sexta-feira, 6 de maio de 2016

LEIS QUE REGEM A VIDA

LEIS QUE REGEM A VIDA

         Por Swami  Sarvânanda (1922-2000) 


Quando a criança nasce, traz com ela, inscrito no seu akasha individual, um triângulo eqüilátero, cada um dos seus lados representando uma das leias que regem a vida, sua vida desde o nascimento até seu último suspiro. São elas:

                       PASSADO – PRESENTE – FUTURO

Ou seja, se transformadas em função, representam as três forças ativas que giram em torno de si mesmas de eterna ação, e que os yogues determinam como sendo as três divindades que permitem que haja vida no cosmos:

                                      BRAHMA – VISHNÚ – SHIVA


Que, respectivamente, representam as três fases da vida universal:

                   CRIAÇÃO  -   CONSERVAÇÃO –  TRANSFORMAÇÃO.

Em outros termos, e mais próximos a nós que pertencemos à civilização cristã ocidental, estas três forças de vida são sintetizadas no Triângulo acima citado:

                    Providência                               Destino-Karma

                                          Livre-Arbítrio

BRAHMA criou – e continua criando – desde o Passado até o Presente; representa pois o que vêm do Passado e que é inalterável, imutável poder do Pai em se perpetuar na sua própria criação: Karma.


VISHNÚ é quem conserva aquilo que Brahma criou, proporcionando o suporte da perpetuação da criação de Brahma, tornando a vida constante e polarizando-a em torno do  conceito do Presente; é o fato Providencial que permite que as coisas aconteçam.

SHIVA tem a missão de transformar o que Brahma criou e o que Vishnú conserva, levando aos olhos ilusos dos homens o conceito da Morte, preparando assim novo espaço para nova vida.

Ao nascer, a criança é a expressão do seu próprio passado;  traz um caráter original e único que se expressa fielmente nos traços faciais que apresenta e que o acompanharão até o fim de sua existência.

Ao ser gerado, seus genes individuais são acrescidos pelos dos seus pais, transformando assim sua personalidade em híbrida, o que também se grava indelevelmente no seu rosto.

Sua família, ao gerá-lo, constitui o fator Providencial, fornecendo-lhe um novo corpo, a proteção para crescer e se desenvolver, e o impulso para entrar na vida, quando maduro para isto.

Mas, também desde o momento em que o novo ser é gerado e nascido, ele expressa seu Livre Arbítrio ao exigir a alimentação, o cuidado e o aconchego familiar. Mais tarde e na medida em que ele se torna consciente de si estenderá este Livre Arbítrio às ações, às palavras e aos pensamentos, dentro de suas expressões de evolução particular, condicionado pela influencia familiar e influenciado pelo meio ambiente em qual está vivendo como filho, amigo, esposo, profissional.

Este Livre Arbítrio o ajuda a escolher com relativa espontaneidade, sua via de vida  sem sair do rumo marcado pelo Pai, junto com todos os que partiram com ele, em direção à Perfeição que é sua meta e a meta de todos.

Passado, Presente e Futuro são, pois, ao mesmo tempo os agentes do Karma, Livre Arbítrio, e Dharma, que constituem a real e eterna vida do Homem até  ele alcançar a sua Liberdade Transcendental  e que se expressará nele durante  a sua presença na Sexta Raça Humana que deverá habitar o Sexto Continente que deverá surgir do Pacífico.

Retirado da revista “ Nave” , N. 3, 1990, Niterói, RJ


Swami Sarvananda

sábado, 9 de abril de 2016

O PANTÁCULO E O LIS

                                                   O PANTÁCULO E O LIS

                            Dois Martinistas no Egito, D. P. Sémèlas e Eugène Dupré

                                                                   

                                                                                                    Por Christian Rebisse*

Entre as brilhantes personalidades que serviram a causa martinista, nos parece importante colocar em evidência o papel desempenhado por dois deles, Démetrius Platão Sémèlas e Eugéne Dupré que, a sua maneira, contribuíram para o estabelecimento do Martinismo.

Démetrius Platão Sémèlas é de origem grega, nascido em 1883 na Silivry, Turquia. Estudante de medicina na universidade de Atenas, apaixonou-se pelo ocultismo. Com alguns amigos estudou as ciências tradicionais sob a direção de um velho Mestre. Uma noite, em 1902, o Invisível o ordenou de ir ao monastério de Levadia sobre o monte Athos. Intrigado, nosso estudante tomou a estrada rumo a “Santa Montanha”. Chegando ao monastério, o Invisível o guiou através de várias criptas onde descobriu pergaminhos pertencentes à iniciados do passado, Templários e Rosa-Cruz.

Esta descoberta fez de Démetrius Platão Sémèlas o herdeiro dos Irmãos do Oriente, uma antiga Ordem que logo reorganizará. Entretanto , o jovem D. P. Sémèlas não se sentiu pronto para uma missão de tamanha magnitude e julgou necessário primeiro entrar em contato com os iniciados de seu tempo, afim de atestar sua missão. Não foi na Grécia, mas no Egito trabalhando como químico industrial, onde entrará no círculo secreto destes iniciados.

O Martinismo no Egito

O dossiê “Lojas” do fundos Papus, na biblioteca municipal de Lyon, contêm informações concernentes ao início do Martinismo no Egito (1). Seu estudo revela que o Martinismo parece ter sido implantado no final de 1892. Os primeiros Martinistas egípcios foram essencialmente estrangeiros, franceses em sua grande maioria. Auguste Souter, engenheiro de patrimônios do Estado em Sakha (baixo-Egito) entrou em contato com Sedir em novembro de 1892. Entretanto, em março de 1893, não havia ainda recebido a iniciação martinista mesmo estando já em posse dos diversos “cadernos martinistas” (2). As primeiras iniciações “egípcias” foram, provavelmente em Paris no início do ano de 1896. Um pequeno grupo veio se iniciar na Loja “Hermanibus”. Em 11 de janeiro de 1896, Jeannine Costet, escreveu agradecendo Sedir da acolhida que lhe foi reservada em Paris (3). 

Entre estes membros figuravam seu esposo Jean Costet, Houdaye, Boudry e Larriou. Estes poucos membros são provavelmente a origem da primeira Loja egípcia, como consta na ata da reunião do Supremo Conselho de março de 1897, quando menciona as atividades da Ordem no país. O “delegado geral” da O:: M:: no Egito era Démosthenes Verzato, um médico magnetizador, que dirigirá “Hermes”, a Loja-mãe para este país na Alexandria.

Esta é, em resumo, a situação quando D. P. Sémèlas chegou no Egito. É em janeiro de 1911, graças a Edouard Troula, um Martinista de passagem pelo Cairo, que vai entrar em contato com a O:: M::. Este último fez-lhe elogios da “Sociedade Martinista” dirigida por Papus e lhe recomendou entrar em contato com o célebre Ocultista. Em 12 de janeiro D. P. Sémèlas escreve à Gerard Encausse, para solicitar “a honra de ser recebido membro da Ordem” (4). A resposta de Papus não demorou e em 23 de janeiro, este lhe aconselha de entrar em contato com seu delegado no Egito, o irmão Verzato.

O Templo do Essênio

Rapidamente, Sémèlas entrou em contato com delegado geral e recebeu a iniciação Martinista. Como não existia Lojas no Cairo, solicitou à Papus a autorização de criar uma em sua vila, sob o nome de “Templo do Essênio no III” Papus aquiesceu ao seu pedido e lhe expediu uma carta com este objetivo (no 312). No Domingo de 28 de maio de 1911, a Loja “Templo do Essênio no III”, inicia suas atividades solenemente com uma cerimonia desenvolvida no interior da pirâmide de Kéfren. É o delegado geral, vindo de Alexandria com seis martinistas, quem presidirá a cerimonia de instalação. Em junho D. P. Sémèlas escreveu de novo à Papus para agradecer sua confiança (5). Informa-lhe, também, que já havia sido recebido nos três graus Martinistas e tomado como nome iniciático “Selaït-há” . Segundo D. P. Sémèlas, este nome teria sido “de um grande iniciado egípcio da época antiga sob o regime de Menkeisera ( Miquelinos) sobrinho de Kéfren da IVa dinastia” (6).

