quarta-feira, 4 de março de 2026

O AGENTE INCÓGNITO

 

                           

                           O AGENTE INCÓGNITO

                                              Por Christian Rebisse

 

O enigma


Agente Incógnito! Eis um título que faz sonhar, em especial os martinistas. O que já não foi dito sobre esse título eivado de mistérios! Mas quem é esse enigmático agente? Será, como disseram, aquele que se ocultava por trás de Louis-Claude de Saint-Martin e do qual o Filósofo Desconhecido seria apenas intérprete? Esse enigma, que deu motivo às interpretações mais exóticas na época de Papus, foi resolvido em 1938 por Alice Joly (1)! Não obstante, muitos martinistas continuam ignorando esse episódio da história do martinismo e por isto achamos que é conveniente lembrá-lo.



Situemo-nos inicialmente na origem da polêmica. Quando, em 1782, foi publicado o livro de Saint-Martin, "O Quadro Natural", o editor julgou que seria interessante acrescentar, como introdução, uma breve nota chamando a atenção dos leitores. Segundo ele, o estilo e a caligrafia do manuscrito desse texto que um desconhecido lhe havia confiado, faziam pensar que o livro tinha sido escrito por dois autores, dos quais um parecia comentar, com textos escritos nas margens, o texto principal. Para diferenciar os dois textos, o editor colocou entre aspas o que considerava comentários. Será que devemos concluir disso que Saint-Martin era apenas o comentarista de um texto que lhe tinha sido confiado? O mistério sobre a origem dos escritos do Filósofo Desconhecido estava lançado e os sucessivos editores desse livro reproduziram essa nota. Papus fez o mesmo quando publicou esse livro sob a égide da Ordem Martinista, em 1900.


Papus foi mais longe nessa história e deu origem a uma verdadeira lenda sobre a fonte dos primeiros escritos de Saint-Martin, atribuindo-os ao "Agente Incógnito". Em seu livro "Martinesismo, Willermosismo e Franco-Maçonaria", Papus declara: "Sabemos formalmente, por documentos atualmente colocados sob a guarda do Supremo Conselho Martinista e por palavras provindas diretamente de Willermoz, que as sessões reservadas aos Membros capazes de justificar seus títulos de iluminados eram voltadas para a prece coletiva e para as operações que permitiam a comunicação direta com o Invisível [...] O que devemos revelar e que lançará uma grande luz sobre muitos pontos é que os iniciados chamavam de "Filósofo Desconhecido" o ser invisível que se comunicava com eles; que foi ele que transmitiu, em parte, o livro "Dos Erros e da Verdade", e que Saint-Martin só tomou para si esse pseudônimo mais tarde por isso lhe ter sido ordenado [...] O "Agente ou Filósofo Incógnito” teria ditado 166 cadernos de instruções, dos quais Louis Claude de Saint-Martin tinha tomado conhecimento, copiando alguns de próprio punho" (2). Temos aí a lenda explicada, mas as provas, pretensamente detidas por Papus, eram bem frágeis, como veremos.

 


O Mesmerismo

O título de "O Agente Incógnito" foi efetivamente utilizado na época de Saint-Martin a partir de 1785, ou seja, quinze anos antes da edição de seu primeiro livro, em condições que Papus aparentemente ignorava. Para compreender o que significa a noção de "Agente Incógnito" devemos evocar rapidamenre, o contexto em que ela evoluiu. No final de 1783, o Mesmerismo começa a expandir em Lyon. A virtude terapêutica do fluido magnético divulgado do invisível, em primeiro plano os Elus-Cohen, ficam rapidamente seduzidos pelo lado espetacular dessa prática. Jean-Baptiste Willermoz não escapa ao entusiasmo geral e participa, a partir de 1784 na sociedade magnética "La Concorde", fundada em Lyon pelo Dr. Dutrech. O próprio Saint-Martin, em fevereiro de 1784, é recebido no "Harmonia" de Mesmer, em Paris. Mas o mesmerismo vai rapidamente assumir uma nova orientação graças às descobertas do marquês de Puysegur. Este havia constatado que um sujeito mergulhado num sono magnético tornava-se dotado de uma clarividência surpreendente e era capaz de responder perguntas que tocavam as coisas do invisível. Esse método que permitia interrogar um sujeito sobre os problemas mais diversos seduziu rapidamente os membros do "La Concorde" que viam nele um meio novo de dialogar com o invisível.


Jean-Baptiste Willermoz, convencido de que tinha encontrado um novo instrumento para levar a bom termo sua busca, utilizou como médium Mlle. Rochette. Ele anotou cuidadosamente os resultados desses sonos magnéticos em cadernos que chegaram às mãos de Papus e que hoje se encontram nos arquivos da biblioteca de Lyon (3).


