domingo, 5 de junho de 2022

TRECHOS DE UMA CARTA DE BAUDELAIRE A WAGNER

 

Um dos autores prediletos da “R+C Artística” (Ordem Rosacruz e Estética do Templo e do Graal) de Joseph Peládan (29/03/1858 – 27/06/1918) foi Richard Wagner (22/05/1813 – 13/02/1883), cuja música possui a capacidade de nos propiciar êxtases estéticos e místicos em poucos acordes. A obra de Wagner, com melodias e enredos míticos e espirituais, revela, e desvela, profundos segredos do Caminho Iniciático, ao discípulo atento e sensível à linguagem do som e dos símbolos. Este arrebatamento é revelado, de uma forma explicita e apaixonada, nesta carta de Charles Baudelaire (9/04/1821 – 31/08/1867) endereçada ao autor de Parsival, postada abaixo.

  

TRECHOS DE UMA CARTA DE BAUDELAIRE A WAGNER**

 

 [Paris], 17 de fevereiro de 1860.

 

CARO SENHOR

 

Antes de tudo, quero lhe dizer que lhe devo o maior prazer musical que jamais experimentei. Estou numa idade em que não mais nos divertimos em escrever aos homens célebres, e eu ainda teria hesitado por muito tempo a lhe testemunhar por carta minha admiração, se todos os dias meus olhos não deparassem com artigos indignos, ridículos, onde se fazem todos os esforços possíveis para difamar o seu gênio. O senhor não é o primeiro homem em razão do qual tive de me envergonhar de meu país. Enfim, a indignação me levou a lhe testemunhar meu reconhecimento. Eu disse a mim mesmo: quero ser distinguido de todos esses imbecis. Na primeira vez que fui aos italiens para ouvir suas obras, estava com bastante má vontade e, devo confessá-lo, cheio de maus preconceitos. Mas posso me desculpar, fui frequentemente muito tolo, ouvi muitas músicas de charlatães de grandes pretensões. Pelo senhor, fui imediatamente conquistado. O que experimentei é indescritível, e, se o senhor se dignar em não rir, tentarei traduzir. Primeiramente, pareceu-me que eu conhecia essa música, e mais tarde, refletindo sobre ela, compreendi de onde vinha essa miragem. Parecia que essa música era a minha e eu a reconhecia, como todo homem reconhece as coisas que ele está destinado a amar. A seguir, o aspecto que me tocou principalmente foi a grandeza, essa música representa o grandioso, ela leva ao grandioso. Sente-se imediatamente enlevado, subjugado. Senti toda a majestade de uma vida mais vasta que a nossa. Experimentei frequentemente um sentimento de uma natureza bastante insólita. É o orgulho, o gozo de compreender, de me deixar penetrar, invadir, volúpia verdadeiramente sensual e que se assemelha àquela de subir aos ares ou de rolar sobre o mar.  Geralmente, essas profundas harmonias me pareciam se assemelhar a esses estimulantes que aceleram o pulso da imaginação. Há por toda parte algo enlevado e que arrebata, alguma coisa que aspira a subir mais alto, algo de excessivo e de superlativo. Por exemplo: servindo-me de comparações tomadas de empréstimo à pintura, suponho diante de meus olhos uma vasta extensão de vermelho escuro. Se esse vermelho representa a paixão, vejo-o chegar gradualmente, por todas as transições de vermelho e rosa, à incandescência da fornalha. Seria difícil, impossível mesmo, chegar a algo ainda mais ardente. E, no entanto, uma última combustão vem traçar um sulco mais branco sobre o branco que lhe serve de fundo. Será, caso queira, o grito supremo da alma que é alçada a seu paroxismo. Assim poderia continuar minha carta interminavelmente. Se o senhor pôde me ler, agradeço-lhe. Não acrescento meu endereço, pois poderia crer, talvez, que eu tenha algo a lhe pedir.


 

** Tradução e revisão de Anderson Fortes de Almeida.  Anderson é o tradutor de duas importantes obras para o Martinismo: “Mística Cristã” de Paul Sédir e “Revelações: Conversações espirituais sobre M. Philippe de Lyon” de Michel de Saint-Martin, ambas publicadas pela editora Clube dos Autores (https://clubedeautores.com.br).

 


quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

RECONCILHANDO-SE COM A VIDA

 

                      RECONCILHANDO-SE COM A VIDA

                                                       Por Carmelo Ríos ***

Os Lamas tibetanos ensinam uma técnica aos moribundos que desejam prolongar a vida. Quando um santo Lama vê o momento de seu último suspiro se aproximando e precisa manter sua energia por mais algum tempo, a fim de terminar alguma missão ou transmitir um ensinamento aos seus discípulos, ele faz um acordo com a energia da vida, a força criativa e infinitamente compassiva do Cosmos.

                                                              


Para conseguir este prolongamento, o Lama liberta animais destinados aos sacrifícios ou realiza outros atos de compaixão para com a Mãe Natureza, como espalhar sementes pelos campos, salvar a vida de árvores, plantas, incluindo os pequenos seres, aparentemente insignificantes. E essa vibração expansiva e criativa da Mãe Vida concede-lhe o mérito de um tempo maior, além do estabelecido pelo seu prana, sua energia vital, e créditos energéticos suficientes lhe são concedidos para terminar seu trabalho sagrado.

 

Tudo é simbiótico, sinergético, holográfico e homeopático no Universo. O semelhante atrai o semelhante. O semelhante cura o semelhante. O semelhante redime o semelhante. Como no oceano, tudo retorna repetidamente às nossas vidas para ser curado, compreendido, perdoado ou redimido. Os naturopatas sabem que nos túmulos de pessoas que morrem de determinada doença, crescem com frequência e de forma espontânea (às vezes incomuns ou desconhecidas naquela região) plantas que curam ou aliviam essas mesmas doenças. Assim, nos jardins dos hospitais especializados em doenças do coração, do fígado ou dos rins, crescem as plantas medicinais adequadas para esse tipo de enfermidade.