Eugène Dupré

O Templo do Essênio é para Selaï-há o palco de um encontro que não tardará em transformar sua existência. De fato, é lá que conhecerá o Sr e a Sra. Duplé, um casal de franceses instalados há pouco no Egito. Eugène Dupré trabalha como cartógrafo para o governo egípcio. Nascido em Paris em 1882, e desde sua juventude apaixonado por desenhos. Em Paris, freqüentou Utrillo, Picasso, Warnod e uma escola rosacrusiana de pintura. A esta paixão acrescentou a do esoterismo, que o levou a frequentar de 1901 à 1902 “A Universidade Hermética” de Papus. Embora tenha encontrado o célebre médico, não solicitou a iniciação martinista por se considerar ainda muito jovem. Apaixonado pelo Egito, instala-se no Cairo para continuar suas pesquisas egiptólogas. Neste local se interessa pelo islã místico e freqüenta os Sufis. Teve também a chance de torna-se amigo de um Brahamane que o ensinou as religiões orientais. Após algum tempo, entrou em contato com os martinistas do Egito e se fez iniciar no final do ano de 1910.Toma por nome iniciático “AdjAmr”. Sua esposa Marie, nascida Routchine, o segue no Martinismo e pede sua admissão a ordem. Em 9 de abril de 1911, Marie torna-se “Séilée”.

Foram os problemas causados por Démosthène Verzato que levaram D. P. Sémèlas a melhor conhecer os Dupré. De fato, Eugène que havia conhecido o Martinismo quando freqüentou a Escola Hermética em Paris, se surpreendeu, porque o Martinismo que praticado pelo Delegado Geral egípcio estava longe do visto em Paris. Realmente, o Delegado geral tinha modificado completamente os rituais Martinistas acrescentando-o elementos tirados de uma péssima franco-maçonaria americana. Eugène Dupré confiou a seu amigo que quando estava em Paris, achou que teria dificuldades para entrar no Martinismo devido aos exames exigidos...mas que surpresa quando descobriu que no Egito os graus se compravam! Os responsáveis pela Loja decidiram informar a Papus da situação. Eugène Dupré, secretário, endereça um relatório detalhado a Paris (7). O Grande Mestre reafirma sua total confiança em seu Delegado Geral, mas assinala que um Inspetor Geral da Ordem iria em breve ao Egito a trabalho e examinaria a situação de perto.


Georges Lagréze

De fato, o Inspetor Geral chegou no mês seguinte ao Cairo. Este inspetor é Georges Lagréze (Mikaël, no Martinismo), artista lírico, que veio para trabalhar alguns meses no Egito. Rapidamente, se simpatizou com D. P. Sémèlas em quem reconheceu um homem honorável. Confidenciou a Papus que Selaït-há fez “muito para a difusão da Ordem Mart:: e [que] é um iniciado de valor” (8). Infelizmente, o Inspetor Geral não pode mais que confirmar as denuncias de Dupré e fez seu relatório à Papus em 29 de outubro de 1911 (9).

Para acalmar as coisas, Lagréze pede à Papus de conceder ao Templo do Essênio sua independência administrativa da Loja “Hermes” . Esta Loja, instalada em Alexandria, sob a direção de D. Verzato coordenava as atividades martinistas para o conjunto do Egito. Esta solução foi aceita pelo Supremo Conselho quando de sua reunião em outubro de 1911 (10). Para evitar um drama, colocaram o Delegado Geral em “banho Maria”, isolando-o de maneira que pedisse a sua demissão. O Templo do Essênio poderia, graças à esta solução, continuar suas atividades no Egito de uma maneira mais serena.

Sob a direção de D. P. Sémèlas, a Loja funciona agora de uma maneira perfeita. D. P. Sémèlas proferiu numerosas conferencias sobre alquimia, psicurgia, magia e a teurgia. Alguns anos mais tarde, algumas destas conferencias serão publicados na revista “Eon” (11). Lagréze, que tinha muita estima por D. P. Sémèlas , pode em janeiro de 1912, dirigir à Papus um quadro otimista da situação da Ordem no Cairo:

“Desde a decisão do Supremo Conselho, a O:: M:: no Cairo, tomou uma nova extensão. Os membros da Ordem são atualmente em número de vinte e cinco contra doze de um mês e meio atrás. Ainda, o irmão Sémèlas e eu fizemos quatro iniciações entre os membros da colônia russa do Cairo, iniciações mantidas secretas [...] Deixarei o Cairo em 12 de março e gostaria de deixar aqui um representante do S:: C:: e pediria se fosse possível de enviar-me uma Carta de Inspetor Especial para o Egito ou para o Cairo ao irmão Eugéne Dupré S:: I:: e igualmente uma carta de honra por serviços prestados a Ordem ao irmão SelaÏt-há, Filósofo Desconhecido da Loja Templo do Essênio”(12). Papus voluntariamente aceita a proposta de seu Inspetor Geral e nossos dois martinistas recebem suas cartas de retorno. (no 340 e no 341, na data de 8 de fevereiro de 1912) (13).

Durante sua estadia no Egito, Lagréze freqüentou regularmente a Loja do Cairo. Destas suas visitas, restou um discurso pronunciado em uma reunião. Este foi publicada pela revista “L’Initiation” em abril de 1912. Para esta publicação, assinou com um pseudônimo que usava com freqüência, “Zagrel” anagrama de seu próprio nome.


A Rosa-Cruz do Oriente

É chegado o momento de D. P. Sémèlas revelar a missão recebida alguns anos antes na Grécia. Esta missão que visava continuar a obra empreendida pelos iniciados do passado, tinha como finalidade transmitir aos homens os princípios de uma via fraternal, de uma verdadeira “fraternidade” (sic). Esta tradição era a da Rosa-Cruz do Oriente. D. P. Sémèlas confia seus projetos a Lagréze. Antes que este último retornasse para França e para agradece-lo de ter colocado ordem no Martinismo do Egito, lhe é conferida a iniciação aos “Irmãos do Oriente”. Assim, G. Lagréze foi consagrado “Aspirante R.C.” A “lenda” de que este último tivesse transmitido por sua vez esta iniciação à Papus, é duvidosa, porque os arquivos que consultei com este objetivo não fazem nenhuma menção a este fato. (14).


Os rituais Martinistas

D. P. Sémèlas trabalhou muito pela Ordem. Desejava restaura-la em sua pureza inicial. Assim sentiu a necessidade de alargar seus trabalhos martinistas, já que os cadernos secretos da Ordem descreviam o simbolismo das iniciações, mas existia somente um único ritual para a abertura e o fechamento dos trabalhos nos três graus. O anuncio, no número de maio de 1911 da revista “Iniciação”, de uma subscrição para os novos rituais estabelecidos por Teder (15), o interessou em particular. Em junho de 1911, solicitou um exemplar (16). Entretanto, D. P. Sémèlas , guiado pelo invisível, compôs ele-mesmo rituais para os trabalhos dos 2o e 3o graus, e para as iniciações e a recepção de um Iniciador Livre (17). Seus rituais foram compostos no espírito dos estabelecido por Papus para o primeiro grau. 

Para diferenciar os trabalhos dos três graus, propôs nomear os trabalhos do primeiro grau “Loja”, os do segundo “Assembléias” e do terceiro “Conselho”. Selaït-há (D. P. Sémèlas ) envia seus rituais à Papus solicitando sua correção. Papus aprova os textos e lhe retorna as cópias com sua assinatura em maio de 1912. Estes rituais serão por sua vez utilizados por várias obediências martinistas, e é interessante de observar que são muito próximos dos adotados pela O:: M:: T::.

