sábado, 12 de março de 2016

SÉMÈLAS, PAPUS E OS “IRMÃOS DO ORIENTE”

                               
SÉMÈLAS, PAPUS E OS “IRMÃOS DO ORIENTE”
   

                                                  Por Serge Caillet

Os leitores do “L’Esprit des Choses” já conhecem de Dimitri Platão Sémèlas o ritual de recepção de um iniciador livre da Ordem Martinista, publicado aqui mesmo em fac-símile (1) e talvez o tenha reencontrado em Pierre Geyraud, no capítulo de suas “Petites Églises de Paris”, consagrado à “Ordem do Lis e da Águia” (2). A história da própria sociedade, cuja finalidades Geyraud conta a sua maneira , merece um verdadeiro estudo, incluindo seus prolongamentos contemporâneos (3). Mas, por hora, a “Ordem do Lis e da Águia” somente nos interessa através de seu curioso fundador. Nosso interesse incidirá na carreira de Sémèlas na Ordem Martinista, e aos “Irmão do Oriente” ( Frérés d’Orient) do qual se fez o porta-voz junto de Papus.


DIMITRI SÉMÈLAS

A lenda dos ‘Irmão do Oriente’, escreveria Robert Ambelain em 1948, “foi divulgada por um S:: I:: de boa fé, de nome Dupré, que a conhecia por meio de uma tradição verbal de um outro S:: I:: de origem grega chamado Sémèlas. De onde a tirou Sémèlas, nós ignoramos”(4). Em todo o caso chegamos ao coração da questão.

Geyraud nada mais teria feito que sobrevoar a bibliografia de Sémèlas. Comecemos por resumir, sem poder, entretanto confirmar, os elementos contidos na mesma. Nascido no Egito em 1883, Dimitri Platão Sémèlas fez seus estudos de medicina na Universidade de Atenas, começando a praticar o ocultismo, sob a condução de um irmão cujo nome desconhecemos. Retornando ao Egito, Sémèlas se casou e deu vida à um filho chamado Platão. Em 1909, no Cairo, encontra o casal Dupré, Eugéne, funcionário francês à serviço do governo do Egito, e sua esposa Marie. Os três fundaram em 1914 a curiosa “Ordem do Lis e da Águia”.


SÉMÈLAS MARTINISTA

A partir de 1911, nossa informação será de primeira mão, graças ao dossiê de correspondência “Egito” do fundo Papus (5) que compreende as cartas e as memórias de Sémèlas ao Dr. Gerard Encausse, de grande interesse para nosso assunto.

Em 10 de janeiro de 1911 tivemos o pedido de admissão de Sémèlas a O::M:: apresentado a Papus, com algumas linhas de recomendação da mão de um certo Edward Troula. Desde 12 de janeiro, o próprio Sémèlas formula seu pedido em uma carta à Papus que, a 20 de janeiro, foi – lhe respondida por seu secretário para dirigir-se ao Dr. Verzato , então presidente da “Loja-Mãe Hermes” , e delegado da O:: M:: no Egito. Sua iniciação somente serviu de porta de entrada na Ordem, pois, em 7 de junho de 1911, Sémèlas estava feliz ao anunciar à Papus que já era um livre iniciador.

Alguns meses mais tarde, em novembro de 1911, quando Georges Lagréze (6), inspetor principal da Ordem Martinista, chega ao Cairo, Sémèlas presidia a Loja “Templo do Essênio”. Lagréze, que havia obtido o endereço de Sémèlas através de Papus, logo o encontrou, e durante alguns meses trabalharam juntos na propagação do Martinismo no Egito, após terem isolado o irmão Verzato, julgado desonesto.

Em 30 de janeiro de 1912, foi Lagréze quem apresentou à Papus um novo pedido de Sémèlas: “O irmão Sémèlas desejaria ser admitido na Ordem Cabalista da Rosa-Cruz. Poderias dar-lhe as informações necessárias ? Resposta de Papus em nota, à atenção de seu secretário: “são necessários pelo menos 5 anos de Martinismo. Há condições especiais”. Ora, Sémèlas estava longe dos cinco anos requisitados. Lagréze continua: “o irmão Sémèlas prossegue com suas conferências e atualmente trata da parte elementar do astral. Ele vos envia os exemplares. Seguramente este irmão seria um excelente membro da Ordem Cabalística – este diz ainda que não conhece a constituição e os regulamentos da ordem, este irmão “viajou” ultimamente à Paris astralmente e assistiu diferentes reuniões das lojas Martinistas das quais nos forneceu interessantes relatórios.” (7)

OS IRMÃO DO ORIENTE

De nosso viajante astral , leiamos a presente em seu sentido total, e em seu francês hesitante, esta carta à Papus, de 14 de março de 1912, que nos introduz nos arcanos dos “Irmãos do Oriente”.
“ Querido Mestre,

A explicação sobre meu pedido, em uma carta precedente, que enviou, me interessou assim vivamente. As assinaturas místicas que vos colocastes em baixo de sua carta me permitiram de ver que vós vos encontras na verdadeira e única via da tradição venerada dos ”
Em baixo encontrarás anexado uma cópia de um arcano sobre qual a minha Alma e o meu espírito apreciam, meditar e sonhar, com a vista deste arcano meu ser se enche de alegria, acredito que ao vos enviá-lo tenhas as mesmas sensações à sua vista, e serás tão feliz quanto eu, e ficarei muito feliz querido Mestre se me enviasse sua opinião de iniciado sobre o valor filosófico e histórico deste arcano. Espero suas resposta caro Mestre, e saúdo-o fraternalmente. Seu Irmão na 


Sémèlas”
.
“Post scriptum: Não encontras uma analogia entre os seis pontos da O:: M:: : : e o Crisma ( desenho acima). Esta analogia dos seis pontos, entre o labarum e o hexagrama e a Águia de duas cabeças [desenho da águia] , não vos revelam um grande segredo caro Mestre? Que este parágrafo seja secreto entre eu e você, porque caro mestre a responsabilidade de desvelar arcanos parecidos é enorme se esta carta cair em mãos profanas”.

O arcano do qual Sémèlas temia a divulgação seria um selo, reproduzido em branco sobre um suporte de estrela azul, portando nas costas a seguinte menção manuscrita “ Enviado ao F:: Papus pelo F:: Sémèlas em 15 de março de 1912, após ordem dos M::. Segue um curioso desenho:

Quanto ao selo, hei-lo:


Não sei, infelizmente, o que Papus respondeu a seu generoso correspondente. Sem dúvida nada de mais, por que este retornou ao assunto em 26 de abril de 1912, no post scriptum “privado” de uma nova carta, onde pediria à Papus que não mostrasse à seu secretário. Desta vez a questão está clara:

“PS privado: Serei indiscreto caro Mestre em pergunta-lhe por que colocastes o labarum do Sr. Constantino sobre o frontispício das cartas?

“Meu Mestre que vi e que me ensinou a maneira de sauda-lo, me falou muito deste símbolo. Seria indiscreto em perguntar se és um dos nossos? Há quatro anos sou portador deste símbolo sobre meu ventre. Foi meu Mestre quem me forneceu [...] Depois não encontrei mais meu Mestre. Reverencio sua memória e seus ensinamentos. Se tu és um dos nossos, me consolarei falando-lhe sobre os perfumes deliciosos da Rosa e o mistério escondido no selo da Cruz.”.

Em 1908, Sémèlas recebeu portanto de seu Mestre a Iniciação dos “Irmãos do Oriente”, e os símbolos que depois descobriria estampados nas cartas da O:: M::. Mas Papus não pertencia aos “Irmãos do Oriente”. Pois, segundo Lagréze, ressaltado por Robert Ambelain , este último teria recebido este despojo, das mãos do próprio Lagréze, que o recebeu de Sémèlas, por volta de 1914. Neste mesmo ano Sémèlas troca o Egito pela França e é de Paris que endereça à Papus uma nova carta datada de 1916 em plena Grande Guerra.