                                                                 

 

A filosofia da agricultura biodinâmica de Rudolf Steiner ou do movimento de conservação “Chipko Movement Nature”, ou da medicina vibracional do Dr. Bach e qualquer outra forma de ecologia e até espiritualidade verdadeira, são baseadas neste princípio de similaridade homeopática ou reciprocidade. Se pouparmos a vida de um cordeiro inofencivo, um lobo, uma simples folha de grama ou qualquer outro ser vivo inocente, nos tornamos aliados de sua família vital. Na Índia, diz-se que até a mãe tigresa sente amor e protege seu filhote até que ele comece a se comportar como um adulto.

 

Portanto, tanto para sua própria mãe quanto para a Natureza, o felino adulto se torna um inimigo em potencial. Da mesma forma, os Mestres espirituais recomendam que nos comportemos simplesmente como um filhote de tigre. No momento em que nós, humanos, nos tornamos predadores, destruidores selvagens, a Energia da Vida, nomeada pelos sábios gregos de Gaia, também se torna nossa inimiga.

 

Intuitivamente, os grandes gênios, os grandes criadores de todas as idades, entraram, mesmo sem saber, em comunicação sutil com essa força criadora do Universo, a shakti divina do Hinduísmo.

 

Os Lamas recomendam a todo enfermo, como também a quem está passando por uma crise vital ou ainda por uma grande provação em sua vida, entrar em comunicação imediata com essa poderosa energia e, para isso, usar a linguagem secreta da Vida, ou seja: plantar árvores, soltar animais de matadouros, adotar um cão ou gato de um centro de proteção ou simplesmente espalhar sementes para alimentar pássaros, flores ou plantas medicinais em toda a Natureza. Tudo está sutilmente interligado, tudo flui por uma interação misteriosa, como uma música, em reciprocidade vital. Todos nós vivemos um através do outro. Tudo existe e É por meio do Todo e o Um inclui a multiplicidade.

 

Os luminosos pensamentos de amor, de amizade, de compaixão, de perdão, de harmonia, atraem para as nossas vidas o melhor desse Cosmos manifestado, porque o mundo que nos rodeia, o Universo em que existimos, vivemos e somos, é um reflexo de nossos pensamentos, uma criação de nossa própria consciência, uma projeção do estado de nossa mente.

 

Conta-se que o próprio Leonardo de Vinci, quando conseguia vender algumas de suas criações, muitas vezes ao preço de pão e lentilhas, corria ao mercado para comprar pássaros e libertá-los imediatamente. Talvez já soubesse que a Força da Vida olha com interesse para todos aqueles que a ajudam, protegem, amam e respeitam, e torna-se sua aliada incondicional em situações de crise?

 

O Mestre Philippe de Lyon costumava dizer que se encontrarmos um pedaço de pão na rua, em vez de empurrá-lo para fora do caminho, devemos pegá-lo e colocar com cuidado e carinho onde os pássaros, ou outros seres famintos, possam se alimentar. E que se salvarmos a vida de uma criatura inocente, uma aranha por exemplo, toda a família, toda a alma coletiva das aranhas passa a ser nossa aliada, nossa benfeitora, e se um dia nos perdermos na floresta, uma aranha, sutilmente, talvez nos mostre o caminho de volta para casa….

                                                          


 

*** Texto retirado e traduzido da página “Philippe de Lyon” administrada pelo Sr Carmelo Rios: https://www.facebook.com/Philippe-de-Lyon-171008656269653/

 

Bibliografía:

 

1. Alfred Hael: “El Maestro Philippe”. Ediciones Escuelas de Misterios, Barcelona.

 

2. Carmelo Rios: “Reflexiones desde la Luz”, Editorial Dilema.




 

 

 

sábado, 4 de dezembro de 2021

DEUS É COM FORMA E SEM FORMA


                DEUS É COM FORMA E SEM FORMA

UM DIA de inverno certo discípulo, pai de família, que era professor de colégio, foi ver Bhagavân Sri Ramakrishna estava sentado na varanda sul de sua habi­tação, e achava-se sorrindo. Depois de uma curta conversação per­guntou: Preferis meditar em Deus com forma ou sem forma?

Titubeou o discípulo e respondeu: Prefiro meditar em Deus como existência sem forma antes que como Existência com forma, O Bhagavân replicou: Isso é bom. Não mal em considerá-Lo deste ou de outro ponto de vista. Sim, é mui justo considerá-LO como Existência sem forma. Porém, não partais da ideia de que só esse é o único caminho certo e que tudo o mais é falso. A meditação n' Ele como 

Existência com forma é igualmente correta. Não obstante, deveis manter-vos em vossa concepção particular de Deus até que O hajais realizado e visto.

O discípulo perguntou: Bhagavân, podemos crer que Deus é com forma, porém seguramente não tem a de nenhuma das ima­gens de barro que são adoradas?

 Sri Ramakrishna replicou: Meu querido senhor, por que dizeis imagens de barro? A imagem da Existência Divina é feita de espí­rito. O discípulo não pôde compreender e significado disto e perguntou; Sem embargo, não deveria ser um dever para nós fazer entender aos que adoram imagens que Deus não é igual à imagem e que, durante a adoração, deveriam pensar, em Deus mesmo e não na imagem feita de argila? O Bhagavân disse: O Senhor do universo é quem ensina a humanidade. Aquele que fez tantas coisas, fará seguramente algo para as levar à luz. O Senhor reside no templo do corpo humano, Ele conhece os nossos mais íntimos pensamentos. Se há mal em adorar imagens, não conhecerá que toda adoração está dirigida a Ele? Com gosto a aceitará sabendo que é para Ele. Por que, pois, vos preocupais com coisas que estão além do vosso alcance?

Procurai realizar Deus e amá-LO. Este é vosso primeiro dever.


Falais de imagens feitas de argila. Bem, com frequência há a necessidade de adorar essas imagens e símbolos. No Vedanta se diz que a Absoluta Existência-lnteligência penetra o universo e se manifesta através de todas as formas. Que mal há em adorar ao Absoluto por meio das imagens e símbolos? Vemos meninas pe­quenas com suas bonecas; quanto tempo brincam com elas? En­quanto não se casam. Depois de casadas, põem de lado aquelas bonecas.

Da mesma maneira, necessitamos de imagens e símbolos en­quanto não tivermos realizado Deus em Sua verdadeira forma. É Deus mesmo quem deu essas diversas formas de adoração. O Mestre do universo fez tudo isto adaptado aos diferentes homens em seus distintos graus de conhecimento e crescimento espiritual. Uma mãe prepara o alimento para seu filho de modo que cada um tenha o que é melhor para si.