A Loja Memphis

O número de membros passa a quarenta e cinco. Tornando-se necessário criar uma Segunda Loja. Em 24 de março de 1912, a nova Loja abre suas portas sob a direção de G. Lagréze. Esta recebeu o nome de “Memphis” (18). O acontecimento é anunciado no mês seguinte na revista “L’Initiation”. Pouco depois, é Dupré quem toma a direção. O brilho do Martinismo egípcio não tinha limite. Um martinista que havia sido iniciado por Selït-há, se propôs de abrir em Londres uma filial do Templo do Essênio. Papus autorizou em 1913 esta criação colocando-a sob a dependência do Egito (carta no 399, em nome de John S.).


O Crisma

Diante da evolução das coisas D. P. Sémèlas confia seus projetos à Papus. Em uma carta confidencial, datada de 26 de abril de 1912, sonda o Grande Mestre questionando-o a propósito de um símbolo caro aos “Irmãos do Oriente”, o Crisma, que figura no cabeçalho das cartas martinistas. D. P. Sémèlas lhe confia ser portador ele-mesmo deste símbolo sobre seu peito há quatro anos. Este símbolo foi lhe confiado por seu Mestre e se Papus é um deles, desejaria falar-lhe “dos perfumes deliciosos emanados da Rosa e dos mistérios escondidos no selo da Cruz” (19).

Nós ignoramos a resposta de Papus, entretanto em uma carta seguinte, Sémèlas, o agradece por sua resposta que o interessou vivamente. Nesta carta, observa a analogia que constatou entre os seis braços do Crisma, e os seis pontos martinista e a estrela de seis braços do Pantaculo martinista. Esta carta é assinada “vosso irmão em (figura abaixo)” (20).Devemos compreender por esta que Papus teria respondido ao apelo misterioso de D. P. Sémèlas ?


O novo Delegado

No meio do ano de 1912, Démosthène Verzato, enfim pede demissão e Papus desejaria ver D. P. Sémèlas substitui-lo. Este último sabendo-se chamado à uma outra missão não pode aceitar sua proposta. Recomenda para este posto a condensa Olga Delebeden, uma Martinista que o próprio havia iniciado (21). Papus aceita, mas malgrado tudo lhe atribui uma carta de Delegado Especial e de Delegado Geral para o Egito (no 394 e 398).

Em novembro de 1913, D. P. Sémèlas anuncia à Papus que confiou a presidência dos trabalhos do grau Associado da Loja “Templo do Essênio” ao diretor da repartição técnica suíça do Cairo, Léon Charles Oltramare. A Loja conta agora com mais de quarenta e cinco membros. É perfeitamente enfeitada e decorada cor um véu vermelho ornado do Labarum. Anuncia igualmente a preparação de uma série de conferencias sobre a quiromancia (22). A O:: M:: se conduz maravilhosamente no Egito. Infelizmente, uma sombria nuvem se levanta no horizonte, a “Grande Guerra”. A última carta que D. P. Sémèlas expediu à Papus à partir do Cairo é relativa à uma misteriosa mensagem, sua “segunda comunicação à França”, que pede para faze-la chegar à Clemenceau. Anuncia igualmente que lhe expedirá proximamente um relatório sobre a ação dos R. + C. no Oriente e no Ocidente, “relatório que será útil à França política e oculta”(23).

O Lis e a Águia

A guerra estoura em 1914 e Dupré é mobilizado. Retorna à França para servir na companhia 20/28 do regimento do 1o Gênio em Versalhes. D. P. Sémèlas não tardou em juntar-se a ele na França. É um pouco antes de deixar o Egito que seus projetos iniciáticos se precisam. Desde alguns anos havia descoberto na esposa de Dupré seu alter ego. Todos dois são portadores de faculdades psíquicas pouco ordinárias e amam compartilhar suas experiências dos mundos invisíveis. D. P. Sémèlas lhe revela que segundo a tradição eoniana dos “Irmãos do Oriente”, ele encarna o princípio do “Déon” e que própria incarna o do “Déa”. Quando estiveram os dois na pirâmide de Kéfren, viveram juntos uma experiência particular marcada pelo encontro de um misterioso desconhecido, o Sheik S. (sic).

Esta experiência teve lugar por volta de 21 de fevereiro de 1914. Desta maneira nasceu o projeto de fundar a “Ordem do Lis e da Águia” criada de fato no início do ano de 1915. Contrariando ao admitido geralmente, não foi Déon quem fundou esta Ordem mas Déa, isto é Marie Dupré. Somente após a guerra, em 1918, e algum tempo após a morte de Déa, que a Ordem começou realmente a existir. Esta Ordem não visava essencialmente ao desenvolvimento pessoal de seus membros, mas tinham um ideal social. Sua finalidade seria de trabalhar pela realização de uma fraternidade universal, baseada sobre três princípios fundamentais: a Fraternidade, o Amor e a Reciprocidade.

Os Projetos com Papus

Em 1915, D. P. Sémèlas instalou-se em Paris. Finalmente encontrou-se com Papus e uma estima recíproca ligou rapidamente os dois homens. Em 1916, Papus tenta concluir um protocolo de acordo com o Rito Escocês Retificado (RER), herdeiro da Ordem fundada outrora por Jean-Batiste Willermoz, mas o projeto não avançava. A R.E.R. após seu adormecimento na França em 1841, foi reentroduzida (junho de 1910), por Camille Savoire, Eduard de Ribaucourt e o Dr. Bastard. Em setembro de 1916, Papus desejava encontrar um solo harmonioso com a R.E.R. e pede a D. P. Sémèlas para tomar em suas mãos as negociações. Com esta finalidade, concede-lhe uma carta de representação. Sémèlas se dedicou ao máximo á esta tarefa. Em 11 de setembro encontra o representante da R.E.R., Maxime Macaigne. A tarde mesmo, um almoço com Edouard de Ribaucourt permitiu colocar as coisas claramente (24) e em 25 de setembro, D. P. Sémèlas anunciava feliz à Papus o resultado positivo de suas negociações (25). Estavam decididos de criar no seio do Martinismo um Grande Capítulo unicamente composto de martinistas maçons de maneira a constituir um liame com a R.E.R (a guerra impediu a realização deste projeto).

Em 25 de setembro, D. P. Sémèlas é recebido na Ordem Cabalista da Rosa-Cruz. Papus lhe remete um diploma de Doutor em Cabala (no 49). A título excepcional, recebe esta distinção sem exame. Nesta época a OKRC estava moribunda. Segundo Eugène Dupré, Papus visaria, graças à Selaït-há, restaura-la segundo a tradição clássica Oriental. Uma colaboração entre a Ordem do Lis e da Águia e a O:: M:: foi mesma entrevista. Infelizmente, Papus faleceu em 25 de outubro de 1916 e as coisas permaneceram em estado de projeto. As querelas da sucessão após a morte de Papus impediram sua continuidade. Victor Blanchard será favorável ao projeto mas nesta época estava muito absorvido pela Ordem dos Polares ( L’Ordre des Polaires) para se ocupar com estas questões.


O G.I.E.M.

Após a guerra, numerosos Martinistas do Egito foram para a França e não desejando tomar partido nas querelas sucessórias entre Blanchard e Jean Bricaud, preferiram trabalhar entre eles enquanto esperavam as coisas se acalmarem. Assim nasceu na França o “Grupo independente de Estudos Martinistas” (GIEM). Devido estas circunstâncias D. P. Sémèlas reabre o “Capítulo I.N.R.I.” despojando-o de seus aspectos maçônicos para trabalhar o Martinismo em toda sua pureza. 

Entretanto, lhe dará uma coloração muito particular. Aos três graus martinistas, acrescentará o “Rito dos S::I::” . De fato, tinha a convicção que a Ordem misteriosa do qual Martines de Pasqually era apresentado como um dos sete chefes, seria a Ordem dos “Sete Soberanos Desconhecidos” , uma emanação da R+C do Oriente. Segundo D. P. Sémèlas, esta Ordem teria sido criada em 1054 por Photius, o Patriarca de Constantinopla e organizada em 1090 por Alexis Comnéne, um dos ancestrais fundadores da Ordem do Lis e da Águia.