Após o entusiasmo inicial, essa prática torna-se limitada. Alice Joly constata: “... os processos verbais dos primeiros sonos magnéticos nos parecem bem monótonos. As mensagens dessas almas que deveriam trazer pela boca da vidente proposições edificantes, são de uma banalidade espantosa. Precisamos dizer que estamos decepcionados?" (4).

 

A Sociedade dos Iniciados

Para Jean-Baptiste Willermoz, tudo mudou quando o dia 5 de abril de 1785 lhe trouxe uma série de cadernos escritos, psicografados em sua inteçao. Os textos tinham sido escritos por um médium que, mergulhado no sono magnético, escrevia guiado por uma mão invisível. Bem antes de Allan Kardec, Willermoz fazia a experiência da escrita mediúnica. As misteriosas mensagens transmitidas a Willermoz lhe ordenavam que fundasse um grupo secreto: a "Sociedade dos Iniciados" com a finalidade de tornar-se o "centro geral da luz dos últimos tempos e da perfeita e primitiva iniciação"(5). Era a partir desse novo centro que a luz devia ser propagada para todos aqueles que se mostrassem dignos. O Agente Incógnito impôs uma condição ao recrutamento de membros da Sociedade dos Iniciados: todos deviam ser C.B.C.S. (Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa); além disso, o próprio Agente Incógnito comunicava os nomes dos eleitos para essa sociedade. A doutrina consignada aos cadernos escritos por um médium logo seduziu Willermoz, pois confirmava e retomava a que fora exposta por Martinez de Pasqually. Rapidamente ele organizou uma loja dessa nova sociedade, com o título de "Loja Eleita e Amada da Beneficência". Esse grupo parecia verdadeiramente ser "uma sociedade voltada para o poder invisível de um Superior Incógnito"(6). Saint-Martin estava em Paris. Já havia algum tempo ele tinha se afastado de toda atividade maçônica e não compartilhava das ideias de seu amigo Willermoz quanto à maneira de continuar o trabalho iniciado com os Elus-Cohen. Não obstante, após ter sido informado da situação, decidiu ir a Lyon para ver quem seria o misterioso Agente. Para satisfazer as exigências do Agente Incógnito, aceitou receber a iniciação na Ordem dos C.B.C.S. em julho de 1785, para poder tornar-se membro da Sociedade dos Iniciados.

 

O Fim do Mistério


Jean-Baptiste Willermoz, verdadeiramente missionado pelo Agente Incógnito recebia os estranhos cadernos contendo os ensinamentos transmitidos pelo Agente. Em 1785, quarenta e seis cadernos já lhe tinham chegado às mãos. O entusiasmo inicial esmoreceu após um ano. As mensagens eram frequentemente incompreensíveis, cheias de contradições, e as promessas do Agente não se cumpriam. Willermoz acabou suspeitando da autenticidade das mensagens, pois duvidou que "um intermediário do ser celeste fosse tão ignorante a ponto de se preocupar com questões maçônicas e mesmo com pequenos problemas das lojas"(7). Ele nada sabia sobre a qualidade daquele ou daquela que, por meio da escrita automática, recebia as mensagens. A fim de se esclarecer sobre a atitude que devia tomar, consultou Mlle. Rochette. Esta última, feliz por constatar que não tinha sido esquecida, propôs colaborar com o Agente para ajudar a canalizar melhor a sua inspiração. Segundo Alice Joly, é provável que, com essa confrontação, Mile. Rochette tentasse eliminar um rival e retomar o lugar que o Agente lhe tinha tirado. O Agente, que desejava manter-se incógnito, após muitas reticências aceitou revelar-se e, em abril de 1787, o mistério se esclareceu, o Agente se apresentou a Willermoz. Tratava-se de uma mulher, Mme de Vallière, Marie-Louise de Monspey, cônega de Remiremont. Ela era irmā de Alexandre de Monspey, um magnetizador muito conhecido em que além disso era Elu-Cohen. A máscara tinha sido retirada e Jean-Baptiste Willermoz, provavelmente desapontado, aceitou os conselhos de Madame Rochette para canalizar melhor o Agente.


Alguns meses mais tarde, em outubro de 1788, Willermoz, provavelmente sentindo que estava a caminho de um impasse, convocou uma reunião dos membros da Sociedade dos Iniciados. Expôs suas dúvidas e preferiu retirar-se da direção do grupo. Quanto a Saint-Martin, não se tendo deixado enganar por muito tempo, partiu em busca de novos horizontes, confortado pela ideia de que a inclinação pelo maravilhoso e espetacular não costuma combinar com verdadeiro trabalho místico. Seja como for, o episódio durante o qual os martinistas lioneses se iludiram com o magnetismo foi prejudicial para os projetos de Willermoz e provavelmente contribuiu para desorganizar a Ordem dos C.B.C.S., que mal tinha sido formada. Quanto ao Agente Incógnito, continuou seu trabalho mesmo sob o regime do terror, mas a “Sociedade dos Iniciados” foi se dispersando progressivamente. Após a morte de Paganucci em 1797, foi Jean-Luc Périsse-Duluc quem se tornou depositário dos cadernos do Agente. Em 1800, após a morte deste último, os documentos reverteram à posse de Jean-Baptiste Willermoz, que os classificou cuidadosamente, assegurando-se de que em nenhuma parte aparecesse o nome da que tinha servido como Agente Incógnito. O próprio Papus ignorava todos os detalhes desses fatos, pois foi só em 1938 que Alice Joly descobriu o nome que se ocultava por trás do Agente Incógnito, Madame de Vallière de Monspey. O livro que Alice Joly publicou em 1939, "Um místico Lionês e os Segredos da Franco-Maçonaria", contém numerosos detalhes sobre esse episódio.