“ [...] em minha qualidade de

do Oriente do qual desde o último mês de agosto assumi o grande mestrado provisório, até o fim das hostilidades, desejaria ter seu diploma de Mestre Rosa-Cruz Cabalístico, Dr. em Cabala, o que me permitiria de passá-lo a doutrina de nossa Ordem fundada por Constantino o Grande, se desejas se iniciar em nossas práticas que consistem na exteriorização no astral integral e no mental consciente. Espero minhas patentes do Conselho Soberano da Ordem para qual fui nomeado grande mestre provisório, o que me permitiu então de falar com você de uma afiliação à Ordem esotérica que é composta de 72 membros, e a exotérica (ou política) composta de 60 outros membros.”

Infelizmente, Papus deixará seu fatigado corpo, aproximadamente um mês após esta carta de Sémèlas. O que teria lhe respondido Papus? Não sei. Mas ele outorgava-lhe muita confiança para lhe ter entregue, em 1914, uma negociação visando uma aproximação entre a O:: M:: e a Grande Loja Nacional Independente e Regular, que trabalharia com o “Rito Escocês Retificado”. Foi em 1914 também, lembramos, que Sémèlas fundou em Paris a “Ordem do Lis e da Águia”, juntamente com Eugène e Marie Dupré.

Em que consiste esta “Ordem dos Irmãos do Oriente”, da qual Sémèlas teria inicialmente acreditado

que Papus pertenceria , antes de propor sua entrada e apresentação, em 1916, como grande mestre provisório designado por um Conselho Soberano do qual nada sabemos? Robert Ambelain escreveria em 1948 : “Tudo nos leva a crer que Sémèlas seria agente de uma potência política e que os misteriosos “Irmãos do Oriente” foram tirados do esquecimento (ou imaginados) para fins bem .......... temporais”(8). E lembramos que esta é também a opinião de Jean Bricaud. Entretanto, Sémèlas realmente se preocupava muito com o ocultismo, conforme visto, e com o Martinismo. “É um iniciado de grande valor” escreveria Lagréze à Papus, em 1911. Concluo ao menos que Sémèlas cultivava um real desejo de iniciação, mesmo assim sendo – este não seria o caso único ! – as ciências ocultas teriam lhe desviado um pouco a cabeça. Talvez tenha sido manipulado, mas então com qual finalidade e por quem? No caso, a prudência se impõe. Em sua primeira carta à Papus, Sémèlas escreveria: “ Em colaboração de um dos meus amigos, Mr. Jean Mégalophonos, me ocupo há 10 anos das ciências ocultas”. Seria este o Mestre de Sémèlas?


Quanto aos “Irmãos do Oriente”, parece difícil saber o que provêm da imaginação de Sémèlas, e o que se liga a fatos ou lendas anteriores das quais nada mais teria feito que divulgar. (9).

Em todo caso Sémèlas não inventou os “Irmãos do Oriente”. Usaremos para este propósito Jacques- Etienne Marconis de Négre, um século antes dele: “A Ordem do Templo é cosmopolita; é dividida em duas grandes classes ditas: 1a a Ordem do Templo; 2a a Ordem do Oriente.

“A Ordem do Oriente – continua Marconis - deu nascimento à Ordem do Templo, e, por sua vez, tornou-se uma dependência desta; é no antigo Egito onde encontramos o berço da Ordem do Oriente.”

“ Os mistérios e a ordem hierárquica da iniciação do Egito foram conservadas sem alterações pelos FF:: do Oriente [...]”(10)

Mais adiante, Marconis faz alusão ao passar pelo “sistema dos Rosa-Cruzes do Oriente” instituído por Rosenkreutz.....Já que estamos em plena mitologia, seria tempo, de fato do aparecimento dos Rosa-Cruzes.


ROSA-CRUZ DO ORIENTE

Para Robert Ambelain, não haveria ligação entre os “Irmãos do Oriente” e a Rosa-Cruz do mesmo nome (11).

Portanto quando evoca “ os perfumes deliciosos da Rosa e o mistério escondido sob o selo da Cruz” e quando acredita revelar qualquer liame misteriosos entre sua filiação e a O:: M:: de Papus, Sémèlas nos encoraja à acreditar em um parentesco, ou mesmo uma identidade, entre os “Irmãos do Oriente” e a filiação dita da “Rosa-Cruz do Oriente” do qual Robert Ambelain revelou a existência em 1955. (12)

Desta última afiliação, há pouco abrimos o dossiê, relativo a Georges Lagréze, que teria recebido no Cairo em 1912, antes de transmiti-lo à Papus por volta de 1914, e a Robert Ambelain por volta de 1945 (13). Todavia, de uma iniciação da “Rosa-Cruz do Oriente”, Papus não disse uma palavra, e sua correspondência com Lagréze não deixa entendermos nada a esse respeito. Mas nenhuma razão há para supor que Lagréze apenas se gabava, nem para acreditarmos que não teria procurado beneficiar Papus de algum tesouro iniciático recolhido no Egito, como beneficiou mais tarde Robert Ambelain, segundo seu próprio testemunho (14), e sem dúvida alguma alguns outros companheiros.

“ Esta filiação – escreve Ambelain – vêm do Oriente (sem dúvida mais simplesmente da Síria e da Armênia), pela Grécia, se acreditamos em nossas próprias pesquisas e verificações pessoais, apoiados sobre documentos que podemos consultar à título confidencial e que nos foram confiados por um deles, Mikaël in ordine”(15). Mikaël , Lagréze, quem, em 1945, remeteu à Robert Ambelain “um esquema alquimico, uma breve explicação oral, e a iniciação que iria de par com o todo” (16). Foi Lagréze quem lhe transmitiu também o caderno do discípulo, redigido em grego, traduzido por Ambelain, cuja maior parte publicado com o título Sacramentário dos Rosa-Cruzes (17), enquanto remeteu à um pequeno e restrito círculo de irmãos certas orações e fórmulas mais ocultas. “Contamos nos dedos de uma mão – nos confidenciaria Ambelain em 1983 – àqueles à quem, em 35 anos, havíamos transmitido a Rosa-Cruz do Oriente” (18).

Portanto, parece bem que, em Sémèlas, primeiro detentor perfeitamente identificado, a filiação dos “Irmãos do Oriente” e a da Rosa-Cruz do mesmo nome formavam uma unidade. Esta filiação ritual foi propagada, desde Papus, entre os responsáveis pelos diferentes ramos Martinistas. O que não surpreendente, de fato, quando sabemos que Sémèlas já suspeitava que entre seu legado e o de Papus havia um grande parentesco, a ponto deste ter tomado a liberdade de inserir o símbolo maior dos Rosa-Cruzes do Oriente em seu ritual Martinista onde , ao fim da cerimônia de recepção o iniciador levanta diante dos olhos do novo iniciado o véu, que, no fundo do templo, esconde “o laborum de Constantino sobreposto da águia de duas cabeças e asas depenadas (19)?

                                                                             TRADUÇÃO: PSEUDO-SEDIR
                

Túmulo de Dea e Deon (Marie e Semélas)

NOTAS:

1. “l’Esprit des Choses”, no 1, inverno, 1991, pp. 35 – 42
2. Paris, edt Emile-Paul Frérés, ?, pp 194-209. Em 1938, Geyraud retornou ao tema em seu capítulo sobre “Um casamento Místico na Ordem do Lis e da Águia”, Les Sociètes secrétes de Paris, edt Emile-Paul Frérés, 1938, pp 153-155.
3. Veja o capítulo que o consagramos na edição de nosso “Sâr Hieronymus et la FUDOSI,” com o título Les Sârs de la Rose-Croix.
4. Le Martinisme contemporain et ses veritables origines, Paris, Les cahiers de Destin, 1948, pp ?
5. Biblioteca municipal de Lyon, ms 6.486
6. In Serge Caillet , “Queteur de l’invisible le flanc-maçon, martiniste et rosacrucien exemplaire: Georges Lagréze, L’Initiation, abril-junho, 1989.
7. Correspondência: Lagreze-Papus, fundos Papus. BML.
8. Le Martinisme Contemporain
9. Um resumo desta lenda nos é fornecido por Robert Amadou: “Martinisme”, 2a edição, revista e aumentada, Chastel-Arnaud, Instituto Eleazar, 1993, p. 47.
10. La Ruche maçonnique.... p. 21
11. Templiers et rose-croix, documents pour servir à l’histoire de l’iluminisme, Paris.
12. Ambelain, op. cit.
13. Ver nosso artigo sobre Lagréze: L’Initiation, op. ict.
14. “ Si, por uma feliz coincidência, a O:: M:: e os Elus Coen entraram em possessão de documentos autênticos e manuscritos do décimo oitavo século em 1955 [...] foi dez anos antes que a técnica da “via interior” [...] nos havia sido transmitida com uma última iniciação” In Robert, Ambelain, L’Alchimie spirituele, technique de la voie intèrieure, Paris, Diffusion Scientifique, 1961, p 130.
15. Templeriers et rose-croix, op. cit, p. 64.
16. L’Alchimie spirituele, op. cit., p 18
17. Paris, Diffusion Scientifique, 1964
18. Carta à S. C., sem data.
19. “L’Esprit des choses”, no 1, op. cit.