Os S:: I::

Para D. P. Sémèlas, Saint-Martin por seu trabalho individual teria sido ele próprio levado para esta Ordem invisível cuja uma das características seria a de não ter nenhuma estrutura material ou administrativa. Retomando certas afirmações de Papus concernente ao misteriosos “Agente Desconhecido” que teria ditado seus ensinamentos a Saint-Martin (26), este sustentaria que Saint-Martin teria resgatado e vivificado a doutrina do Ordem dos Soberanos Desconhecidos em 1793. 

Esta opinião, por mais sedutora que possa ser, não repousa sobre nenhum elemento histórico, mas conheceu um certo sucesso entre os Martinistas. D. P. Sémèlas restaura os ritos dos Soberanos Desconhecidos (que constitua um aspecto particular da Ordem do Lis e da Águia), e o “rito dos S:: I::” , virá sobrepujar a hierarquia do GIEM. Este grupo permanecerá marginal e sobreviverá com muita dificuldade.

Eon

A partir de dezembro de 1920, Sémèlas inicia uma série de conferências em Paris onde a revista “o véu de Ísis” fará o eco. Em 1924 a Ordem do Lis e da Águia cria sua própria revista, “Eon”. Eugène Dupré, que era apaixonado pelos trabalhos de Saint-Martin consagrou uma longa série de artigos à propósito do “Tableau Naturel” (Quadro Natural), e para facilitar o estudo deste difícil texto, condensou o pensamento de Saint-Martin sob a forma de teoremas. Igualmente, tentou apresentar uma síntese sob a forma de desenho, à maneira dos arcanos do tarô (27). 

O Martinismo possuía um lugar preferencial na revista “Eon”. René Desmoiret, o secretário de Teder, escreveu igualmente alguns artigos. A morte de D. P. Sémèlas, em 6 de agosto de 1924, devido à uma tuberculose, interrompeu provisoriamente as atividades do GIEM. Eugène Dupré, que teria retornado ao Egito após a guerra, foi muito afetado por este desaparecimento que se soma ao de sua esposa Marie, falecida em 30 de janeiro de 1918. 

Em 1928, retorna definitivamente à França para repreender a direção da Ordem que havia se dispersado. Forma então um pequeno grupo de estudo de filosofia social e edita a revista “justiça e verdade” de 1931 à 1935. Este pequeno grupo não viverá longo tempo e somente as atividades da Ordem do Lis e da Águia sobreviverão nos locais instalados no Pré-Saint-Gervais.


A Chaboseau

Entretanto em 1931, ocorreu um acontecimento no Martinismo. Augustin Chaboseau, ajudado por alguns antigos colaboradores de Papus restauraram um Martinismo “tradicional”.

Eugène Dupré decidiu entrar em contato com a O:: M:: T::. Alguns anos mais tarde, uma colaboração estreita é visado entre o GIEM e a OMT, porque Dupré, desejando manter a particularidade de seu grupo, pensaria em coloca-la sob a obediência de Augustin Chaboseau. A partir de 1939 e durante uma parte da guerra de 1939-45, Dupré e Chaboseau encontraram-se várias vezes. Chaboseau se interessou de perto pela Ordem do Lis. Com Eugéne Dupré, um acordo de equivalência de graus é decidida entre as duas Ordens. O grau de S::I:: do Martinismo é fixado ao equivalente ao de “Comendador” da Ordem do Lis (4o grau). Os reencontros deram lugar a numerosas trocas. Jean Chaboseau estudou com atenção os escritos de D. P. Sémèlas e mais particularmente um estudo sobre o Tarot, cujos alguns elementos serão utilizados em seu livro sobre este tema (28). Dupré confia a Jean Chaboseau a intuição de D. P. Sémèlas concernente a origem das idéias de Martines e de Saint-Martin encontrarem-se na Ordem dos Soberanos Desconhecidos. 

Jean Chaboseau acaba seduzido pela hipótese. Infelizmente, ele a resumirá muito desastradamente em um pequeno texto que será publicado em 1946 no livro de Robert Ambelain (29). Transformando a Ordem dos “Soberanos Desconhecidos” em “Filósofos Desconhecidos” e estabelecendo uma filiação através da “Sociedade dos Filósofos Desconhecidos” do Cosmopolita, de Jacob Boehme e Rodolphe Salzmann dos quais, aparentemente, Sémèlas e Dupré não teriam falado. G. Lagréze, por sua vez, transmite esta versão à Ralph Maxwell Lewis que a transcreverá no “Rosicrucian Digest” em 1940 (30). 

Mais tarde, em 1955, no No 2 da revista “L’Initiation”, Jean Chaboseau emendará seu texto, em uma versão mais próxima daquela de D. P. Sémèlas que liga as origens do Martinismo ao Imperador Constantino. Esta lenda, tanto como a do “Agente Desconhecido” imaginado por Papus, terá infelizmente longa duração e até pouco tempo, muitos martinistas ainda lhe davam crédito (31).

A  F.U.D.O S.I

Os projetos comuns da OMT e da Ordem do Lis e da Águia permaneceram infelizmente sem aplicação pois as duas Ordens entraram “oficialmente” em inatividade devido as perseguições do governo de Vichy.

Eugéne Dupré desapareceu durante um bombardeio, em 12 de junho de 1944 em Epernon. Algum tempo mais tarde, foi Auguste Chaboseau quem faleceu em 2 de janeiro de 1946. Em fevereiro de 1936, a FUDOSI teria adotado os rituais de Selaït-há, como “rituais universais das lojas e círculos martinistas” (32). Dupré, apesar de solicitado, recusou participar das atividades da FUDOSI que julgava pouco séria. Portanto, após a guerra, quando de sua Convenção secreta de 22 de julho de 1946, a FUDOSI lhe rendeu homenagem, qualificando-o de um nome que jamais usou: “Sâr Lilium”.

Como podemos constatar, Démétrius Platão Sémèlas (Selaït-há, Déon) e Eugène Dupré (Adj’Amr) foram dois servidores devotados do Martinismo. Seu papel na evolução do Martinismo de 1912 à 1944 está longe de ser negligenciavel. Sem por isto subscrever todas suas inovações, devemos render homenagem a estes dois homens que permitiram o reencontro do Pentáculo e do Lis.
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***  Traduzido por Peseudo-Sedir da revista “Le Pantacle” No 4, janeiro de 1996.

Notas:

1) Os documentos sobre o Martinismo no Egito estão classificados no dossiê ms 5490-34, do “fundos Papus” da Biblioteca Municipal de Lyon. Durante este artigo esta referencia será assinalada pela abreviatura F. P.BML.

2) Carta de A Souter à Papus, F. P.BML., ms 5490-34-1 e 5490-34-2.

3) Carta de J. Costet, F. P.BML. 5490-33-6.

4) Carta de Sémèlas à Papus, F. P.BML. ms 5486-9.

5) “L’Initiation”, julho de 1911, p. 25, reproduz um discurso pronunciado por Selaït-há.

6) Carta de junho de 1911 à Papus, F. P.BML., ms 5486-9

7) Segundo este relatório (F. P.BML., ms 5486-9), D. Verzato pedia 78F para a iniciação ao 1o grau, 28F para o 2o e 3º . O certificado de iniciação seria vendido a 12F e todo documento que tivesse o selo da Loja-Mãe “Hermes” seria taxado em 3F ( a titulo de comparação, precisamos que a assinatura anual da revista “L’Initiation” custava nesta época 12F). N. do T. : hoje esta assinatura esta em torno de 250F.

8) Carta de Lagréze à Papus, F. P.BML., ms 5488-125.

9) Ver F. P.BML., ms 5488-125.

