inteiro e a vida
física se sutilizam progressivamente; a matéria pesa menos; e o dia chega
quando o sono não é mais indispensável
ao registro na consciência das atividades espirituais. Acabamos por perceber
simultaneamente o mundo físico e um dos mundos invisíveis; somos então, como
dizem os brâmanes, um Dwidjà, duas vezes nascido, um homem de dupla
consciência. Entretanto, observe bem, somente o
discípulo perfeito, do Evangelho, percebe o reino central do Invisível,
aquele onde habita realmente o Verbo Jesus.
O cumprimento dos preceitos cristãos é a única porta
desta morada misteriosa; e a humildade mais
profunda é o único alimento que pode sustentar o organismo submetido à esta
dupla tensão; nenhum regime, nenhuma
droga, nenhuma disciplina humana permite, à Luz eterna, penetrar o ser do
discípulo e de regenerar até a moela de
seus ossos. Contudo, quando um conselho é urgente, o Céu Se esforça para nos
transmitir, mesmo durante a vigília, mesmo no turbilhão dos afazeres, não
importa onde. Eis certos fenômenos de
telepatia, clariaudiência, e das aparições.
Continua.....
** Retirado e traduzido do
livro de Paul Sédir: “Lês forces
mystiques et la conduite de la vie” ,
Paris, edição dos Amitiés
Spirituelles, 1977, Cap. 9, págs
133 à 150.
** Tradução livre de Pseudo-Sedir.