quinta-feira, 3 de março de 2016

NOTAS ESPARSAS SOBRE ZANONI DE BULWER LYTTON



        NOTAS ESPARSAS SOBRE ZANONI DE BULWER LYTTON
                                                                Por Pseudo-Sedir
                                                 “Na escala do cosmos só o fantástico tem condição
                                                                                                de ser verdadeiro.”
                                                                                                                                                                                                                       Teilhard de Chardin

Zanoni é um dos livros mais enigmáticos do mundo iniciático, um romance rosacruziano repleto de mistérios e revelações sobre Seres, trabalhos ocultos e Ordens milenares, ainda ativas e atuando eficientemente para a evolução de seus membros e da humanidade como um todo.

Mas, o que poucos sabem, é que o romance foi inspirado em antiquíssimas Ordens Iniciáticas históricas e personagens também reais. A R+C seria apenas uma cortina de fumaça para despistar os curiosos e profanadores.

Segundo pesquisas, feitas por místicos europeus, há dois candidatos para ser o inspirador do Zanoni: Francesco e Giacomo. Um dos dois, inclusive, fazia generosas doações para a Igreja de Sévres, como consta seu livro de recebimentos.

1. Francesco Zanoni

Francesco Zanoni, pintor hermético da Renascença. Infelizmente, são poucas as informações sobre sua vida. A restauração das pinturas do Palazzo de Pádua foi sua obra mais notória.


No “Palazzo dela Ragione” (Palácio da razão - Pádua, Itália) temos as 360 imagens do zodíaco pintadas por Giotto. Estas figuras foram baseadas no “Tratado de Astrologia” do mago Pietro d´Abano. Em 1420 o Palácio sofreu um incêndio que danificou severamente as imagens de Gioto. Francesco Zanoni refez todas as pinturas, devolvendo sua vivacidade e esplendor.


2. Giacomo Zanoni (1615 – 1682)

Giacomo Zanoni é o mais forte candidato a ser o inspirador de Bulwer Lytton. Viveu no século XVI, na Bolonha, Itália, e era botânico (como o personagem do livro) e, comprovadamente, viajou por vários países, incluindo os orientais.

Como também era herborista, consegue do Senado a autorização para cavar uma cripta onde fabricava remédios, este local, por séculos, foi conhecido como a “Farmacia degli Zanoni”.


Giacomo publicou um famoso tratado de botânica, que ano passado estava sendo oferecido ao preço de 3.800,00 euros!!!





Neste livro Giacomo Zanoni, entre outras curiosidades, descreve uma flor em forma de pássaro, totalmente desconhecida no ocidente à época do livro, o que acabou acarretando a zombaria dos cientistas europeus:





Anos depois a flor foi encontrada no Oriente:





Há inúmeros outros mistérios velados no corpo deste romance. Nada encontramos que se assemelhe a fantasias ou invenções do autor, cuja vida pessoal é encoberta de mistérios e lacunas. Estas pequenas revelações, feitas ao longo da Obra, nos situam em nossa insignificância diante do Cosmo, e propiciam inúmeras questões e perguntas, demonstrando o quanto nada sabemos sobre a vida oculta das Ordens, de seus grandes Iniciados e dos mistérios da Vida.

Bulwer Lytton

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

A Aridez (ou Secura)

                                 A Aridez (ou Secura)**
                                                        Por Paul Sedir

Eis algumas notas rápidas sobre um dos estados d’alma mais doloroso reservado aos místicos em sua caminhada.  Eles podem ser úteis uma vez que todo mundo ressente, por intervalos, de apatia e desgosto. 

Disse Jesus: “É de vosso interesse que eu parta...” (João, 16:7). Efetivamente, se nossa natureza ama as doçuras espirituais, é preciso aprender, como disse M. Hamon, a amar o Deus das consolações mais que as consolações de Deus. O que é sensível na vida interior é o regozijo das partes de nosso espírito das quais somos conscientes. Pois, nós só temos consciência daquelas regiões psíquicas que nosso trabalho interior evoluiu. Para crescer, nossa consciência deve entrar na imensidão de nosso inconsciente. Neste ponto, a sensitividade interior não funciona mais. De lá vem a sensação de aridez – mas é preciso saber que  este estado  é  o sinal de  que Deus esta agindo em nós profundamente. Quando sentimos sua ação, é que Ele está operando nas partes externas de nosso espírito. A secura é, portanto, um estado muito invejável e frutuoso.

Quando o dever perde seu charme e a prece seu atrativo, isto vem ou de uma direção particular de Deus ou da constância de nossa tibieza ordinária.

A aridez possui três qualidades:

1. A alma calorosa geme, esmorece, se humilha, e gostaria de abraçar o universo; mas ela permanece impotente.  A alma tíbia não percebe nem mesmo a sua aridez.

2. A alma calorosa está em crise. Ela pensa no mal que fez apesar de seus esforços, e no bem que ela não fez. Ela se compara aos seus irmãos, acredita estar atrasada e queima no imenso desejo de melhorar. A alma tíbia encontra-se bem como está e julga-se melhor que as outras.

3. A alma calorosa não negligencia, malgrado tudo, nenhum dever.  Ela se esforça energeticamente para cumprir tudo, apesar da dor e da insipidez.   A alma tíbia negligencia, e desbarata-se de seus deveres.

Como se comportar neste estado:

1. Se ele provém de nossa tibieza, é necessário sair, custe o que custar, por um esforço sistemático e obstinado;

2. Se ele provém de uma provação, “dê os ombros” e resigne-se com calma; nossa sede de evoluir será a melhor das preces.

3. Por fim, e de uma maneira geral, cuide-se para não cair da secura para a tibieza. O que seria um recuo muito triste e um estado bem perigoso.

Entre as causas de nossa aridez podemos observar duas principais:

Primeiro, a tibieza habitual, engendrada pelas paixões, a curiosidade, os desejos vãos, a negligência. Depois a falta de atenção aos minutos de fervor que a bondade de Deus nos diligencia.

Para prevenir a aridez é preciso:

1. O recolhimento, a manutenção do doce sentimento da presença divina;
2. As pequenas mortificações morais: estes são os grãos de sal sobre o fogo agonizante de nosso fervor.

Para lutar contra a aridez empregue os seguintes procedimentos:

1. Não deixe entrar em si o desencorajamento. Deus tem todos os direitos sobre nós. Temos muito a pagar.  Temos uma obra magnífica a cumprir: ajudar o Cristo em seu trabalho;

2. Recusar os pensamentos de dúvida e de inquietude. Deus é bom e todos os Santos sofreram terríveis securas. Nós seremos todos salvos.

Como se conduzir na aridez:

1. Não omitir nenhuma de nossas preces habituais, embora estejam insípidas;

2.  Guarde, com uma vontade forte, a convicção que Jésus está conosco e ao nosso lado.
As vantagens da aridez são:

De ser uma excelente escola de sólidas virtudes; de reduzir o amor próprio, de aumentar a humildade diante de Deus e diante dos homens; de fazer crescer o amor de Deus, pois ao purificar nossos sentimentos, eles os incitam, nos exaltam acima de toda dor humana.

*         *          *
Eis de perto todos os pontos suscetíveis de servir de tema às meditações daqueles que estão bastante familiarizados com o trabalho psíquico para poder aprofundar e organizar todas estas informações.

Tomemos em cada dia de provação uma destas frases, e pensemos nela nos minutos de folga entre nossas ocupações diárias. Estas lembranças ininterruptas acabarão por si mesmo em fazer retornar o vigor à nossa vontade e de ser o élan do nosso coração.