10) Ver carta de Papus de 14/10/1911, F. P.BML., ms 5488-125.

11) Ver “Eon”, 3-4 de julho-agosto de 1923; 7-8 de nov.-dez. de 1923; 9-11 de jan.-març. De 1924; 12-14 de abr. – jun. de 1924; 15-16 de jul.-ag. De 1924; 17-18 de set.-out. de 1924.

12) Os dirigentes de uma Loja na época de Papus recebiam o título de “Filósofo Desconhecido”, Ver a carta de Georges Lagréze, F. P.BML., ms 5488-125-1.

13) Sobre este ponto, ver a revista, “L’Initiation”, no 7 de abril de 1912.

14) Robert Ambelain julgará diversamente Sémèlas em suas obras. F. P.BML., Ver “Le Martinisme contemporain et ses véritables origenes”, pp. 13. Em “Les Templiers et les Rose-Crix, pp. 64 precisará: “antes de 1916, dois homens somente a possuíam na França, Lagréze, que recebeu no Cairo e Papus, à quem ele transmitiu [...], Ver também, “Le Sacramentaire des Rose-Crix”, pp. 16.

15) Anunciado na “L’Initiation” no 8, maio de 1911, p. 178. Apresentado como escrito segundo os “arquivos secretos da Ordem, os cadernos de Papus e as fórmulas ritualisticas de Sedir”, foram estabelecidas pelo Dr. Blitz, afastado da Ordem em 1902. Estes rituais muitos maçônicos foram recusados por vários martinistas, inclusive A Chaboseau.

16) Ver carta de Sémèlas à Papus de 14 de maio de 1912, F. P.BML., ms 5486-9.

17) Ver carta de Sémèlas à Papus de 14 de maio de 1912, F. P.BML., ms 5486-9.

18) “L’Initiation”, No 7 , abril de 1912.

19) Carta de 26 de abril de 1912, F. P.BML., ms 5486-9.

20) Carta não datada, F. P.BML., ms 5486-9.

21) Carta de 13 de junho de 1912, F. P.BML., ms 5489-9.

22) Carta de 1o de novembro de 1913, F. P.BML., ms 5486-9.

23) Carta de 13 agosto de 1914, F. P.BML., ms 5486-9.

24) Sémèlas recebeu em 7 de setembro de 1916, uma carta (No xsmls/23) assinada por Papus. Ver carta à Papus de 11 de setembro (?),F. P.BML., ms 5486-9.

25) Carta à Papus de 25 de setembro de 1916, F. P.BML., ms 5486-9.

26) Sobre este ponto ver “Pentáculo” No 1, “O Agente Incógnito”, AMORC.

27) Somente os teoremas 1 à 28, concernente aos sete primeiros capítulos foram publicados, ver “Eon” No 1 à 20.

28) “Le Tarot, essai d’interptétation selon les principes de l’hermétisme”, Paris, 1946, Niclaus.

29) “Le Martinisme”, pp 97 e 172-174. Este tema foi retomado em “Le Martinisme contemporain et ses véritables origenes”, pp. 9 à 13.

30) “Rosicrucian Digest”, fevereiro de 1940, vol. XVIII, No 1, pp. 27.

31) Sobre este tema ver o estudo de Robert Amadou “Le Philosophe Inconnu et les Philosophes inconnus”, les cahiers de la Tour de Saint-Jacques, No VII, 1961, pp. 65

32) Carta de Jean Mallinger à H. Spencer Lewis de 16/02/1936.

sábado, 12 de março de 2016

SÉMÈLAS, PAPUS E OS “IRMÃOS DO ORIENTE”

                               
SÉMÈLAS, PAPUS E OS “IRMÃOS DO ORIENTE”
   

                                                  Por Serge Caillet

Os leitores do “L’Esprit des Choses” já conhecem de Dimitri Platão Sémèlas o ritual de recepção de um iniciador livre da Ordem Martinista, publicado aqui mesmo em fac-símile (1) e talvez o tenha reencontrado em Pierre Geyraud, no capítulo de suas “Petites Églises de Paris”, consagrado à “Ordem do Lis e da Águia” (2). A história da própria sociedade, cuja finalidades Geyraud conta a sua maneira , merece um verdadeiro estudo, incluindo seus prolongamentos contemporâneos (3). Mas, por hora, a “Ordem do Lis e da Águia” somente nos interessa através de seu curioso fundador. Nosso interesse incidirá na carreira de Sémèlas na Ordem Martinista, e aos “Irmão do Oriente” ( Frérés d’Orient) do qual se fez o porta-voz junto de Papus.


DIMITRI SÉMÈLAS

A lenda dos ‘Irmão do Oriente’, escreveria Robert Ambelain em 1948, “foi divulgada por um S:: I:: de boa fé, de nome Dupré, que a conhecia por meio de uma tradição verbal de um outro S:: I:: de origem grega chamado Sémèlas. De onde a tirou Sémèlas, nós ignoramos”(4). Em todo o caso chegamos ao coração da questão.

Geyraud nada mais teria feito que sobrevoar a bibliografia de Sémèlas. Comecemos por resumir, sem poder, entretanto confirmar, os elementos contidos na mesma. Nascido no Egito em 1883, Dimitri Platão Sémèlas fez seus estudos de medicina na Universidade de Atenas, começando a praticar o ocultismo, sob a condução de um irmão cujo nome desconhecemos. Retornando ao Egito, Sémèlas se casou e deu vida à um filho chamado Platão. Em 1909, no Cairo, encontra o casal Dupré, Eugéne, funcionário francês à serviço do governo do Egito, e sua esposa Marie. Os três fundaram em 1914 a curiosa “Ordem do Lis e da Águia”.


SÉMÈLAS MARTINISTA

A partir de 1911, nossa informação será de primeira mão, graças ao dossiê de correspondência “Egito” do fundo Papus (5) que compreende as cartas e as memórias de Sémèlas ao Dr. Gerard Encausse, de grande interesse para nosso assunto.

Em 10 de janeiro de 1911 tivemos o pedido de admissão de Sémèlas a O::M:: apresentado a Papus, com algumas linhas de recomendação da mão de um certo Edward Troula. Desde 12 de janeiro, o próprio Sémèlas formula seu pedido em uma carta à Papus que, a 20 de janeiro, foi – lhe respondida por seu secretário para dirigir-se ao Dr. Verzato , então presidente da “Loja-Mãe Hermes” , e delegado da O:: M:: no Egito. Sua iniciação somente serviu de porta de entrada na Ordem, pois, em 7 de junho de 1911, Sémèlas estava feliz ao anunciar à Papus que já era um livre iniciador.

Alguns meses mais tarde, em novembro de 1911, quando Georges Lagréze (6), inspetor principal da Ordem Martinista, chega ao Cairo, Sémèlas presidia a Loja “Templo do Essênio”. Lagréze, que havia obtido o endereço de Sémèlas através de Papus, logo o encontrou, e durante alguns meses trabalharam juntos na propagação do Martinismo no Egito, após terem isolado o irmão Verzato, julgado desonesto.