Suponde uma mãe que tenha cinco filhos e um só pescado para todos. Fará diferentes pratos com ele para poder dar a cada qual o que lhe mais agrade — a um rico polão, a outro, sopa, a um terceiro frito, e assim sucessivamente, de acordo exatamente com o poder de digestão de cada um. Compreendeis agora?

O discípulo replicou: Sim, Bhagavân, agora o compreendo.


 ***   Texto retirado da Revista “O Pensamento” N. 980/981, Maio/Junho de 1990.






 

 




 

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

MELQUISEDEQUE E O CRISTO

 Estamos publicando esta resenha como uma singela homenagem ao nosso saudoso amigo Sebastião Geraldo Breguez. SB era o representante no Brasil dosAmitiés Spirituelles”, Associação fundada pelo grande Mestre Paul Sedir e ainda ativa em Paris; Além de martinista, possuía sérias linhagens budistas. Na vida profana era jornalista (correspondente internacional), escritor (especialista em folclore) e professor universitário em Belo Horizonte (MG). Breguez faleceu em 2018. Possa sua Rosa florescer sobre sua Cruz!

                        MELQUISEDEQUE E O CRISTO

                                                           Por Sebastião Breguez

 Desde a Antiguidade, a figura misteriosa do Rei de Melquisedeque esteve presente na meditação de sábios do Cristianismo, do Judaísmo e mesmo do Islamismo. Na Bíblia, o nome Melquisedeque está assinalado três vezes. Na Gênese (Cap.14), Melquisedeque é Rei de Salem - talvez Jerusalém -e Sacerdote do Deus Altíssimo.

O texto bíblico fala de seu histórico encontro com Abraão. Sua importância está bem assinalada por São Paulo na famosa Epístola aos Hebreus na qual está escrito que a Jesus Cristo foi dito: "Tu és Sacerdote para a Eternidade, segundo a Ordem de Melquisedeque". São Paulo também se refere ao conhecido Salmo 110 que se exprime muito claramente quanto à grandeza e à função sacerdotal do Messias. Não se trata de um sacerdócio comparável ao dos Levitas, mas de uma função sacerdotal eterna exercida por aquele que está sentado à direita de Deus.


Melquisedeque, que é "sem pai, sem mãe, sem genealogia, que não tem nascimento nem morte" (HEBREUS, 7,3) é ele o Cristo? Afinal, quem é, na realidade, esta enigmática figura bíblica?

Estes são alguns dos objetivos da pesquisa do historiador francês, Jean Tourniac, publicada em livro, na França, com o título MELQUISEDEQUE E A TRADIÇÃO PRIMORDIAL (1). A obra é o resultado de uma tese de doutorado na Universidade de Rennes. O estudo está dividido em cinco partes. Na primeira, o autor trata de Melquisedeque e a tradição primordial na obra de René Guénon. Na segunda, ele analisa o papel de Melquisedeque no Judaísmo. Em seguida, apresenta Melquisedeque no Islã. O quarto capítulo mostra a importância de Melquisedeque no Cristianismo. Finalmente, analisa o tema Melquisedeque e a iniciação sacerdotal.



 A tradição judaica-cristã distingue dois tipos de sacerdócios. Um, segundo a Ordem de Aarão, e a outra segundo a Ordem de Melquisedeque. Esta última ‚ superior à primeira, assim como Melquisedeque pertence a uma hierarquia superior à Abraão, da qual surgiu a tribo de Levi e, por consequência, a família de Aarão. O sacerdócio de Melquisedeque
é considerado como uma 'prefiguração' mesmo da Eucaristia cristã. Vejamos o texto bíblico que trata do assunto: "E Melquisedeque, Rei de Salem, trouxe o pão e o vinho, ele é Sacerdote do Deus Altíssimo" (GÊNESE,14,19

Melquisedeque é também Rei e Sacerdote, seu nome significa "Rei da Justiça" e, ao mesmo tempo, "Rei de Salem", ou seja da 'Paz'. Seus atributos, como Rei da Justiça são a balança e a espada, os mesmos do Anjo Michael, considerado como Anjo da Espada, da Justiça e do Julgamento. Encontramos também nos escritos sobre os Essênios (ver os Manuscritos do Mar Morto) referência ao Mestre da Justiça, que é normalmente associado ao mito do Julgamento Universal e do Messias Militar e Político (que aparece na Humanidade no final de um ciclo e começo de outro e que está também associado ao mito do Armagedom, ou Guerra Santa, de que trata as Escrituras).

A significação mesma do papel e da importância de Melquisedeque na Sabedoria das Idades, principalmente, no Esoterismo Cristão é vista de formas bem particulares. Assim, Mestre Eckartshausen em A NUVEM SOBRE O SANTUÁRIO, vê nele um "instrutor da verdadeira substância de Vida e na separação desta substância do veículo mortal que a aprisiona". Jacob Boheme, o místico sapateiro alemão e brilhante kabalista, fala de Melquisedeque como o equivalente do próprio Cristo: o sacerdote do Altíssimo é a própria figura do Cristo. Os mestres franceses Martinez de Pasqually e Louis Claude de Saint- Martin também fazem alusão a este personagem pouco conhecido da massa, mas que os estudiosos esotéricos consideram como Deus entre os homens. Também escreveram sobre o Sumo Sacerdote de Deus, entre outros, Joseph de Maistre, Anne Catherine Emmerich, Jakob Lorber, Saint-Yves d'Aveydre, sem falar do grande esoterista francês e que é leitura fundamental dos maçons europeus, René Guenon, que deixou uma vasta obra de uma profundidade sem igual. Também Sedir, este estudioso francês que junto com Papus (Dr. Gerard Encausse) criou em Paris a Universidade de Magia Prática (início do século XX) e que depois abandonou o ocultismo para se dedicar a difundir uma nova interpretação esotérica dos Evangelhos, escreveu: "Atrás de Moisés, encontramos o Sacerdote sem pais humanos, o Rei de Justiça, Melquisedeque, filho do Sol...Por Melquisedeque e Moisés chegam aos mortais, as bênçãos divinas que curam os seus males espirituais".