Eis alguns detalhes suplementares que ajudarão a determinar o estado de aridez. Quando conhecemos nosso mal podemos melhor suportá-lo, pelo menos para os caracteres reflexivos e viris.

A secura é uma prova interior que Deus nos envia ou permite como faz com as provas exteriores: as doenças, os  ataques demoníacos visíveis, etc.

Examinando as relações dos místicos encontramos doze variedades de aflições interiores:

1. As tentações;
2. A impotência aparente de cumprir um ato benfeitor qualquer;
3. A visão aguda de nosso estado de corrupção moral;
4. A sensação aguda de estar só entre os homens;
5.  O aborrecimento e uma imensa tristeza;
6. A sede de Deus;
7. O terror de ser abandonado por Deus e que Ele não nos ajude mais;
8. A certeza de estar condenado;
9. Do ressentimento contra Deus;
10. Dos escrúpulos despropositados e desatinados;
11. Das distrações invencíveis;
12. A aridez ou secura.

No momento, nos interessa, as aflições nos 2, 3, 5, e talvez 11 e 12, se permitimos de empregar para o místico este estilo de contabilidade.

Eis para cada um destes cinco artigos algumas máximas que contemplaremos (e não meditaremos) sistematicamente, em todos os momentos livres do dia, sem preocupação com os possíveis resultados desta contemplação.

·         Contra a impotência ao bem: somente possuímos verdadeira e divinamente as virtudes na medida em  que ignoramos que as possuímos. – “Console-te; tu não me procurarias, se tu não já tivesses me encontrado”, disse J. C. pela pluma de Pascal.

·         Contra o desgosto fatigado de nós-mesmos. É, ao contrário, uma boa coisa ser severo para consigo.

·         Contra a impotência ao ato benfeitor: abandonar-se a Deus, deve ser nosso desejo sincero. É então que isto que nós acreditamos ser o bem seria atemporal. Alhures, esta própria espera é, em certo plano, um trabalho ativo.

·         Contra as distrações: evitar os sonhos agitados e as palavras vãs. 

·         Contra a aridez, a mais comum de todas estas provas: Na aridez, não chegamos, apesar de todos os esforços, a nenhum fervor; e este ainda é seguido de desgosto. Para prevenir este estado, é necessário manter a vida ocupada, preparar-se para a prece pela meditação, onde encontramos um pouco da relação do particular com o geral. Mas mesmo assim não se estafar, a fim de evitar o esgotamento nervoso.

Santa Teresa dizia que há vantagem em mudar, de vez em quando, a hora da oração e, às vezes, dividir a oração em vários momentos, com meia ou uma hora de intervalo: por exemplo, cada vez que o relógio bater (Vide VI). Ainda, podemos anotar um belo pensamento vindo durante esta oração tão insípida. A vantagem desta provação é de nos fazer descer à humildade. 

O melhor remédio é “de se apresentar diante de Deus como um pequeno pobre, pedindo-lhe muito humildemente uma esmola” (Santo Philippe de Néri, Vide, Bolland, 26 maio). É preciso, e isto para todos os nossos sofrimentos, em pedir a Deus o alívio e, ao mesmo tempo, estar feliz se Deus não nos concedê-lo.  Esta regra é muito importante. Por fim, para concluir, é bem verdade que todos estes sofrimentos da alma, sejam quais forem sua origem e sua natureza, nos proporcionam os maiores avanços.

  ** Extraído e traduzido por Pseudo-Sedir da revista Psyché , Paris, 1913
             

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

O TEXTO INICIÁTICO

                                                 O Texto Iniciático**
                                                                  Por Déa

Cada texto proveniente do alto, é iniciático, isto que dizer que ele ajuda ao alargamento da tomada de consciência e, por conseqüência, a evolução do ser. O texto Iniciático dirige-se à todos os seres humanos e à todas as épocas, e pode ser compreendido por todos aqueles que empreenderem aborda-lo, de acordo com o nível relativo de sua tomada de consciência do momento. 

Cada ser humano, sem distinção de nível e de educação, de idade e de sexo, de raça e de geração, independente de qualquer época ou período, independente de qualquer religião ou heresia, pode descobrir nas palavras de um tal texto a Verdade Divina, e emprega-la nas condições atuais de sua vida.

A unicidade do Texto Iniciático reside no fato deste possuir infinitos níveis de leitura, de infinitos níveis de referencias e de compreensão, e de aplicação em tempos e espaços infinitos. O Texto Iniciático nunca é de menos (1), porque sua integridade é a essência mesmo de sua estrutura. Jamais contem falhas, porque a verdade é a estrutura mesmo de sua essência.

O pesquisador honesto deve saber que o Texto Iniciático dirige-se ao mesmo tempo aos três níveis de existência: corpo, alma, e espírito, e que fala simultaneamente para todos os níveis dos mundo e dos reinos. 

Destes poucos elementos podemos compreender, de maneira direta, que o acesso ao Texto Iniciático pelo ser humano neste plano físico, não pode se efetuar pela via intelectual. Ela necessita a mobilização de todas as forças sutis, de todas as aptidões e energias do ser humano, afim de que este esteja em estado de começar seu caminhar para ter acesso à sua Verdade.
Jamais esqueça disto.

Déa. 

** Tradução Pseudo-Sedir

1. A palavra “manquant” tradução da palavra grega elleiptikos (=elíptico) que significa ao mesmo tempo “manquant” ( de menos, que falta) e elíptica, e que leva à elipse, forma “manquante” ( faltar, falhar, errar) por ligação ao círculo ( ou grupo, sociedade). 

sábado, 26 de dezembro de 2015

O Dr. Encausse (Papus)

                   O Dr. Encausse (Papus)*
                                        Por Phaneg**

Agora cumprirei minha promessa, e direi nitidamente de onde vinha a força e a luz de Papus.

Na aurora de nossa civilização, levantou-se uma figura gigantesca, o Cristo-Jesus. Com gosto, Papus o amou e reconheceu. Eis todo seu segredo. Ele compreendeu a verdadeira  identidade daquele cujo nome faz dobrar os joelhos de toda criatura da Terra e do Céu. Ele o amou, reconheceu nele o chefe absoluto, o Guia Supremo, o Pastor dos pastores, o Amigo incomparável cujas mãos poderosas sustentam tão ternamente aqueles que entendem, enfim, seu apelo secular.

No seu coração imenso, Luz é a vida central do Mundo, Papus colocou suas consolações justas, seus conselhos precisos, suas forças curadoras, enfim, esses segredos distribuídos por sua vez a todos os sofredores. Discípulo do Ser inefável cuja satisfação é o dom completo dele e de sua vida, ele sabe que quanto mais o solicitar, mas o Cristo é feliz, e mais Ele concede. Ele conhece de coração que quanto mais se doar, mas receberá, e isto em todos os planos.

Eis leitor amigo, a Fonte onde Papus procurou sempre tudo o que lhe era necessário, malgrado o número enorme dos solicitantes.

Tendo pertencido a uma escola que possui a tradição ora do Evangelho, jamais interrompida até nossos dias, e que diz a todos: “Não destrua, pelas falsas luzes do mental, os ensinamentos maravilhosos transmitidos pelo Evangelho; tome ao pé da letra essas palavras definitivas do vosso Iniciador: ‘Eu estarei convosco até a consumação dos séculos, se guardarem minha palavra, meu Pai vos amarás e vos conduzirás à sua morada’. Jesus vive conosco, não é somente Sua vida que circula nesse infeliz andrajo que vos socorres? Mas quem sabe? Eis talvez O próprio, porque assim Ele disse.”

(...)

Permita-me, você que lê com simpatia, eu espero, essas páginas de boa fé; permita-me perguntar-vos uma coisa. Todas estas ideias são mais que imagens passageiras, são verdadeiramente criaturas vivas? Por favor, não responda ‘a priori’, dê-las um asilo em vosso coração e espere que elas vos falem no silencio e, talvez, elas os revelem um dia as verdadeiras Leis da Vida. 

Notas:

* Publicado originalmente na revista “Le Sphinx”, Nice, 2 de maio de 1920.
** Phaneg é o pseudônimo do célebre Martinista Gerge Descormier (1866 – 1945), amigo íntimo de Papus e discípulo de M. Philippe de Lyon.
*** Traduzido por Pseudo-Sedir. 