Em 30 de janeiro de 1912, foi Lagréze quem apresentou à Papus um novo pedido de Sémèlas: “O irmão Sémèlas desejaria ser admitido na Ordem Cabalista da Rosa-Cruz. Poderias dar-lhe as informações necessárias ? Resposta de Papus em nota, à atenção de seu secretário: “são necessários pelo menos 5 anos de Martinismo. Há condições especiais”. Ora, Sémèlas estava longe dos cinco anos requisitados. Lagréze continua: “o irmão Sémèlas prossegue com suas conferências e atualmente trata da parte elementar do astral. Ele vos envia os exemplares. Seguramente este irmão seria um excelente membro da Ordem Cabalística – este diz ainda que não conhece a constituição e os regulamentos da ordem, este irmão “viajou” ultimamente à Paris astralmente e assistiu diferentes reuniões das lojas Martinistas das quais nos forneceu interessantes relatórios.” (7)

OS IRMÃO DO ORIENTE

De nosso viajante astral , leiamos a presente em seu sentido total, e em seu francês hesitante, esta carta à Papus, de 14 de março de 1912, que nos introduz nos arcanos dos “Irmãos do Oriente”.
“ Querido Mestre,

A explicação sobre meu pedido, em uma carta precedente, que enviou, me interessou assim vivamente. As assinaturas místicas que vos colocastes em baixo de sua carta me permitiram de ver que vós vos encontras na verdadeira e única via da tradição venerada dos ”
Em baixo encontrarás anexado uma cópia de um arcano sobre qual a minha Alma e o meu espírito apreciam, meditar e sonhar, com a vista deste arcano meu ser se enche de alegria, acredito que ao vos enviá-lo tenhas as mesmas sensações à sua vista, e serás tão feliz quanto eu, e ficarei muito feliz querido Mestre se me enviasse sua opinião de iniciado sobre o valor filosófico e histórico deste arcano. Espero suas resposta caro Mestre, e saúdo-o fraternalmente. Seu Irmão na 


Sémèlas”
.
“Post scriptum: Não encontras uma analogia entre os seis pontos da O:: M:: : : e o Crisma ( desenho acima). Esta analogia dos seis pontos, entre o labarum e o hexagrama e a Águia de duas cabeças [desenho da águia] , não vos revelam um grande segredo caro Mestre? Que este parágrafo seja secreto entre eu e você, porque caro mestre a responsabilidade de desvelar arcanos parecidos é enorme se esta carta cair em mãos profanas”.

O arcano do qual Sémèlas temia a divulgação seria um selo, reproduzido em branco sobre um suporte de estrela azul, portando nas costas a seguinte menção manuscrita “ Enviado ao F:: Papus pelo F:: Sémèlas em 15 de março de 1912, após ordem dos M::. Segue um curioso desenho:

Quanto ao selo, hei-lo:


Não sei, infelizmente, o que Papus respondeu a seu generoso correspondente. Sem dúvida nada de mais, por que este retornou ao assunto em 26 de abril de 1912, no post scriptum “privado” de uma nova carta, onde pediria à Papus que não mostrasse à seu secretário. Desta vez a questão está clara:

“PS privado: Serei indiscreto caro Mestre em pergunta-lhe por que colocastes o labarum do Sr. Constantino sobre o frontispício das cartas?

“Meu Mestre que vi e que me ensinou a maneira de sauda-lo, me falou muito deste símbolo. Seria indiscreto em perguntar se és um dos nossos? Há quatro anos sou portador deste símbolo sobre meu ventre. Foi meu Mestre quem me forneceu [...] Depois não encontrei mais meu Mestre. Reverencio sua memória e seus ensinamentos. Se tu és um dos nossos, me consolarei falando-lhe sobre os perfumes deliciosos da Rosa e o mistério escondido no selo da Cruz.”.

Em 1908, Sémèlas recebeu portanto de seu Mestre a Iniciação dos “Irmãos do Oriente”, e os símbolos que depois descobriria estampados nas cartas da O:: M::. Mas Papus não pertencia aos “Irmãos do Oriente”. Pois, segundo Lagréze, ressaltado por Robert Ambelain , este último teria recebido este despojo, das mãos do próprio Lagréze, que o recebeu de Sémèlas, por volta de 1914. Neste mesmo ano Sémèlas troca o Egito pela França e é de Paris que endereça à Papus uma nova carta datada de 1916 em plena Grande Guerra.

“ [...] em minha qualidade de

do Oriente do qual desde o último mês de agosto assumi o grande mestrado provisório, até o fim das hostilidades, desejaria ter seu diploma de Mestre Rosa-Cruz Cabalístico, Dr. em Cabala, o que me permitiria de passá-lo a doutrina de nossa Ordem fundada por Constantino o Grande, se desejas se iniciar em nossas práticas que consistem na exteriorização no astral integral e no mental consciente. Espero minhas patentes do Conselho Soberano da Ordem para qual fui nomeado grande mestre provisório, o que me permitiu então de falar com você de uma afiliação à Ordem esotérica que é composta de 72 membros, e a exotérica (ou política) composta de 60 outros membros.”

Infelizmente, Papus deixará seu fatigado corpo, aproximadamente um mês após esta carta de Sémèlas. O que teria lhe respondido Papus? Não sei. Mas ele outorgava-lhe muita confiança para lhe ter entregue, em 1914, uma negociação visando uma aproximação entre a O:: M:: e a Grande Loja Nacional Independente e Regular, que trabalharia com o “Rito Escocês Retificado”. Foi em 1914 também, lembramos, que Sémèlas fundou em Paris a “Ordem do Lis e da Águia”, juntamente com Eugène e Marie Dupré.

Em que consiste esta “Ordem dos Irmãos do Oriente”, da qual Sémèlas teria inicialmente acreditado

que Papus pertenceria , antes de propor sua entrada e apresentação, em 1916, como grande mestre provisório designado por um Conselho Soberano do qual nada sabemos? Robert Ambelain escreveria em 1948 : “Tudo nos leva a crer que Sémèlas seria agente de uma potência política e que os misteriosos “Irmãos do Oriente” foram tirados do esquecimento (ou imaginados) para fins bem .......... temporais”(8). E lembramos que esta é também a opinião de Jean Bricaud. Entretanto, Sémèlas realmente se preocupava muito com o ocultismo, conforme visto, e com o Martinismo. “É um iniciado de grande valor” escreveria Lagréze à Papus, em 1911. Concluo ao menos que Sémèlas cultivava um real desejo de iniciação, mesmo assim sendo – este não seria o caso único ! – as ciências ocultas teriam lhe desviado um pouco a cabeça. Talvez tenha sido manipulado, mas então com qual finalidade e por quem? No caso, a prudência se impõe. Em sua primeira carta à Papus, Sémèlas escreveria: “ Em colaboração de um dos meus amigos, Mr. Jean Mégalophonos, me ocupo há 10 anos das ciências ocultas”. Seria este o Mestre de Sémèlas?


Quanto aos “Irmãos do Oriente”, parece difícil saber o que provêm da imaginação de Sémèlas, e o que se liga a fatos ou lendas anteriores das quais nada mais teria feito que divulgar. (9).

Em todo caso Sémèlas não inventou os “Irmãos do Oriente”. Usaremos para este propósito Jacques- Etienne Marconis de Négre, um século antes dele: “A Ordem do Templo é cosmopolita; é dividida em duas grandes classes ditas: 1a a Ordem do Templo; 2a a Ordem do Oriente.

“A Ordem do Oriente – continua Marconis - deu nascimento à Ordem do Templo, e, por sua vez, tornou-se uma dependência desta; é no antigo Egito onde encontramos o berço da Ordem do Oriente.”

“ Os mistérios e a ordem hierárquica da iniciação do Egito foram conservadas sem alterações pelos FF:: do Oriente [...]”(10)

Mais adiante, Marconis faz alusão ao passar pelo “sistema dos Rosa-Cruzes do Oriente” instituído por Rosenkreutz.....Já que estamos em plena mitologia, seria tempo, de fato do aparecimento dos Rosa-Cruzes.


ROSA-CRUZ DO ORIENTE

Para Robert Ambelain, não haveria ligação entre os “Irmãos do Oriente” e a Rosa-Cruz do mesmo nome (11).