Enfim, o livro de Jean Tourniac é de extrema importância para acabar com a antiga discussão sobre a verdadeira origem das grandes religiões da Humanidade: o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo. Todas as três têm uma origem comum e uma mesma fonte: o patriarca Abraão, que, após vencer os inimigos de Deus numa guerra santa, foi abençoado pelo Sumo Sacerdote de Deus, Melquisedeque, Rei e Sacerdote - Rei da Justiça e de Salém, isto é, da 'Paz'. Na verdade, as divergências destas três religiões originadas através Abraão é causa ainda de muitos conflitos sangrentos no Oriente Médio, que é um barril de pólvora, na história, antiga e recente da Humanidade. Que o livro sirva de ponto de apoio para debates sadios entre árabes, judeus e cristãos. E traga a paz permanente entre todos os povos.


                                               O místico Sebastião Breguez

(1) MELKITSEDEQ OU LA TRADITION PRIMORDIALE, de Jean Tourniac, Paris, Chez Michel, 330p, 2004. Veja edição em português da editora Madras.

segunda-feira, 21 de junho de 2021

“REVELAÇÕES” de MICHEL DE SAINT-MARTIN

                                        “REVELAÇÕES”*

                                Por Michel de Saint-Martin**

A CARIDADE (O DESTINO, O LIVRE-ARBÍTRIO)

“Crer que nesta Terra possamos ser felizes plenamente enquanto todos aqueles que sofrem não terão cessado de so­frer é dar prova de uma mentalidade bastante singular. Que tenhamos momentos de repouso, está bem. Durante a Grande Guerra, os soldados que voltavam de “lá”, em licença, tinham o direito de rir e ser felizes com esse descanso, mas quan­tos, nesses períodos de trégua, não tinham às vezes terríveis momentos ao pensar “naqueles que permaneciam lá”; é que então o melhor do homem subia à superfície, é que aqueles que estavam no fronte eram capazes, quase todos, de dar a vida para salvar um irmão de armas. Esses compreenderão estas palavras, o verdadeiro poilu da França saberá que isso foi verdadeiro, assim como aqueles que se viram na impossi­bilidade de ir lá, independentemente de sua vontade; não falo daqueles que fizeram de tudo para se esconder, deles só vou dizer uma coisa, é que eles são mornos. E os mornos, o Céu nem sequer olha para eles.”


OS SOLDADOS DO CÉU

“Quando Nosso Senhor, por seu sacrifício, nos resga­tou do Príncipe deste Mundo, do Demônio, se tivéssemos acreditado Nele, como alguns acreditaram, e se tivéssemos seguido Seus ensinamentos, como alguns o fizeram, pratican­do a Caridade e amando ao nosso próximo como a nós mes­mos, seríamos, também nós, homens livres, como se tornaram aqueles que seguiram os preceitos do Mestre.

 

Ora, esses homens livres, que souberam praticar a Ca­ridade para seguir Nosso Senhor, reencontraram, com sua li­berdade, sua pureza de antes da Queda.

 

– Mas então por que eles voltam à Terra? Unicamente por nós? A fim de nos ajudar a pagar nossas dívidas?

 

– Claro, meu amigo, não acabei de lhe dizer que eles seguiram os ensinamentos do Mestre, e Nosso Senhor não disse: “Em verdade, em verdade vos digo, o servo não é maior que seu senhor, nem o apóstolo maior do que aquele que o enviou. Se souberdes estas coisas, sereis felizes desde que as praticardes”? (João 13, 16-17). Então, eles seguiram esse en­sinamento, e eles pedem ao Pai a permissão de voltar a este mundo para nos ajudar.

 Eles – que o poderiam fazer – não vêm se mostrar em sua perfeição, para que os admiremos e os tomemos como exemplo; não, eles fazem como faz o Mestre, como fazem Seus Apóstolos; eles vêm, mas se escondendo, ignorando-se a si mesmos na maior parte do tempo, quase sempre, e tomam para si, para pagá-las, algumas de nossas faltas, de nossas dí­vidas, fazendo para si mesmos, assim, um destino de tudo isso que teria feito parte do nosso. O destino que eles assim com­puseram torna-se o seu próprio destino, para eles, que não tinham nenhum. Eles se colocam novamente no nosso nível e se alinham conosco...”

 

OS SOLDADOS DO CÉU II

“Eu tinha em mim mesmo a mais absoluta certeza de que tudo aquilo que acabara de me ser dito era verdadeiro. Sentia o peso esmagador (a palavra não é demasiado forte) do segredo que aqueles dois homens detinham, e compreendia que eu não devia perguntar nem o nome que portara Aquele de quem falávamos há pouco, nem nada sobre os lugares e fatos que poderiam fornecer uma informação mais precisa. A possibilidade de um tal Acontecimento podia ser revelada, mas não se devia dar indicações que permitissem situar o Per­sonagem. Somente Ele era o Mestre da Hora.


 

Eu compreendia, enfim, que manifestar curiosidade teria sido, da minha parte, uma falta de respeito. Eu devia esperar, eu me esforçaria por saber esperar.

 

E, no silêncio, que o leve crepitar do fogo na lareira parecia aumentar, em vez interromper, permanecemos assim, imóveis.

 

Os pensamentos se sucediam com uma velocidade louca em minha cabeça, eu revia os dias vividos desde o meu encontro com o Sr. Olivier. De súbito, uma ideia fulgurou no meu cérebro, pareceu que meu coração ia explodir, eu me vol­tara para o retrato pregado lá, na parede, acima da cômoda, e foi mais forte do que eu, me levantei... Não via nada além Dele.

 

No dia que findava, o sorriso parecia ter-se acentuado, o olhar, aquele olhar de Chefe, que, no entanto, irradiava uma infinita doçura, aquele olhar parecia me fixar; e eu fiquei ali, de pé, sem pensamentos, com o coração batendo fortemente, e senti as lágrimas escorrerem dos meus olhos.”