  

sábado, 7 de novembro de 2015

REFLEXÕES SOBRE O HERMETISMO




          Reflexões sobre o hermetismo**
                                           Por Jollivet Castelot


I. A Primavera

Há alguns anos observamos uma renovação geral dos estudos herméticos. Numerosas publicações por todo o mundo, inclusive em língua francesa sobre Pitágoras, seus discípulos mais eminentes (Empédocles, Apolônio de Tiana ), seus santuários secretos (a Basílica da Porta Maior), os Neoplatônicos, os Hermetistas do Renascimento, a ponto do domínio da magia, da teurgia e da alquimia serem de novo explorados por universitários e tradutores. Evidentemente devemos observar certa reserva com textos menos filosóficos consagrados à alquimia ou a teurgia. Mas esperamos que a curiosidade e a renovação destes estudos tragam frutos positivos.

II. Interesse dos estudos herméticos.               

Os homens manifestaram, em todos os tempos, uma curiosidade legítima para com o problema de sua própria existência e de seu derradeiro porvir. Sabe-se que existe, na natureza, um conjunto de segredos cujo conhecimento concede ao iniciado a paz do coração, a alegria de espírito e o sentido da vida.

A revelação lenta e gradual desses segredos formava, entre os antigos, o objeto dos Mistérios. Em nossos dias, muitas pessoas estão ainda à procura do conteúdo dessas antigas iniciações. Por nossa parte afirmamos que esta tradição não desapareceu e é perpetuada sob uma forma oculta, iniciática e filosófica.

Sendo verdade que, por um simples esforço de erudição ou pela Via da comunicação interior, todo pesquisador de boa vontade pode descobrir certos pontos da tradição hermética, porém é praticamente impossível atingir a revelação dos Mistérios Tradicionais, sem a assistência de um estudo regular e contínuo dos textos do passado, e de um ensinamento direto e progressivo pontuado por iniciações. Lembramos ainda que, raras são as escolas que transmitem este método com toda a exigência prática necessária.

Os Mistérios possuem mais que uma base metafísica. Repousam sobre um conjunto de fatos verificáveis pela experiência, quando o estudante adquire pouco a pouco as bases de sua arte. Certos fenômenos chamados hoje de paranormais ( telepatia, pressentimentos, inspiração súbita, sonhos premonitórios ) podem ser reencontrados.



Entregue a si-mesmo, o homem em razão da insuficiência de seus meios de investigação, somente pode encontrar elementos de respostas incompletos quanto aos problemas relativos a sua natureza, a seu fim, a seu papel no universo, em quanto que a iniciação hermética lhe abre as portas de uma revelação incessantemente profunda.

Certas religiões fornecem em maior número diversos ensinamentos esotéricos de forma velada e popular. Mas estes não satisfazem àqueles que, cuidadosos da livre escolha das doutrinas e partidários do princípio do livre exame, recusam sujeitar-se às disciplinas imperiosas, extremistas e ficam à parte da vida religiosa para salvaguardar sua liberdade.

Ao contrário, a Tradição Hermética pode ajudar esses espíritos investigativos e livres, oferecendo uma via iniciática realmente ocidental que não pede inicialmente uma adesão aos seus ensinamentos. Propondo soluções sem impor; somente consentirão após terem verificado a excelência pela experiência pessoal.

Desmoralizados pela anarquia do mundo, revoltados por suas injustiças e crimes, aflitos pelas agonias contemporâneas, muitas pessoas, imbuídas de altruísmo e idealismo, se interessam pelo porvir da humanidade. Portanto, é natural que se voltem para as personalidades do passado, Pitágoras de Samos, que foi não somente um geômetra, um músico e um moralista, mais também e sobretudo, um Mestre da Iniciação, Platão, Plotino, etc.. Todos seus ensinamentos são sempre atuais e é profundamente desconcertante ler textos dessas distantes épocas que parecem terem sido redigidas há algumas semanas atrás. Estes falam à nossa alma, à nossa experiência e respondem as questões, preocupações e ameaças de nossa época.


III. Finalidades dos Mistérios.

  Seria inútil conceder aos Mistérios um papel restrito à educação mística, de edificação e formação pessoal. Sem dúvida, fornecer uma resposta precisa a todos os problemas concernentes ao homem e ao mundo já seria uma tarefa considerável e um benefício de incalculável magnitude. Da mesma maneira, obter a salvação de cada um é uma tarefa imensa.

Mas os Mistérios não se contentam unicamente em esclarecer os iniciados, devem ainda levar por intermédio daqueles que os recebem, uma luz para ser repartida com o mundo.

A iniciação fornece àqueles que a recebem, um papel benfeitor e útil. O iniciado não pode egoísticamente tratar de sua própria salvação, de sua perfeição. Deve ao contrário utilizar a luz recebida para clarear e curar seus semelhantes, segundo suas possibilidades, sem, entretanto, descuidar das exigências primitivas de esforços pessoais. 

Este dever obtido com a iniciação, refletindo a luz recebida e levando a felicidade a outros, deve ser realizada sem fraqueza, sem lucros individuais, no mais inteiro desinteresse.

Nos tempos modernos, os destinos dos povos são regidos por potências políticas e econômicas às vezes amorais ou mesmo imorais. Motivo das discordâncias cada vez maiores entre esses regimes político-econômicos e as exigências humanas reais que são cada vez mais ignoradas. O trabalho do iniciado deve, portanto, contribuir para a salvação de todos.



Notemos que na antigüidade, as condições mais próximas de um ideal espiritual foram realizadas em certas épocas. No Egito, o governo era teocrático, os iniciados, principalmente os sacerdotes teriam nas mãos o poder político. O mesmo se daria em certas repúblicas gregas ( Métaponto, Tarento, Crotone ), onde os monges, notadamente, nos legam o testemunho indubitável da preponderância dos iniciados nos conselhos governamentais. Não concordamos, entretanto, estas tentativas de governo com uma república ideal semelhante à de Platão que teria como conseqüência ser ainda mais intransigente e intolerante do que os regimes ateus e extremistas. Esta sociedade é de benefício ideal no sentido filosófico e podemos para descrevê-la, resgatar as Academias Platônicas da Renascença. Notemos, entretanto, que elas implicam em indivíduos que realizaram plenamente seu papel esotérico resumido no ideal da abadia de Thélème de Rabelais.

IV. Natureza dos Mistérios.

Existem numerosos ensinamentos iniciáticos, todos os povos possuem seus Mistérios.

Do mesmo modo, que todos os raios levam ao centro de uma circunferência, todos os Mistérios levam ao conhecimento de uma única realidade iniciática válida para toda a humanidade.

No mundo Ocidental, a maior parte dos Mistérios, derivam da grande tradição egípcio-helênica que, embora pouco conhecida, parece melhor adaptada à nossa sensibilidade. Esta ensina entre outra: a natureza do homem e seus diferentes corpos celestes que o compõem; a sobrevivência póstuma da alma; seu julgamento post-mortem (o peso da alma ou psycostasia ); seu destino após o julgamento.

Esta tradição impõe algumas prescrições em relação a certos Mistérios: proibição de cremação (em certos casos, muito semelhante ao Pitagorismo ); respeito a hierarquia; animação espiritual dos objetos de culto; utilização pela liturgia da água magnetizada, do fogo sagrado e de incenso; etc.

São estes grandes Mistérios que Pitágoras levou para a Europa no século VI antes de nossa era.

V. Os agrupamentos iniciáticos.

As ordens iniciáticas são agrupamentos fechados, dando por via de seleções severas, um ensinamento preciso dos Mistérios a um pequeno número de discípulos, que continuam por sua vez a cadeia de iniciação tornando-se, um dia, Mestres iniciadores.

Este ensinamento é direto, dado pessoalmente de Mestre a discípulo por via oral, “de boca à ouvido”. Implicando como fundamental, um trabalho regular, cotidiano, durante vários anos de técnicas simples, mas fundamentais. A este trabalho, é associado uma meditação regular e contínua das grandes obras dos Mestres do passado.