Portanto quando evoca “ os perfumes deliciosos da Rosa e o mistério escondido sob o selo da Cruz” e quando acredita revelar qualquer liame misteriosos entre sua filiação e a O:: M:: de Papus, Sémèlas nos encoraja à acreditar em um parentesco, ou mesmo uma identidade, entre os “Irmãos do Oriente” e a filiação dita da “Rosa-Cruz do Oriente” do qual Robert Ambelain revelou a existência em 1955. (12)

Desta última afiliação, há pouco abrimos o dossiê, relativo a Georges Lagréze, que teria recebido no Cairo em 1912, antes de transmiti-lo à Papus por volta de 1914, e a Robert Ambelain por volta de 1945 (13). Todavia, de uma iniciação da “Rosa-Cruz do Oriente”, Papus não disse uma palavra, e sua correspondência com Lagréze não deixa entendermos nada a esse respeito. Mas nenhuma razão há para supor que Lagréze apenas se gabava, nem para acreditarmos que não teria procurado beneficiar Papus de algum tesouro iniciático recolhido no Egito, como beneficiou mais tarde Robert Ambelain, segundo seu próprio testemunho (14), e sem dúvida alguma alguns outros companheiros.

“ Esta filiação – escreve Ambelain – vêm do Oriente (sem dúvida mais simplesmente da Síria e da Armênia), pela Grécia, se acreditamos em nossas próprias pesquisas e verificações pessoais, apoiados sobre documentos que podemos consultar à título confidencial e que nos foram confiados por um deles, Mikaël in ordine”(15). Mikaël , Lagréze, quem, em 1945, remeteu à Robert Ambelain “um esquema alquimico, uma breve explicação oral, e a iniciação que iria de par com o todo” (16). Foi Lagréze quem lhe transmitiu também o caderno do discípulo, redigido em grego, traduzido por Ambelain, cuja maior parte publicado com o título Sacramentário dos Rosa-Cruzes (17), enquanto remeteu à um pequeno e restrito círculo de irmãos certas orações e fórmulas mais ocultas. “Contamos nos dedos de uma mão – nos confidenciaria Ambelain em 1983 – àqueles à quem, em 35 anos, havíamos transmitido a Rosa-Cruz do Oriente” (18).

Portanto, parece bem que, em Sémèlas, primeiro detentor perfeitamente identificado, a filiação dos “Irmãos do Oriente” e a da Rosa-Cruz do mesmo nome formavam uma unidade. Esta filiação ritual foi propagada, desde Papus, entre os responsáveis pelos diferentes ramos Martinistas. O que não surpreendente, de fato, quando sabemos que Sémèlas já suspeitava que entre seu legado e o de Papus havia um grande parentesco, a ponto deste ter tomado a liberdade de inserir o símbolo maior dos Rosa-Cruzes do Oriente em seu ritual Martinista onde , ao fim da cerimônia de recepção o iniciador levanta diante dos olhos do novo iniciado o véu, que, no fundo do templo, esconde “o laborum de Constantino sobreposto da águia de duas cabeças e asas depenadas (19)?

                                                                             TRADUÇÃO: PSEUDO-SEDIR
                

Túmulo de Dea e Deon (Marie e Semélas)

NOTAS:

1. “l’Esprit des Choses”, no 1, inverno, 1991, pp. 35 – 42
2. Paris, edt Emile-Paul Frérés, ?, pp 194-209. Em 1938, Geyraud retornou ao tema em seu capítulo sobre “Um casamento Místico na Ordem do Lis e da Águia”, Les Sociètes secrétes de Paris, edt Emile-Paul Frérés, 1938, pp 153-155.
3. Veja o capítulo que o consagramos na edição de nosso “Sâr Hieronymus et la FUDOSI,” com o título Les Sârs de la Rose-Croix.
4. Le Martinisme contemporain et ses veritables origines, Paris, Les cahiers de Destin, 1948, pp ?
5. Biblioteca municipal de Lyon, ms 6.486
6. In Serge Caillet , “Queteur de l’invisible le flanc-maçon, martiniste et rosacrucien exemplaire: Georges Lagréze, L’Initiation, abril-junho, 1989.
7. Correspondência: Lagreze-Papus, fundos Papus. BML.
8. Le Martinisme Contemporain
9. Um resumo desta lenda nos é fornecido por Robert Amadou: “Martinisme”, 2a edição, revista e aumentada, Chastel-Arnaud, Instituto Eleazar, 1993, p. 47.
10. La Ruche maçonnique.... p. 21
11. Templiers et rose-croix, documents pour servir à l’histoire de l’iluminisme, Paris.
12. Ambelain, op. cit.
13. Ver nosso artigo sobre Lagréze: L’Initiation, op. ict.
14. “ Si, por uma feliz coincidência, a O:: M:: e os Elus Coen entraram em possessão de documentos autênticos e manuscritos do décimo oitavo século em 1955 [...] foi dez anos antes que a técnica da “via interior” [...] nos havia sido transmitida com uma última iniciação” In Robert, Ambelain, L’Alchimie spirituele, technique de la voie intèrieure, Paris, Diffusion Scientifique, 1961, p 130.
15. Templeriers et rose-croix, op. cit, p. 64.
16. L’Alchimie spirituele, op. cit., p 18
17. Paris, Diffusion Scientifique, 1964
18. Carta à S. C., sem data.
19. “L’Esprit des choses”, no 1, op. cit.



quinta-feira, 3 de março de 2016

NOTAS ESPARSAS SOBRE ZANONI DE BULWER LYTTON



        NOTAS ESPARSAS SOBRE ZANONI DE BULWER LYTTON
                                                                Por Pseudo-Sedir
                                                 “Na escala do cosmos só o fantástico tem condição
                                                                                                de ser verdadeiro.”
                                                                                                                                                                                                                       Teilhard de Chardin

Zanoni é um dos livros mais enigmáticos do mundo iniciático, um romance rosacruziano repleto de mistérios e revelações sobre Seres, trabalhos ocultos e Ordens milenares, ainda ativas e atuando eficientemente para a evolução de seus membros e da humanidade como um todo.

Mas, o que poucos sabem, é que o romance foi inspirado em antiquíssimas Ordens Iniciáticas históricas e personagens também reais. A R+C seria apenas uma cortina de fumaça para despistar os curiosos e profanadores.

Segundo pesquisas, feitas por místicos europeus, há dois candidatos para ser o inspirador do Zanoni: Francesco e Giacomo. Um dos dois, inclusive, fazia generosas doações para a Igreja de Sévres, como consta seu livro de recebimentos.

1. Francesco Zanoni

Francesco Zanoni, pintor hermético da Renascença. Infelizmente, são poucas as informações sobre sua vida. A restauração das pinturas do Palazzo de Pádua foi sua obra mais notória.


No “Palazzo dela Ragione” (Palácio da razão - Pádua, Itália) temos as 360 imagens do zodíaco pintadas por Giotto. Estas figuras foram baseadas no “Tratado de Astrologia” do mago Pietro d´Abano. Em 1420 o Palácio sofreu um incêndio que danificou severamente as imagens de Gioto. Francesco Zanoni refez todas as pinturas, devolvendo sua vivacidade e esplendor.


2. Giacomo Zanoni (1615 – 1682)

Giacomo Zanoni é o mais forte candidato a ser o inspirador de Bulwer Lytton. Viveu no século XVI, na Bolonha, Itália, e era botânico (como o personagem do livro) e, comprovadamente, viajou por vários países, incluindo os orientais.

Como também era herborista, consegue do Senado a autorização para cavar uma cripta onde fabricava remédios, este local, por séculos, foi conhecido como a “Farmacia degli Zanoni”.


Giacomo publicou um famoso tratado de botânica, que ano passado estava sendo oferecido ao preço de 3.800,00 euros!!!





Neste livro Giacomo Zanoni, entre outras curiosidades, descreve uma flor em forma de pássaro, totalmente desconhecida no ocidente à época do livro, o que acabou acarretando a zombaria dos cientistas europeus:





Anos depois a flor foi encontrada no Oriente:





Há inúmeros outros mistérios velados no corpo deste romance. Nada encontramos que se assemelhe a fantasias ou invenções do autor, cuja vida pessoal é encoberta de mistérios e lacunas. Estas pequenas revelações, feitas ao longo da Obra, nos situam em nossa insignificância diante do Cosmo, e propiciam inúmeras questões e perguntas, demonstrando o quanto nada sabemos sobre a vida oculta das Ordens, de seus grandes Iniciados e dos mistérios da Vida.

