Podemos definir uma seita?
Por Phillipe Allard
Nem o tamanho, nem a antiguidade
definem uma seita. Geralmente, a definimos como “grupo sectário” ou “seita
perigosa” um grupo que se molda em vários critérios definidos por autores como
Max Bouderlique.
1 1) A seita perigosa
é um grupo totalitário, um grupo que se separa da sociedade e a ela se opõe. As
leis divinas costumam ser consideradas como superiores às leis humanas (Testemunhas
de Jeovah e igrejas evangélicas atuais). A seita provoca uma ruptura do adepto
com a sociedade e o abandono de seus projetos pessoais de vida (por ex: profissional),
de maneira a assegurar sua dependência. Pode, inclusive, exigir o abandono de
sua identidade e um nome simbólico lhe é atribuído (mas esta prática é também
usada pelas Ordens religiosas tradicionais). O adepto pode então ser
“reconstruído” a partir das ideias do grupo.
2)
A seita vive também sob um sentimento de perseguição. O exterior é visto
como “o sistema” (A família), um mundo de ignorantes que vivem na ilusão, como
infra-humanos, Satã, etc... O mundo nada mais é do que um celeiro de futuros
adeptos onde é necessário retornar para novos recrutamentos. A desconfiança e a
delação podem ser exigidos: os cientólogos que encontraram situações “não
otimistas” ou ações fora dos regulamentos de seu centro devem escrever um
relatório para o conhecimento de seu “oficial de Ética local”.
3)
“Ela é
fundada sobre crenças definidas uma vez por todas como certezas rigorosamente
intangíveis” estabelecidas
pelo guru-fundador. Este apresenta uma imagem idealizada e um currículo impressionante.
Ele detém a verdade e o direito de exercer um controle-absoluto obre as ações,
comportamentos e pensamentos de seus adeptos, compreendidos aqui os aspectos
mais íntimos (casamento, vida sexual). Embora o próprio não esteja
necessariamente obrigado às mesmas regras de pobreza, de castidade. As
finalidades do Guru são “a dominação dos
corpos e almas” dos adeptos, a conquista do poder político mundial, a riqueza,
“motor das guerras” e instrumento de todo poder e de toda posse”. O Dr.
Richard (Federação Europeia dos Centros de Pesquisa e de Informação sobre o
Sectarismo) fala do “mestre inspirado,
superdotado, sedutor, tirano de tendências megalomaníaca e paranoica”.
4)
O ensinamento das seitas contém todas as verdades. Podendo recorrer aos
grandes textos religiosos clássicos para fazerem uma leitura pessoal e
mutilada. As seitas oferecem respostas geralmente simples e claras para pessoas
solitárias, em desarmonia, em busca, e prometem a cura de seu sofrimento físico
ou psíquico. Utilizam uma linguagem “fechada”, uma característica típica da
cientologia (Um clarão Dialético é
simplesmente qualquer um cujas engrenagens e as fechaduras foram desfacelados ...).
5) A dúvida, os questionamentos são
considerados como ataques contra o grupo ou guru. Podem aproveitar o desvio
para o descartar ou excluir do grupo. Em contrapartida as seitas exigem a
transparência de seus membros, por exemplo, pela via da confissão (normalmente registradas).
6) A seita utiliza todo espaço para
impor sua verdade e seu poder, compreendendo a penetração nas firmas
industriais ou comerciais (“Ordem do templo Solar” e “Hydro” - Quebec) e
infiltração na direção de grandes sociedades ou do aparelho de Estado. Na
França, segundo o jornalista Serge Faubert, as cientologias se infiltraram com
sucesso no Ministério do Interior, da Defesa, da Cultura e no Elysée**. As
seitas usam de dissimulação, o engajamento é rápido sem que os verdadeiros
objetivos (ou a identidade do grupo) sejam revelados. A crença não é adotada
quando há consciência e consenso geral.
Em poucas
palavras
Entre as definições dos
movimentos ou organizações do tipo sectário, vejamos esta do liberal Jean Gol,
antigo ministro belga da Justiça, que afirmava serem estes um:
“Grupamento
contratual minoritário de voluntários convertidos partilhando uma mesma crença
elitista, frequentemente submetido a um chefe carismático ou a uma
administração hierarquizada, centralizada e autoritária, cujas visões podem ser
religiosas, políticas, econômicas ou outras, mas cuja distinção essencial
confessada é uma concepção pura do divino à qual é necessário se submeter para
assegurar sua salvação”. As associações francesas de defesa da família e do
indivíduo falam de “grupos no seio dos
quais são praticadas pressões de toda natureza (psicológica...), arrastando a
destruição da pessoa, da família -para o limite da sociedade - e que apresenta,
em sua base, um chamariz, um embuste intelectual, moral ou financeiro”.
As
informações gerais (RG) francesas alimentaram os trabalhos da Comissão de
Inquérito Parlamentar. As RG consideram como seitas os grupos que apresentam
pelos menos um dos dez indícios seguintes de comportamento sectário:
1. Desestabilização ou sujeição
mental;
2. Exigências financeiras
exorbitantes;
3. Ruptura com o ambiente de origem;
4. Dano a integridade física;
5. Brigadas infantis;
6. Discurso antissocial;
7. Perturbação da ordem pública;
8. Altercações judiciárias;
9. Desvio dos circuitos econômicos;
10. Tentativas de infiltrações nos
poderes públicos.
** Dados
dos anos 1990 e 2000.

Lembre-se sempre: A verdadeira transformação espiritual não deve aprisionar o indivíduo, mas conduzi-lo à liberdade de ação e consciência.
Breve lista de filmes para nos
ajudar a refletir sobre o tema:
1) A Seita (A Sacrifice) - 2024
Direção:
Jordan Scott -
O
protagonista, Ben Monroe, é um psicólogo social que investiga os mecanismos e
as origens dos cultos. Em Berlim, sua investigação cruza-se com o envolvimento
de sua filha adolescente com um jovem ligado a um grupo misterioso.
2) Wild Wild Country - (2018)
Direção: Maclain
Way e Chapman Way- série, 6 episódios.
Documentário.
Investiga a comunidade de seguidores de Bhagwan Shree Rajneesh (OSHO) no
Oregon, nos Estados Unidos. Examina o choque entre espiritualidade, poder,
dinheiro, política e lealdade ao líder.
3) Holy Hell - (2016)
Direção: William Francesco Allen
Documentário. Relato de um antigo
integrante de uma comunidade espiritual e de sua experiência com o líder do
grupo. Particularmente interessante para analisar a idealização do mestre e a
progressiva perda de autonomia.
4) O Mestre (The Master) - (2012)
Diretor: Paul Thomas Anderson
Um homem emocionalmente
fragilizado aproxima-se do fundador de um movimento filosófico que promete
oferecer respostas, disciplina e transformação interior.
5) O Infinito/O Culto (The Endless) - (2017)
Diretores: Justin Benson e Aaron
Moorhead.
Dois irmãos retornam a uma
comunidade da qual haviam escapado. Mistura culto, mistério cósmico e
aprisionamento existencial. Excelente para quem se interessa pela ideia de uma
comunidade que se torna uma prisão espiritual.