O conhecimento dos segredos da natureza somente pode ser dado às almas puras, suscetíveis de fazerem um bom uso, e não utilizá-las para fins de dominação pessoal com finalidades egoístas. Não podemos profanar os mistérios os comunicando à simples curiosos, a imprudentes, à pessoas orgulhosas e interesseiras. Mas também é necessário reconhecer que mesmo no caso, “de erro”, os Mistérios não seriam totalmente profanados porque seriam inacessíveis ao interior daqueles que não seguiram a ascese necessária. Os Mistérios não se restringem à conselhos de prudência e de virtude; Eles  ultrapassam o papel ético. 

Os Mistérios não fornecem somente a chave da vida, os segredos da morte, da felicidade, e uma comunicação de certas ciências, mais ainda um poder oculto, o de agir sobre o plano espiritual. Os possuidores desses poderes são livres para dispor, o que impõe ao transmissor uma grave responsabilidade.

O Mestre iniciador é, não esqueçamos, um sacerdote, um “sacerdoce magnus”, um intermediário entre nosso mundo e o do alto; pode colocar em movimento as energias naturais, emitir ondas mentais onde é o gerador consciente e responsável.

É o pai de seus discípulos. Os inicia ( initium=começo ) comunicando, por uma magnetização, uma parte de sua própria vitalidade espiritual, de sua alma.  Dando-os uma carga psíquica induzida, porque iniciar, é de fato, dar a vida a um ser novo sobre o plano espiritual.  


Este ato tão importante quanto a geração sobre o plano material, não pode ser feito levianamente, porque empenha para sempre a responsabilidade do iniciador. A responsabilidade para com esses iniciados é equivalente à responsabilidade para com nossas crianças.

Concebemos assim a responsabilidade dos iniciadores face à humanidade, e com que prudência os Mistérios devem ser comunicados.

Compreendamos também a existência de falsas escolas de iniciação. Não podemos, por exemplo, considerar como escola iniciática um agrupamento que limita-se a leitura dos rituais sem os fazer viver sobre o plano espiritual; onde o Mestre iniciador é um simples guardião e doutor da lei; onde o Mestre iniciador não é mais que um professor de moral; onde não solicita a assistência de uma força espiritual, em que o universo está banhado; não comunicam nenhum poder porque o próprio jamais o recebeu.

As religiões desde que existem, isto é, desde a antiguidade mais recuada até nossos dias, são muito numerosas e engendraram teologias não menos numerosas. Estas religiões, assim como essas teologias, estão sempre em luta entre si, sem chegar jamais a se entenderem ou mesmo se compreenderem. Nenhuma entre elas jamais chegou a dominar inteiramente as outras nem a converter a humanidade inteira, malgrado esta finalidade faça parte de seu ensinamento dogmático, porque cada religião pretende ser diretamente revelada por Deus e deve triunfar um dia sobre toda a terra.


As religiões jamais chegaram a estabelecer entre si um acordo, malgrado uma certa comunhão de ideias encontradas, resultado do fato de seus fundadores terem sido frequentemente gênios religiosos que entreveram os mesmos princípios gerais da verdadeira devoção e da verdadeira moralidade e também do fato de que as concepções religiosas são em números muitos restritas. Não se trata de entrarmos nas questões doutrinais e nos diversos métodos religiosos. Estes pontos já foram tratados.

É inútil demonstrar a divergência profunda existente hoje entre os dogmas das principais religiões e as concepções modernas a respeito do Universo, sobre sua estrutura e sobre seus destinos, os quais são ligados à vida e aos destinos da humanidade. Estes pontos estão sendo colocados em evidência. Parece nitidamente, que a noção de Deus, as ligações entre o Mundo e Deus, não poderiam mais serem admitidos por nossa inteligência. A maneira de considerar as coisas da Natureza e as coisas da religião mudou inteiramente e não saberíamos mais retornar à anterior. 

Logo, as religiões não evoluíram quanto ao fundo de seus princípios e conservaram a vestimenta mitológica que as tornam insuportáveis ao entendimento moderno. Mesmo sob a forma atenuada, simbólica, que certas religiões adotaram, como o misticismo fabuloso, o sobrenatural transcendental alojado no ensinamento tradicional, para a religião cristã, por exemplo. Isto parece evidente para o protestantismo que conservou certas noções pela qual se aparenta ainda à mitologia e a fábula.

Contentemo-nos de lembrar a unicidade atribuída a Jesus, sua impecabilidade absoluta pelo qual ele se separa da humanidade, sua filiação especial por ligação a Deus, sua ação presente na cena assim como nos acontecimentos do mundo, enfim, a noção de milagre.

Nenhuma religião rejeita inteiramente as velhas crenças, que somente a razão e a ciência saberiam admitir. O misticismo está sempre na sua base e esse misticismo se desenvolve de formas diferentes e contraditórias nas diversas religiões que continuam a se levantar umas contra as outras sem procurar sinceramente a se confederar entre si. Poderão algum dia? É necessário não esquecer, de fato, que as religiões são um produto do meio étnico, nacional e social de onde nascem e se desenvolvem, de onde surgem as rivalidades e o antagonismo indestrutíveis. 

As religiões possuem sua utilidade em quanto fator de evolução em um momento dado e suas teologias têm o desenvolvimento necessário do ensinamento que se transforma, mais não ocorre o mesmo atualmente, as religiões estão cristalizadas, estando coaguladas e permanecendo atrás do movimento que arrasta em nossa época a ciência, os povos e as civilizações a caminho de qualquer coisa de novo, a caminho de um desconcertamento radical de nossas ideias e de nossa ação.

Mas, as velhas religiões não estão mortas. Conservam a vitalidade e defendem sua existência ameaçada e vacilante com uma severidade que anima os velhos desejosos de não morrerem. Entretanto, o golpe funesto foi dado em seu ser mais íntimo e estes não se erguerão mais. Desfazendo-se lenta, mas seguramente, como fizeram seus antepassados, nos tempos longínquos e cederão o lugar às formas religiosas mais jovens e diferentes que se apoderarão a seu turno, por um tempo determinado, de algumas certezas assim, como de algumas crenças, cujo espírito moderno fez a conquista.

Vejamos agora com toda prudência imposta por semelhante sujeito, qual deveria ser a evolução religiosa, do pensamento atual e futuro e em que podemos esperar um progresso real, um encaminhamento mais rápido entre a razão e a fé, entre a intuição e a experiência, entre o sentimento e a lógica, graças o qual surgirá a religião da ciência e a ciência da religião.

Encontramos a base desse desenvolvimento religioso filosófico e científico no hermetismo, cuja tradição esotérica persegue através dos séculos, desde uma época muito recuada, chegando a alguns milhares de anos. Tradição esta, restrita aos mistérios egípcios, aos ensinamentos iniciáticos da Índia e da Pérsia, e a cabala judaica que refletem os conhecimentos dos pensadores do Oriente.

Esta tradição, não obstante, às reservas necessárias, constitui a verdadeira síntese religiosa, científica, moral e social, porque repousa na fé sobre a intuição metafísica, sobre o misticismo naturalista, sobre o racionalismo filosófico e sobre as conquistas positivas e progressivas da experiência, sobre a exploração e o aprofundamento contínuo do domínio ilimitado da natureza.

Certamente, é inegável que a imaginação, frequentemente fantasiosa, se confunde à observação, ao pensamento, à contemplação e à pesquisa. Isto é o mesmo, alhures, em todos os conhecimentos humanos que não se edificam lentamente por um trabalho incessante de crítica e de eliminação. Não restando menos que o método geral aplicado pelos adeptos do hermetismo apoiado sobre a lógica, que escruta infatigavelmente a Natureza sob todas suas formas e que não abandona jamais o terreno sólido do Mundo o qual o homem pertence e que recebe as influências intelectuais e espirituais.

O hermetismo têm claramente demonstrado, a Unidade essencial de todas as religiões e o elo que as unem sob as diversas aparências dogmáticas, simbólicas e alegóricas. De fato, a explicação esotérica das religiões às conduzem a uma base única que é a astronomia. Todos os mitos religiosos recordam o movimento dos planetas, do sol e das constelações, emprestando uma aparência humana a certas revelações científicas personificadas em um Deus descendente sobre nosso globo e encarnado na humanidade. Este Deus-homem, nascido no solstício de inverno, morto e depois ressuscitado no equinócio da primavera [no hemisfério norte]. Os teóricos agregaram um grande número de definições alegóricas, e às vezes, mesmo filosóficas, a este culto solar universal. Contentemo-nos de lembrar a introdução do princípio platônico, o Logos na religião cristã, o que deu lugar à construção progressiva do dogma da trindade entre outros.