* Trechos retirados do livro:  "Revelações: Conversações Espirituais sobre o Mestre Philippe de Lyon"Para compra: https://clubedeautores.com.br/livro/revelacoes-10 


** Michel de Saint-Martin foi um dos grandes discípulos diretos de Jean Chapas e discípulo póstumo de Mestre Philippe de Lyon.





sábado, 5 de junho de 2021

REENCARNAÇÃO: A SURPREENDENTE VISÃO TRADICIONAL

       Reencarnação: A Surpreendente Visão Tradicional*

                                                         Por Lecabel**

A ideia do presente artigo teve origem na observação de que, principalmente a partir do final do século XIX, alguns assuntos esotéricos vêm sendo abordados sem uma reflexão mais profunda, repetidos a partir de pensadores modernos que criaram doutrinas próprias sem base alguma em uma linhagem tradicional de transmissão. As Doutrinas Tradicionais  que foram perpetuadas por grupos muito pequenos e fechados no Ocidente e grandes grupos no Oriente, de mestre a discípulo sem interrupção desde a Antiguidade, parecem estar esquecidas pela maioria e, o que complica ainda mais a situação, a visão das pessoas está tão distorcida que, quando estes ensinamentos são mencionados, elas os condenam ou desprezam como "coisas ultrapassadas" ou "superstições", fechando completamente o caminho que poderia conduzi-las à sua (re)descoberta.

Poucos têm o cuidado de verificar se a escola esotérica à qual querem filiar-se tem realmente uma transmissão direta desde sua antiga origem ou se ela se apossou ilegitimamente do nome de uma grande corrente espiritual para que seu trabalho parecesse autêntico; geralmente estas últimas narram uma história cujo caráter fictício pode ser descoberto por meio de uma avaliação mais profunda e imparcial de suas afirmações.

 

A TRANSMIGRAÇÃO DA ALMA

 A alma passa por várias encarnações em corpos humanos, evoluindo continuamente, progredindo sem jamais retroceder a um estado inferior, até que atinge sua meta, uma grande perfeição espiritual ou a Reintegração. Certo? Ao estudarmos com atenção a Tradição, tudo indica que esta asserção esteja errada!

 


As Tradições, em todos os lugares e em todas as épocas, sempre ensinaram que a alma, de acordo com seus apegos e com aquilo que realizou de bom ou ruim, pode renascer em diversas condições, tanto no mundo material quanto nos mundos invisíveis.

 A volta ao mundo físico é o que poderíamos chamar de "reencarnação"  no sentido estrito desta palavra; este termo é muitas vezes utilizado como um substituto - inadequado, mas muito utilizado - de "transmigração", que descreve melhor o processo integral. Este retorno pode ocorrer de duas formas:

1) Renascimento como humano: ocorre com aqueles que mantiveram mais ou menos a mesma mentalidade durante a vida, fazendo pouco progresso. A condição em que vai nascer e viver (facilidades e dificuldades na vida) vai ser determinada pelo karma acumulado. É uma grande oportunidade para evoluir e deveria ser aproveitada ao máximo.

 

2) Renascimento como animal: aqueles que, devido à sua degeneração moral e qualidade inferior de sua mente e emoções, são atraídos para corpos de animais cujos hábitos são compatíveis com seu estado interno.

 

Além destas duas formas de retorno, específicas para o mundo visível, a alma também pode renascer em 4 mundos invisíveis:

 

1) Mundo dos anjos, santos ou divindades luminosas: é o Céu, para onde vão as almas virtuosas, que fizeram grande progresso e têm um maior grau de desapego, encontrando facilidade para romper os laços que as prendem à terra. Este céu não é definitivo; algumas vezes, após esgotada a energia gerada pelas virtudes e méritos, a alma volta a transmigrar.

 

2) Mundo das almas penadas ou famintas: são aquelas que, devido ao seu grande apego, ficam ligadas às coisas terrenas; são também chamadas de "fantasmas". No filme Ghost, a alma do personagem principal ficou neste estado até que o motivo de seu apego fosse eliminado. Algumas ficam décadas ou séculos presas ao lugar onde moraram, dando origem às "casas mal-assombradas".

 

3) Mundo dos demônios, titãs ou divindades obscuras: são aquelas que têm um poder relativo, mas o utilizam de forma egoísta; são a "máfia" do astral, e os que entram para este caminho têm muita dificuldade de sair. Quem trabalhou com poderes psíquicos, controle da mente, magia e outras formas de paranormalidade sem fazer um trabalho de purificação da mente e emoções e sem seguir um caminho espiritual tradicional é um sério candidato a este tipo de renascimento. Uma de suas características principais é o desejo de poder, e por causa disso eles vivem lutando entre si e contra as Forças da Luz; usando de persuasão sutil tentam arregimentar o máximo possível de colaboradores tanto no mundo visível quanto no invisível. É importante notar que o mundo habitado por esses demônios não é o inferno, como geralmente se pensa.

 

4) Mundo infernal, purgatório ou prisões subterrâneas: ficam detidas ali aquelas almas que carregam grandes culpas por causa de seus atos; recebem então castigos e sofrem muito até ficarem livres desse peso, podendo então reencarnar em um animal ou humano, de acordo com a gravidade de seus erros. No filme Ghost, os criminosos são arrastados para essas prisões por seres estranhos, os quais são os responsáveis pelo cumprimento da pena.

 

Os animais, as almas famintas e as prisioneiras são consideradas como condições abaixo da condição humana; os outros dois, anjos e demônios, ficam acima dos homens.

 

Dessa forma, a alma permanece em transmigração pelos seis mundos de existência descritos acima, por um período indefinido, evoluindo e involuindo de acordo com suas mudanças internas. Seu progresso não é automático de acordo com o número de reencarnações, mas requer um trabalho árduo, constante, consciente e voluntário em direção ao espiritual. Como os animais não têm livre-arbítrio, necessitam das pessoas com as quais convivem para alcançar novamente (ou pela primeira vez) o nível humano.

 

A queda do homem primordial na roda de transmigrações, que os budistas chamam de Samsara, só pode ser superada através de uma dedicação profunda a intensas práticas espirituais tradicionais que permitem que o estado de exílio nos seis mundos seja transcendido e ocorra um salto de retorno à Origem, ou seja, a Reintegração.

 

Roda de Samsara
 

TESTEMUNHO DOS MESTRES

 

Para que os leitores tenham uma idéia da universalidade desse conceito, ultrapassando lugares, épocas e todos os tipos de cultura, vamos transcrever abaixo alguns trechos de obras muito conhecidas pelos estudiosos, cujos autores são grandes autoridades em suas respectivas Tradições.