Bulwer Lytton

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

A Aridez (ou Secura)

                                 A Aridez (ou Secura)**
                                                        Por Paul Sedir

Eis algumas notas rápidas sobre um dos estados d’alma mais doloroso reservado aos místicos em sua caminhada.  Eles podem ser úteis uma vez que todo mundo ressente, por intervalos, de apatia e desgosto. 

Disse Jesus: “É de vosso interesse que eu parta...” (João, 16:7). Efetivamente, se nossa natureza ama as doçuras espirituais, é preciso aprender, como disse M. Hamon, a amar o Deus das consolações mais que as consolações de Deus. O que é sensível na vida interior é o regozijo das partes de nosso espírito das quais somos conscientes. Pois, nós só temos consciência daquelas regiões psíquicas que nosso trabalho interior evoluiu. Para crescer, nossa consciência deve entrar na imensidão de nosso inconsciente. Neste ponto, a sensitividade interior não funciona mais. De lá vem a sensação de aridez – mas é preciso saber que  este estado  é  o sinal de  que Deus esta agindo em nós profundamente. Quando sentimos sua ação, é que Ele está operando nas partes externas de nosso espírito. A secura é, portanto, um estado muito invejável e frutuoso.

Quando o dever perde seu charme e a prece seu atrativo, isto vem ou de uma direção particular de Deus ou da constância de nossa tibieza ordinária.

A aridez possui três qualidades:

1. A alma calorosa geme, esmorece, se humilha, e gostaria de abraçar o universo; mas ela permanece impotente.  A alma tíbia não percebe nem mesmo a sua aridez.

2. A alma calorosa está em crise. Ela pensa no mal que fez apesar de seus esforços, e no bem que ela não fez. Ela se compara aos seus irmãos, acredita estar atrasada e queima no imenso desejo de melhorar. A alma tíbia encontra-se bem como está e julga-se melhor que as outras.

3. A alma calorosa não negligencia, malgrado tudo, nenhum dever.  Ela se esforça energeticamente para cumprir tudo, apesar da dor e da insipidez.   A alma tíbia negligencia, e desbarata-se de seus deveres.

Como se comportar neste estado:

1. Se ele provém de nossa tibieza, é necessário sair, custe o que custar, por um esforço sistemático e obstinado;

2. Se ele provém de uma provação, “dê os ombros” e resigne-se com calma; nossa sede de evoluir será a melhor das preces.

3. Por fim, e de uma maneira geral, cuide-se para não cair da secura para a tibieza. O que seria um recuo muito triste e um estado bem perigoso.

Entre as causas de nossa aridez podemos observar duas principais:

Primeiro, a tibieza habitual, engendrada pelas paixões, a curiosidade, os desejos vãos, a negligência. Depois a falta de atenção aos minutos de fervor que a bondade de Deus nos diligencia.

Para prevenir a aridez é preciso:

1. O recolhimento, a manutenção do doce sentimento da presença divina;
2. As pequenas mortificações morais: estes são os grãos de sal sobre o fogo agonizante de nosso fervor.

Para lutar contra a aridez empregue os seguintes procedimentos:

1. Não deixe entrar em si o desencorajamento. Deus tem todos os direitos sobre nós. Temos muito a pagar.  Temos uma obra magnífica a cumprir: ajudar o Cristo em seu trabalho;

2. Recusar os pensamentos de dúvida e de inquietude. Deus é bom e todos os Santos sofreram terríveis securas. Nós seremos todos salvos.

Como se conduzir na aridez:

1. Não omitir nenhuma de nossas preces habituais, embora estejam insípidas;

2.  Guarde, com uma vontade forte, a convicção que Jésus está conosco e ao nosso lado.
As vantagens da aridez são:

De ser uma excelente escola de sólidas virtudes; de reduzir o amor próprio, de aumentar a humildade diante de Deus e diante dos homens; de fazer crescer o amor de Deus, pois ao purificar nossos sentimentos, eles os incitam, nos exaltam acima de toda dor humana.

*         *          *
Eis de perto todos os pontos suscetíveis de servir de tema às meditações daqueles que estão bastante familiarizados com o trabalho psíquico para poder aprofundar e organizar todas estas informações.

Tomemos em cada dia de provação uma destas frases, e pensemos nela nos minutos de folga entre nossas ocupações diárias. Estas lembranças ininterruptas acabarão por si mesmo em fazer retornar o vigor à nossa vontade e de ser o élan do nosso coração.

Eis alguns detalhes suplementares que ajudarão a determinar o estado de aridez. Quando conhecemos nosso mal podemos melhor suportá-lo, pelo menos para os caracteres reflexivos e viris.

A secura é uma prova interior que Deus nos envia ou permite como faz com as provas exteriores: as doenças, os  ataques demoníacos visíveis, etc.

Examinando as relações dos místicos encontramos doze variedades de aflições interiores:

1. As tentações;
2. A impotência aparente de cumprir um ato benfeitor qualquer;
3. A visão aguda de nosso estado de corrupção moral;
4. A sensação aguda de estar só entre os homens;
5.  O aborrecimento e uma imensa tristeza;
6. A sede de Deus;
7. O terror de ser abandonado por Deus e que Ele não nos ajude mais;
8. A certeza de estar condenado;
9. Do ressentimento contra Deus;
10. Dos escrúpulos despropositados e desatinados;
11. Das distrações invencíveis;
12. A aridez ou secura.

No momento, nos interessa, as aflições nos 2, 3, 5, e talvez 11 e 12, se permitimos de empregar para o místico este estilo de contabilidade.

Eis para cada um destes cinco artigos algumas máximas que contemplaremos (e não meditaremos) sistematicamente, em todos os momentos livres do dia, sem preocupação com os possíveis resultados desta contemplação.

·         Contra a impotência ao bem: somente possuímos verdadeira e divinamente as virtudes na medida em  que ignoramos que as possuímos. – “Console-te; tu não me procurarias, se tu não já tivesses me encontrado”, disse J. C. pela pluma de Pascal.

·         Contra o desgosto fatigado de nós-mesmos. É, ao contrário, uma boa coisa ser severo para consigo.

·         Contra a impotência ao ato benfeitor: abandonar-se a Deus, deve ser nosso desejo sincero. É então que isto que nós acreditamos ser o bem seria atemporal. Alhures, esta própria espera é, em certo plano, um trabalho ativo.

·         Contra as distrações: evitar os sonhos agitados e as palavras vãs. 

·         Contra a aridez, a mais comum de todas estas provas: Na aridez, não chegamos, apesar de todos os esforços, a nenhum fervor; e este ainda é seguido de desgosto. Para prevenir este estado, é necessário manter a vida ocupada, preparar-se para a prece pela meditação, onde encontramos um pouco da relação do particular com o geral. Mas mesmo assim não se estafar, a fim de evitar o esgotamento nervoso.

Santa Teresa dizia que há vantagem em mudar, de vez em quando, a hora da oração e, às vezes, dividir a oração em vários momentos, com meia ou uma hora de intervalo: por exemplo, cada vez que o relógio bater (Vide VI). Ainda, podemos anotar um belo pensamento vindo durante esta oração tão insípida. A vantagem desta provação é de nos fazer descer à humildade. 

O melhor remédio é “de se apresentar diante de Deus como um pequeno pobre, pedindo-lhe muito humildemente uma esmola” (Santo Philippe de Néri, Vide, Bolland, 26 maio). É preciso, e isto para todos os nossos sofrimentos, em pedir a Deus o alívio e, ao mesmo tempo, estar feliz se Deus não nos concedê-lo.  Esta regra é muito importante. Por fim, para concluir, é bem verdade que todos estes sofrimentos da alma, sejam quais forem sua origem e sua natureza, nos proporcionam os maiores avanços.

  ** Extraído e traduzido por Pseudo-Sedir da revista Psyché , Paris, 1913