Não atemo-nos por mais tempo sobre esta matéria bem conhecida do público e colocada em evidência por numerosos escritores, desde a aparição da obra de Dupuis: L’Origine de tous les cultes ( A origem de todos os cultos ).


 A síntese religiosa do hermetismo introduziu, portanto, a ciência do Universo em sua explicação positiva dos aparentes mistérios que nos cercam, não desobrigando esta via de recorrer aos princípios da astrologia, da alquimia, da magia e das artes divinatórias. A astrologia estuda as influências dos astros sobre os acontecimentos físicos e orgânicos, sobre a evolução da terra e da humanidade, influências reconhecidas hoje novamente pela ciência oficial que afirma por seu lado, após ter ridicularizado os antigos, que o sol, a lua, e os planetas possuem uma ação eletromagnética sobre os seres e suas determinações.

A alquimia não é outra que o estudo da transformação atômica, da transmutação perpétua dos elementos químicos que constituem o Universo inteiro.

A magia que compreende as ciências precedentes estuda especialmente as forças ocultas da Natureza, ou seja, a ciência primitiva e é dela que saíram a física, a química, o magnetismo, o hipnotismo, psiquismo, como é da astrologia que saiu o conhecimento dos números, base da matemática e da geometria, da álgebra, etc. Sobre a magia repousa ainda hoje o ritualismo das cerimônias religiosas, assim como a maior parte da liturgia.

Enfim, as artes divinatórias repousam sobre o determinismo, às vezes previsíveis por certos meios intuitivos associados ao racionalismo, dos fenômenos e dos acontecimentos formadores da trama dos destinos do mundo e dos homens.
        
Temos então o hermetismo constituindo o verdadeiro conhecimento religioso e explicando os símbolos e as fábulas de todas as religiões e elevando-se acima de todas as crenças e se inspirando no espírito puro, liberado de todos os dogmatismos contraditórios e autoritários, e de todas as lendas que envolvem o sentimento religioso e impedem de atingir o centro divino de onde irradia a luz eterna que não profana nenhuma invenção pueril ou má, nenhuma imaginação desavergonhada ou errônea, isto é, preocupada de interesses humanos. 

O hermetismo conduz à religião universal que reconhece somente o Deus insondável e vivente, de outro culto que não seja o culto da Verdade, do Belo e do Bem.

O hermetismo, sempre se elevando a Deus por um sentimento profundo de fé e de amor, entrega-se sempre a uma especulação intelectual muito complexa e muito corajosa de Deus, jamais concebido como um ser pessoal como faz a maior parte das religiões, mais sempre considerado como o Ser dos seres, a potência eterna, absoluta, infinita e, por consequência insondável em sua essência, incognoscível nele-mesmo, mas cognoscível por sua manifestação no seio da Natureza, do Cosmo.

Para o hermetismo, Deus e o Mundo são Um em seu princípio e não podem ser, considerados separadamente, um do outro. O mundo não pode ser uma criação no sentido próprio da palavra, mais antes uma emanação, porque o infinito contém tudo, contendo todas as propriedades e todas as possibilidades contém o finito, produz o ato, compreende a afirmação ao mesmo tempo em que a negação, isto significa que ele unifica os contrários. Estes contrários não são outros, que os existentes no pensamento humano. Não existem antinomias no seio de Deus.             

Simbolicamente, Deus pode ser concebido como a Integral e o mundo como sua derivada ou sua diferencial.

Esta derivada, acrescida da Integral, não pode jamais ser integrada de uma maneira absoluta porque o mundo tende para a harmonia, para a perfeição sem jamais poder os encarnar absolutamente. Isto explica a imperfeição do mundo e dos seres comparativamente a Deus e isto será a famosa razão da queda fatal e necessária resultante do conhecimento e que constrange o mundo a perseguir incansavelmente um retorno sempre maior para sua fonte, embora este seja aproximativo. 

E é esta definição simbólica dada pela análise das altas matemáticas que permite considerar Deus como sendo a síntese e o mundo como sendo a substância anárquica, e esta explicação figurada permite construir o Universo com a ajuda da representação das esferas e das hiper-esferas se desenvolvendo e se penetrando reciprocamente, realizando a unidade sob formas múltiplas, mas de fundos idênticos, a esfera sendo a curva ilimitada traçada pelo infinito fechando sobre ela mesma para se abrir de novo para a hipérbole, curva abrindo-se sobre o infinito. É sempre a mesma vida, o infinito absoluto opondo-se no finito, em um espaço e em um tempo relativos, em uma imperfeição que se eclipsa na harmonia do Todo.

É impossível, em sentido filosófico como na pura religião, de separar Deus e o Mundo, de observar o Mundo como uma criação, isto é como uma aparição no infinito e na eternidade, como uma exteriorização voluntária e livre.

Não existe criação no seio do infinito e da eternidade que não comporte de instante ou de começo no tempo, pois o tempo não existe em Deus.

Disto resulta que o Mundo é consubstanciado a Deus, que o limite é posto pelo ilimitado do qual ele é somente uma expressão formal.

O Mundo não pode resultar de desejos ou de movimentos exteriores porque em Deus não existe mudança e se o Mundo proviesse de um movimento, seria necessário supor que Deus não preenche todas as condições de felicidade e de harmonia, pois, um ser contido nele desejaria sair de Deus e viver sua própria vida, o que é impossível, absurdo e contraditório com a ideia de Deus. A tese sustentada por M. Julien Benda em seu livro “Essai d’un discours sur les rapports existant entre Dieu et le Monde” é, portanto falsa, contraditória, filosoficamente falando, não válida.


Não podemos diferenciar radicalmente o Ser concebido como Deus e o mesmo Ser concebido como Mundo. Esta diferenciação só pode ser relativa como é, pela representação da integral e da derivada saída de um Universo divino pelo seu princípio, abrindo-se sob a forma de esferas figurando os espaços não euclidianos a várias dimensões encerradas umas nas outras, como a 4a  dimensão contém as 3 dimensões conhecidas e como o hiperespaço fechando as esferas e os espaços à dimensões menores (1).

O Mundo e o universo finito, isto é considerado por nós como terminado, representaria por consequência a oposição do infinito a ele-mesmo, oposição que a forma de nosso pensamento nos constrange a admitir, embora na verdade não seja possível de ultrapassar o domínio da hipótese. As antimonias, Kant a provou magistralmente em sua “Crítica da razão pura” realçando somente a forma de nosso conhecimento e entendimento. Nós somos, portanto, obrigados a nos submeter a esta lei da razão humana, mais é necessário sempre nos lembrarmos que esses princípios são válidos apenas para nossa mentalidade, não possuindo um sentido absoluto. 

Dito isto, o símbolo matemático da integral e da derivada é de um uso cômodo e fecundo na circunstância. A derivada é indefinida mais não infinita e não se confunde com o infinito para o qual tende para integração e de que é, de algum modo, saída.

O Mundo, assim considerado como emanação eterna de Deus, não é, portanto, perfeito. Ele se distância, se desvia do absoluto e diferencia-se dele por derivadas sucessivas que são as causas secundárias. Deste estado de imperfeição, de individualização, de separação, de divisão, provém o que chamamos de uma maneira relativa o mal e o sofrimento, mas de outra parte, o mundo que encerra em si o princípio divino, aspira continuamente retornar a ele e a se juntar ao absoluto. O corpo de Deus, constituído pela emanação original, deseja e deve formar uma unidade com o espírito que lhe deu nascimento e como este corpo é animado de um movimento de evolução, o acesso à reintegração, cujo desvio o distanciou, torna-se natural.