 O Mestre Taoísta Cherng, em sua Iniciação ao Taoísmo[1], oferece uma das mais abrangentes e claras explanações sobre todo o processo e etapas da transmigração, sendo altamente recomendável sua leitura. Em um dos capítulos ele diz: "O mundo dos seres humanos é apenas um departamento dentro de um incomensurável universo ...é dentro dessa grande complexidade que acontece a grande viagem da alma ...pode ir para o Céu da Luz, para o Céu da Obscuridade, retornar como ser Humano ou como Animal, perambular pelos abismos da obscuridade como Alma Esfomeada ou reformar-se nas Prisões Terrestres."

 

Um autor que, por fazer referência ao esoterismo cristão ainda existente na Igreja em sua época, antes dos primeiros Concílios que a transformaram em uma instituição exotérica, era um dos prediletos de Louis-Claude de Saint-Martin, Orígenes, refere-se claramente à mesma doutrina[2]: "É uma evidência de grande negligência e preguiça, que aquele que cair a tal (cúmulo de degradação), e ficar a tal ponto esgotado, como que alcançando o mal, pode ser trancado no corpo grosseiro de um animal irracional de carga." Mais adiante continua: "E desde que todos são possuidores de livre-arbítrio, e podem por sua própria vontade acolher tanto o bem quanto o mal ...diferentes condutas e diversas vontades admitirão de uma diferente condição em uma ou outra direção, ou seja, anjos podem tornar-se homens ou demônios, e novamente dos últimos eles podem ascender para serem homens ou anjos."

 

No Bhaghavad-Gita[3], um dos grandes livros sagrados da Tradição Hindú, podemos ler: "Aqueles que estão situados no modo da bondade (sattva) ascendem gradualmente aos mundos superiores; aqueles que estão no modo da paixão (rajas) vivem no mundo terrestre; e aqueles que estão no modo da ignorância (tamas) caem nos mundos infernais".


 

O atual Dalai Lama, uma das maiores autoridades do Budismo Tibetano, em seu livro O Despertar da Visão da Sabedoria[4], enumera os mesmos seis mundos em que a alma pode renascer: "Celestiais (deva), titãs (asura), homens (manusya), espíritos famintos (preta), animais (tiryagyoni) e espectros infernais (naraka-sattva)". Acrescenta ainda: "Os estados de pesar e privação [são] em número de três: espíritos famintos (preta), animais (tiryagyoni) e espectros infernais (nirayaka). Estes não constituem imaginações fantásticas e sim representam experiências daqueles que tornaram a inabilidade tão forte dentro de si mesmos a ponto de suas mentes não serem mais humanas. Portanto, estes seres submergem para vivenciar estados subumanos [isto é, renascem em condição inferior à humana][5]".

 

Platão, o grande filósofo e iniciado grego, escreveu[6]: "Portanto, um homem que, a cada renovação de sua vida terrestre, se aplicasse à sã filosofia, seria não só feliz sobre a terra, mas também, em sua viagem daqui para lá e em sua volta, andaria por suave caminho celestial e não pela escabrosa senda subterrânea." Mais adiante acrescenta: "As almas passam, indiferentes, dos corpos dos animais aos dos homens e destes àqueles." Pitágoras e seus discípulos, assim como os antigos egípcios dos quais os gregos receberam suas Iniciações, todos ensinavam a mesma doutrina.

 

 FALSAS OBJEÇÕES À DOUTRINA DA TRANSMIGRAÇÃO

 

Helena Petrovna Blavatsky (de agora em diante, H.P.B.) e discípulos em seu Glossário Teosófico[7] afirmam: "Nos livros exotéricos do Oriente diz-se que a Alma transmigra das formas humanas para as formas animais e pode passar para outras formas ainda mais inferiores (vegetais ou minerais). Esta crença é geralmente aceita não só nos países orientais mas também no Ocidente, entre os prosélitos de Pitágoras e de Platão; porém a filosofia esotérica rechaça totalmente tal afirmação por ser irracional e porque se opõe abertamente às leis fundamentais da Natureza. O Ego humano pode encarnar apenas em formas humanas, pois só estas oferecem as condições através das quais são possíveis as suas funções; jamais poderá viver em corpos animais nem retroceder ao bruto, porque isso seria ir contra a lei da evolução".

 

As afirmações acima têm três grandes equívocos que procuraremos esclarecer abaixo:

 

1) Quais são os livros exotéricos do Oriente mencionados por H.P.B? Nas Tradições orientais (Hinduísmo, Budismo e Taoísmo) não existe separação entre as escolas exotérica e esotérica, ao contrário do que ocorre nas Tradições que surgiram no Oriente Médio (Judaica, Cristã e Islâmica).

 

As doutrinas ensinadas no Oriente fluem naturalmente desde aquilo que é mais superficial (para o povo) até o que é mais profundo (para os sacerdotes) sem haver substituição de ensinamentos, do mesmo modo como ocorre no ensino comum que vai desde o nível primário até o superior, sem perda de continuidade. Qual o Ph.D. em Física que poderia deixar de lado as 4 operações da aritmética aprendidas no primário? Da mesma forma, no Oriente, o que é ensinado para o povo e os neófitos continua sendo utilizado pelos Mestres.

 

Podemos citar aqui como exemplo o Hinduísmo. Os Vedas, Upanishads, Puranas, Tantras, Bhagavad-Gita, etc. são os mesmos livros utilizados tanto pelo povo quanto pelos mais elevados Mestres; todos mantendo a mesma visão acerca da transmigração da alma. Neste caso, quais seriam então os livros exotéricos? Podemos afirmar com segurança que eles simplesmente não existem. H.P.B. conseguiu difundir estas idéias equivocadas devido à falta de conhecimento dos ocidentais daquela época[8] (e até mesmo daqueles dos tempos atuais, apesar da chegada dos verdadeiros ensinamentos há alguns anos) acerca das tradições do Oriente.

 

Outro fato, talvez até mais esclarecedor e interessante, é que nas Tradições que tiveram origem no Oriente Médio - onde realmente existe uma separação bem definida entre exoterismo e esoterismo - ocorre exatamente o oposto do que foi afirmado por H.P.B., ou seja, as doutrinas exotéricas (para o povo) geralmente afirmam que a reencarnação não existe, enquanto que as doutrinas esotéricas verdadeiras (para os iniciados) ensinam a transmigração.