 

Os Livros de Saint-Martin

É nas atividades de Jean-Baptiste Willermoz que se deve inserir o Agente Incognito e não nas de Saint-Martin. Este último, aliás, não demorou muito para perceber que não havia muita coisa interessante nas revelações do Agente. Papus, certamente mal informado, concluiu um pouco depressa demais que a realidade era mais simples! Se o Agente não participou na redação das obras de Saint-Martin, como conhecer alguma coisa sobre a Gênese de seus livros? Pelos detalhes sobre a obra "Dos Erros e da Verdade", que Jean-Baptiste Willermoz , numa carta endereçada ao Barão de Turkheim, dá sobre a redação do primeiro livro de Saint-Martin: "Tendo deixado o exército, ele veio para Lyon e, sendo meu amigo, passou a morar comigo, que então residia em  Brotteaux, onde ele compôs seu livro [...] Ele gostaria de expor no mesmo muitas coisas importantes, mas, restringido como eu e outros por compromissos de sigilo, não podia tornar-se tão útil com aquela obra quanto desejava..." (8). Esse livro foi editado em 1782 em Edimbourg, sem o nome do editor. O autor, desejando permanecer um filósofo "desconhecido", confundiu as pistas, pois Edimbourg não foi o local da publicação do livro, que foi impresso em Lyon, pelo editor Jean André Pérrise-Duluc, um Elu-Cohen. Evocamos no início deste artigo o "mistério" que pairava sobre a redação do "Quadro Natural". O Véu foi retirado em 1862 com a publicação da correspondência entre Louis-Claude de Saint-Martin e Kirchberger, Barão de Liebisdorf. Numa carta datada de 11 de julho de 1796, Saint-Martin responde ao Barão que o interroga sobre o assunto: "As passagens entre aspas do Qu. N., Edimb. 82 (Quadro Natural, Edimbourg, 1782) são minhas. O editor acreditou não haver suficiente coerência com o restante da obra, e preveniu a inquietação que os leitores pudessem ter a respeito; não interferi e o deixei agir (9). Tudo ficou claro: não houve qualquer influência do Agente Incógnito nos escritos do Filósofo Desconhecido.


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        Recomendamos a edição brasileira do livro da Alice Joly.

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NOTAS:

 

1. Alice Joly: "Un Mystique Lyonnais et les secrets de la Frabc-Maçonnerie: Jean-Baptiste Willermoz”, Ed. de Mâcon 1938, depois Ed. Déméter 1986. Edição brasileira: “Um Místico lionês e os segredos da Franco-Maçonaria: Jean-Baptiste Willermoz". Editora do Autor, Curitiba, 2026. Ver ainda "Do Agente Incógnito ou Filósofo Desconhecido": (em colaboração com Robert Amadou), Denoel 1961.

2. "Martinesismo, Willermosismo e Franco-Maçonaria". Paris 1899, Chamuel pág. 14.

3. Biblioteca municipal de Lyon ms 5526 e 5478. Emile Dermenghen publicou uma parte desses textos em "Sonos", Paris 1926, ed. La Connaissance. Paul Vulliaud também incluiu extratos desses textos em seu livro "Os Rosacruzes Lioneses", ed. Emile Nourry, 1929.

4. Alice Joly: "Un Mystique Lyonnais et les secrets de la Frabc-Maçonnerie: Jean-Baptiste Willermoz”, Mâcon 1938, pág. 228.

5. Carta de Willermoz ao Duque Ferdinand de Brunswick, de 30 de julho de 1785, em "Episódios da Vida Esotérica", 1780-1824, opus citado, pág. 63.

6. Alice Joly, opus citado, pág. 232.

7. Alice Joly, opus citado, pág. 243.

8. Carta reproduzida em "Sonos", Paris 1926, ed. La Connaissance, pág. 158.

9. L. Schauer et ALP, Chuquet: “Correspondência inédita entre Louis-Claude de Saint-Martin e Kirchberger, Barão de Liebisdorf”. Paris, 1862, Dentu, pág. 273.


Retirado do Boletim “O Pantáculo”, TOM/AMORC, Ano 1, N. 1, 1993, pág 24 até 28.