Este desvio constitui o que as religiões chamam de queda, como já dissemos, mas esta queda não é imputável a um pecado e não é o mal. É o efeito da constituição mesmo de Deus. Resulta de sua própria natureza, de sua potência absoluta, infinita e eterna que anima todos os seres e os reconduz sem cessar a ela pelos estados sucessivos formando o desenvolvimento da consciência através da vida. É Deus ele-mesmo, que a consciência reencontra na sua parte mais profunda quando é purificada, e o duplo movimento aparente da queda e da redenção pertence à mesma realidade. É uma pulsação, é um sopro contínuo de exalação e de aspiração.

A religião revelada pelo hermetismo consiste, portanto, como vimos, em um modo intelectual e moral de pensar o mundo e de viver a fim de efetuar o retorno a Deus, princípio vivente da Unidade e da Identidade de todo ser e de toda coisa, pois Deus é o espírito animador do Cosmo que realiza seu organismo, seu corpo visível e invisível. A marcha ascendente consiste em uma evolução do particular ao Universal, do limitado ao ilimitado, do finito ao infinito, do relativo ao absoluto, do determinado ao indeterminado, do imperfeito à harmonia, da derivada à integral. O movimento derivativo ou diferencial da desintegração constitui o movimento de evolução. As duas oscilações do ser são eternas e simultâneas. A contemplação bem-aventurada nos fornece assim o conhecimento científico e o conhecimento filosófico e moral em uma síntese positiva, lógica e racional não excluindo nenhum atributo de nosso ser, nenhuma qualidade de nossa inteligência ou de nossa alma banhando na alma divina e universal da Natureza, esposa e filha de Deus. Esta contemplação, iluminando nosso espírito, o une ao espírito da fonte eterna de onde provém e esta união mergulha todos aqueles que atingem no êxtase inefável do amor e da adoração, porque a mais alta especulação intelectual, grave, serena, mas não austera, reverte-se de uma poesia sublime e sagrada que inspira e transfigura os grandes místicos do pensamento e os gênios imortais para que as barreiras do tempo e do espaço se desvaneçam diante da verdade conquistada.

Todos, totalizados no imenso Universo sobre as terras inumeráveis onde sofremos, onde procuramos e morremos, somos chamados à serenidade e ao saber, porque somos solidários uns com os outros e que o mesmo ser reside em cada um de nós. A ele convém fixar de uma maneira definitiva e de molduras rígidas,  regras de condutas permissíveis de alcançar o desatar das cadeias que nos retêm prisioneiros e nos impedem de subir aos cumes entrevistos. Devemos, a exemplo das religiões, reduzir a existência às leis do código moral imutável e coagular a vida em uma atitude única, limitada por uma disciplina estreita? Não. As almas e os espíritos não são todos fundidos na mesma forma, e a maneira de ver e de enxergar as coisas varia com os indivíduos. Evitemos, todavia, de aconselhar o ascetismo como fazem várias religiões e certos sistemas filosóficos que consideram a vida como essencialmente má ou como radicalmente viciada por um pecado original, encontrando a salvação somente no abandono de todas as satisfações terrestres e de todos os esforços intelectuais e artísticos confinados a um pessimismo não menos falso que o otimismo beato e a negação, mais ou menos total do Mundo.  

Nada nos autoriza considerarmos a vida como um erro ou mesmo o resultado de uma falta pré-humana resgatada somente por um castigo contínuo, por um sofrimento voluntário tendo como objetivo destruir todo desejo, toda paixão, e conduzir ao aniquilamento da personalidade do indivíduo. A prática do ascetismo, fatigando o corpo por privações, provoca simultaneamente o enfraquecimento da alma e da inteligência, abrindo assim a porta às doenças físicas e mentais, cujos exemplos são dados pelas biografias dos místicos pertencentes às diversas religiões e as diversas seitas.

Recordamos que o Buda Chakya-Muni somente atingiu o conhecimento perfeito após ter renunciado ao ascetismo que o deprimia e que Jesus de Nazaré, não mais que Zoroastro e Maomé, não aconselhavam ou praticavam o ascetismo.

Não se trata de suprimir em nós a energia vital, mas de equilibrar, tornando-a rítmica, isto é harmoniosa, por uma disciplina forte e constante. Trata-se de suprimir progressivamente o egoísmo exagerado, manifestação da força centrípeta geradora do nascimento das paixões desordenadas, dos abusos de todos os tipos e de converter em um princípio regulador, moderador, suscetível de ordenar o ser à imagem da ordem divina emanada para nós, fonte de altruísmo e abnegação.

É impossível sobre esta terra vencer inteiramente o egoísmo, pivô da vida individual e determinada. E, se tal resultado fosse conseguido, nosso ser desapareceria no nada absoluto, no inconsciente total, porque todo estado de consciência é ligado a uma forma mais ou menos alta e mais ou menos larga do eu. Deus não poderia ser concebido ele-mesmo como negação da consciência, de modo pessoal, isto que seria, pelo menos, antropomorfizar uma consciência de um grau compelido até o infinito. O infinito inconsciente equivaleria ao nada.

O ascetismo mais radical não depura o ser de toda consciência nem de todo desejo, porque os ascetas morrem para o mundo dos sentidos para adquirir o esplendor e as volúpias inefáveis do mundo celeste. Portanto, não negam a vida, mas somente uma certa forma de vida. E é somente em comparação à vida sobrenatural que a vida presente é considerada como negativa, ou nula em face da existência divina, como a vida divina é nula em face da vida corporal. Há somente uma maneira de conceber as duas formas opostas da vida, vida idêntica em sua essência.

Mas como acabamos de dizer, o ascetismo é um exagero da alma e um entrave ao progresso, contrariando a finalidade proposta. Não se trata de procurar a dor e suprimir todo desejo e paixão. Trata-se, repetimos, ordenar a vida em conformidade com a ordem divina universal, de atrair para si a luz, a bondade, à força e justiça e de irradiar em torno de si estas qualidades. É necessário transmutar os valores morais a fim de realizar um mundo melhor, mais elevado que o nosso e somente será pela evolução de nossa consciência e de nossas almas que poderemos edificar o reino de Deus sobre a terra e outros, por meio sem duvida, das vidas sucessivas que conduzirão cada vez por mais tempo, e pelos esforços repetidos, ao objetivo cada vez mais claro e visível a nos mirar.

Não queimemos rápido nossas etapas. Um curso rápido só interessa aos mais valentes, mas, fora os heróis por vezes temerários, há uma multidão incontável de homens médios, cujo vigor moral e intelectual, somente seriam afrontado com terríveis combates com o dragão que nos devora se não o enterrarmos. Somente sabem pedir a esta multidão para abandonar, sem ideia de retorno, as alegrias correntes e necessárias da existência cotidiana. Sem falar do estimado ascetismo inútil e perigoso, é fora de dúvida que a mudança completa da existência não poderia ser efetuada pela massa dos indivíduos e que a moral consiste para eles na pesquisa de um equilíbrio harmonioso de suas necessidades instintivas e de suas paixões diversas, com o trabalho paciente graças ao qual se elevarão e graças o qual, constituirá um mundo superior de maior dignidade.
Evidentemente, não será sob a forma terrestre que atingiremos o infinito, o absoluto, nem a felicidade eterna, mas isto não significa que o infinito seja a negação da vida, da consciência, da inteligência e do amor, que tudo seja nulo aos olhos de Deus.

Para a religião delineada, para a religião, para a fé metafísica e científica, que considera Deus e o Mundo como duas faces de um mesmo ser, a perfeição suprema consiste em uma união estreita e consentida, jamais absoluta, entre os dois princípios onde um é o centro incógnito e onde o outro é o cerco do ilimitado e do indefinido que traça a curva eterna entorno do ponto de onde é saído e constituído.

                                                                           Jollivet Castelot

1. Podemos representar a forma cilíndrica do Universo dizendo que a integral considerada como Deus engendra a derivada tomada como reta geradora, a qual se engendraria ao deslocar uma superfície cilíndrica. Assim o Universo, com sua estrutura geométrica, saída do princípio infinito e absoluto chamado Deus.
     Na hipótese de um Deus hiperbólico, seria necessário supor a formação de um cone circular  estreito e a divisão desse cone por um plano paralelo às duas geratrizes. O movimento das linhas do Universo seria engendrado pelo círculo ou a esfera e o cone daria nascimento à hipérbole que seria o resultado dos movimentos derivados da integral primitiva.

** Tradução: Pseudo-Sedir.