Como exemplo, podemos citar o Judaísmo - doutrina exotérica, externa - no qual alguns rabinos não aceitam a reencarnação e outros sim. Seu lado esotérico, interno e profundo é a Kabbalah que ensina a transmigração da alma, à qual denominam gilgul neshamot.


O ilustre Rabbi Avraham Brandwein[1], de Israel, explica por que o ensinamento da transmigração foi omitido no Judaísmo exotérico: "O tema gilgul neshamot, a reencarnação[2] das almas, não é mencionado explicitamente na Torah[3]. No Zohar[4], por outro lado, no Parashat Mishpatim, sob o título Saba deMishpatim (o Ancião ou o Avô de Parashat Mishpatim), os segredos da reencarnação são discutidos minuciosamente. Eles são então desenvolvidos por Ari HaKadosh[5], Rabbi Yitzhak Luria, em um livro dedicado a este assunto, Shaar HaGilgulim, O Portal das Reencarnações. Existe uma razão pela qual não encontramos qualquer menção explícita de gilgul na Tanach (somente por insinuações e alusões). Deus quer que o homem seja completamente livre para fazer tudo o que deseje, de modo que ele possa ser totalmente responsável por suas ações. Se fosse revelado explicitamente a uma pessoa que ela reencarnaria com certeza se falhasse em corrigir suas ações, ela poderia permanecer indiferente e apática. Poderia não dar tudo de si para acelerar sua evolução pessoal. Achando que poderia não ter influência na direção de sua vida, poderia renunciar de todas as responsabilidades e deixar tudo nas mãos do "destino"[6]

 Mais adiante afirma: "Mencionamos o princípio de que todas as coisas contêm um poder que dá vida a elas. Em um ser humano, este poder é verdadeiramente divino, e é chamado neshamah. Os animais também têm uma alma que é denominada nefesh ha'behemit (alma animal). [Plantas e outros seres que se desenvolvem têm uma alma vegetativa.] A matéria inerte também contém uma porção daquele poder que é chamado de nefesh. Uma alma humana pode também encarnar nestas formas inferiores como uma punição pelos seus pecados. No Shaar HaGilgulim, Ari[7] oferece numerosos exemplos de tais reencarnações nas quais a alma de uma pessoa que fez o mal deliberadamente, dependendo da severidade do pecado, entra em várias formas de matéria inerte ou orgânica, ou em animais. Somente após uma longa e árdua jornada pode tal alma retornar [e reencarnar como um ser humano novamente] e finalmente tornar-se purificada o suficiente para retornar à sua Fonte."

 

2) H.P.B. continua, no mesmo parágrafo: "Este falso ponto de vista é um disfarce do ensinamento esotérico e só pode ser admitido no sentido alegórico, do mesmo modo que chamamos de 'tigre' o homem de instintos cruéis, 'raposa' àquele dotado de muita sagacidade e astúcia, etc."

 A asserção acima pode ser facilmente refutada se consultarmos os Mestres atuais das Tradições milenares que sobreviveram intactas até hoje. Os iniciados no Budismo e Taoísmo, por exemplo, sabem que os ensinamentos mais internos, superiores, dessas grandes correntes espirituais afirmam categoricamente que a transmigração ocorre da forma como sempre foi descrita pelos antigos Mestres e está sendo colocada neste artigo. Portanto, é completamente errado declarar que estes ensinamentos são alegorias exotéricas destinadas ao público profano.

 

3) O conceito de evolução, como algo que só pode ir adiante, sem possibilidade de involução, também é moderno. É impossivel encontrar esta idéia nos grandes iluminados, autores de livros espirituais, que viveram antes de Blavatsky; além disso, esse conceito é completamente rejeitado pelos mestres atuais das grandes Tradições milenares. A própria realidade das coisas demonstra isso: as civilizações evoluem e involuem, os seres humanos melhoram e pioram em diversos aspectos; nada anda somente para a frente.

 

Como os Lamas tibetanos, da mesma forma que todos os Mestres budistas das outras correntes não-tibetanas[16], têm uma visão completamente diferente da de Blavatsky, podemos chegar a duas conclusões: ou ela resolveu ir por um caminho próprio, divergindo de seus mestres, ou devemos colocar em dúvida sua iniciação no Budismo Tibetano[17].

 


ORIGEM DO CONCEITO MODERNO DE REENCARNAÇÃO E EVOLUÇÃO

 

Até onde conseguimos pesquisar, constatamos que antes de Helena P. Blavastsky e Allan Kardek não havia nenhuma doutrina sobre reencarnação e evolução, da forma na qual eles ensinaram, em nenhum movimento exotérico ou esotérico. Somente após os dois é que tais idéias foram emprestadas e assimiladas por outros movimentos, tais como as diversas Ordens Iniciáticas ocidentais, até que se tornaram extremamente populares.

 

Kardek foi muito influenciado pelas idéias de Blavatsky no que diz respeito à reencarnação; como isso é uma longa história, com muitos detalhes, recomendamos ao leitor o livro L'Erreur Spirite (O Erro Espírita) de René Guénon[18]. É interessante notar que o Livro dos Espíritos não foi psicografado por Allan Kardek, mas por médiuns dirigidos por ele.

 

Alguns ocultistas modernos e espíritas tentaram desvendar o mistério da reencarnação através da viagem astral ou projeção, porém isto é impossível para aqueles que não atingiram um nível espiritual elevado que permitisse chegar até a Origem do Universo e dos seres, como os Mestres do Oriente conseguem. Os médiuns e ocultistas só conseguem registrar os fenômenos astrais[19], que são muito limitados e ilusórios.

 



Gerard Encausse, mais conhecido como Papus, que foi o maior responsável pelo (res)surgimento das Ordens Esotéricas Ocidentais, acompanhou ativa e entusiasticamente o trabalho de Blavatsky durante algum tempo até que começou a perceber claras contradições entre a Tradição e seus ensinamentos.
Papus escreveu[20]: "Em 1875, um americano e uma russa fundaram em New York uma Sociedade dita Teosófica. Para justificar seu título e seduzir os tolos, esta Sociedade pretendia estar em conexão contínua com homens divinos ou "Mahatmas", que viviam misteriosamente no Tibet. Por meio do ditado destes"Mahatmas" é que alguns livros foram escritos, como Isis Unveiled (Isis sem Véu). Contudo, os críticos franceses não se deram ao trabalho de demonstrar a origem totalmente humana destas 'revelações' que são vendidas por 28 francos aos crédulos ingênuos."

 

Ele prossegue alertando que H.P.B. (e não os "Mahatmas", como ela declarava) retirou todo o conteúdo de seu livro de duas fontes principais: dos ocultistas franceses, principalmente Eliphas Levi (parte kabalística) e de um livro tibetano, o Tandjur (Bstan-Hgyur), e conclui: "Nos sentimos obrigados a alongar um pouco esta exposição sobre o teosofismo; nosso dever é de prevenir os ingênuos - que eles façam agora o que lhes parecer melhor."

 

Papus, utilizou na citação acima a expressão teosofismo e não teosofia para se referir à doutrina de Blavatsky. Teosofia, segundo Guénon[21], é um conjunto de doutrinas místicas ocidentais que têm por base o Cristianismo e cujos maiores representantes são Jacob Boehme, Gichtel, William Law, Jane Lead, Swedenborg, Louis-Claude de Saint-Martin e d'Eckartshausen; ela não tem nada em comum com a doutrina de H.P.B.

 

Papus descobriu diversas distorções da Tradição nos ensinamentos de H.P.B. e corrigiu brilhantemente quase todos. Infelizmente, talvez levado por sua formação científica[22], não conseguiu perceber o caráter não-tradicional do que ela ensinava sobre a reencarnação, fazendo com que, devido à sua autoridade e influência sobre todas as Ordens esotéricas, os iniciados ocidentais daí em diante repetissem o que tudo indica ser um equívoco.


 
CONCLUSÃO

  

Podemos ver, pelos escritos de grandes autoridades e pelos ensinamentos orais dos Mestres das Tradições milenares que foram preservadas até os nossos dias sem sofrer influência externa, que o conceito tradicional de reencarnação sempre foi muito diferente daquele que modernamente é ensinado no Ocidente por causa da influência de Blavatsky e Kardek. Para melhor reflexão do leitor, enunciamos as questões abaixo:

 

Como poderiam estar errados os maiores Mestres de todos os tempos e de todas as Tradições, os quais tinham completo acesso a todos os mundos invisíveis, inclusive o espiritual?

 

Como civilizações e culturas tão diferentes, distantes entre si tanto no tempo como no espaço, tinham conhecimentos idênticos a respeito da reencarnação (transmigração)?

 

 NOTAS:

1. Tradição é o Ensinamento inspirado pela Mente Divina diretamente aos grandes Avatares (Jesus, Maomé, Moisés, Lao Tsé, Buda, Confúcio e outros)  e que seguiu sendo transmitido de mestre a discípulo em linhagens ininterruptas ao longo dos séculos.

2. Etimologicamente significa "retornar para a carne".

3. Wu Jyh Cherng - Iniciação ao Taoísmo, Mauad Editora, Rio de Janeiro, págs. 83-100.

4. Orígenes - De Principiis, Livro I.

5. Bhaghavad-Gita, Cap. XIV, verso 18.

6. Dalai Lama (Tenzin Gyatso) - O Despertar da Visão da Sabedoria, Editora Teosófica, Brasília, pág. 124.

7. Dalai Lama, idem, pág. 49.

8. Platão - A República, Atena Editora, São Paulo. Págs. 448 e 449.

9. Blavatsky, Helena P., Glossário Teosófico, Ed. Ground, São Paulo. Verbete "Reencarnação".

10. Final do século XIX.

11. Esta citação foi tirada do artigo Gilgul Neshamot - Reincarnation of the Souls, disponível no site www.projectmind.org/exoteric/brandwein.html

12. O termo "reencarnação" é utilizado aqui pelo Rabbi exatamente no sentido de "transmigração", como ficará claro no próximo parágrafo. Na verdade, a melhor tradução de "gilgul" é "transmigração".

13. Torah significa a Lei Mosaica e o livro que a contém, o Pentateuco.

14. O Zohar ou Livro do Esplendor é um dos principais livros da Kabbalah hebraica (juntamente com o Sepher Yetzirah); é uma obra muito extensa constituida por ensinamentos orais esotéricos antiquíssimos colocados na forma escrita pelo Rabbi Shimon Bar Yochai (150 - 230 d.C.).

15. Rabbi Yitzhak Luria, também conhecido como Ari, nasceu em Jerusalém em 1534. É considerado um dos três maiores kabalistas de todos os tempos. Foi o primeiro a divulgar em maior escala  a Kabbalah, que até então só era ensinada em círculos extremamente restritos. Ele é conhecido como reencarnação do Rabbi Shimon Bar Yochai, que escreveu o Zohar.

16. Provavelmente esta é a razão que deve ter levado também a Igreja Cristã a retirar a reencarnação (transmigração) de sua doutrina exotérica.

17. Ver nota no. 15.

18. Fazemos questão de enfatizar que esta visão não é exclusiva do Budismo Tibetano.

19. A respeito de fatos que indicam que H.P.B. talvez nunca tenha sido iniciada no Budismo Tibetano, podemos ler o livro Le Théosophisme de René Guénon (Éditions Traditionnelles). Existe uma versão espanhola com o título de El Teosofismo, Historia de Una Pseudorreligión (Ediciones Obelisco, Barcelona).

20. Editions Traditionelles, Paris.

21. O mundo astral é o intermediário entre o físico e o espiritual.

22. Papus - Bibliographíe Méthodique de la Science Occulte (Livres Modernes), Chamuel Éditeur, Paris, 1892. Pág. 61.

 

23. René Guénon, Le Théosophisme, Éditions Traditionnelles, Paris.

24. Papus foi um grande médico e pesquisador.

 

* Artigo retirado da revista “L´Initiation” , N. 10, Julho/Setembro de 2003. Versão brasileira. Pág. 19 até 32.

** Lecabel, S::I::I (Martinismo Livre - Linhagem de Philipe Encausse/Boisset), membro da OKRC, FRC XIII e Sacerdote Taoísta.