sábado, 11 de março de 2023

OS ESPÍRITOS DESTE MUNDO E O ESPÍRITO SANTO

 

  OS ESPÍRITOS DESTE MUNDO E O ESPÍRITO SANTO *

                                                                                         POR PAUL SEDIR


Pareceria, à primeira vista, que a um místico não devesse interessar o problema dos espíritos; mas, ao se fazer uma reflexão, a utilidade deste estudo torna-se evidente para melhor fixar as ideias e para circunscrever nitidamente os domínios respectivos do ocultismo e do misticismo.

 

Como todos os seres que se extraviaram, nosso tempo procura as coisas raras; não se satisfaz nem com as lições austeras da ciência positiva, nem com os conselhos mais consoladores da Igreja; e, devido a sua inquietude febril, se extravia quase a cada passo. É contra as paixões suscitadas pelo espiritismo, pela magia, pelo magnetismo pessoal que tentamos hoje reagir, retificando nossa caminhada sobre a estrela polar do mundo invisível, sobre o Verbo Jesus.

 

O Invisível é mais vasto que o Visível, milhares de vezes. Nele englobamos comumente todos os seres que o povoam sob a designação de “espíritos”; mas é um termo impróprio, porque a palavra designa gramaticalmente uma entidade imaterial, e as criaturas invisíveis são providas de corpos. O título de Espírito somente convém ao Consolador, à terceira pessoa da Trindade. Os habitantes do “Outro lado”, pelo fato mesmo de que são criados, possuem órgãos materiais. Os deuses possuem corpos, os diabos também; os anjos em missão revestem-se de corpos temporários, como nós vestimos uma capa de viagem. Para me conformar ao costume, chamarei de espírito todo ser imperceptível aos sentidos corporais, desconhecido da consciência ordinária, intangível aos aparelhos de laboratório.



Conforme esse ponto de vista, os habitantes de Marte ou do Sol são para nós espíritos; são, contudo, seres orgânicos, que se alimentam, trabalham, se multiplicam, com um corpo que é pesado em seu próprio planeta. Assim, existem astros formados de uma matéria que acharíamos muito mais pesada que a nossa, se pudéssemos mensurar sua densidade com um padrão de medida universal de peso; esses astros, entretanto, permanecem invisíveis aos melhores dos telescópios. Igualmente há, sobre a terra, raças de homens pouco conhecidos, cujo corpo, bem mais vigoroso que o nosso, bem maior, capaz de atingir uma longevidade patriarcal, não pode ser percebido nem pelos olhos, nem por qualquer instrumento de óptica. Na espessura das rochas, nas areias de certos desertos, nos glaciares do polo, vivem outros homens, diferentes de nós, gigantes, pigmeus, ciclopes, alados como os anjos, ou monstruosos. Eles são reais, mas as ondulações fotogênicas passam a través de seus corpos, cujas moléculas são agrupadas seguindo eixos diferentes; nossos olhos não os vêem, os dos sonâmbulos ordinários tampouco. Mais tarde, a qualidade do fluido luminoso mudará, e os exploradores descobrirão essas criaturas estranhas. Quando elas se manifestam acidentalmente, as tomamos por espíritos.



Além desses aborígines do invisível, além dos defuntos, das imagens, dos reflexos, existem entidades espirituais ligadas a todas as criaturas materiais. Cada ramo de erva tem seu gênio, diz a Cabala, em conformidade com os Pais da Igreja. Os mitos, as lendas populares ilustram essa ideia; O Evangelho a apresenta sob seu aspecto mais alto: “Todas as coisas foram feitas pelo Verbo”, pronuncia o discípulo bem-amado, “e nada do que foi feito, se fez sem Ele”. Toda criatura contém uma centelha do Verbo, da Vida; ora não há vida sem espontaneidade, espontaneidade sem liberdade, liberdade sem individualidade. Absolutamente falando, tudo é um eu, uma inteligência, uma vontade; todo corpo é o envelope de uma alma, instrumento de um espírito.

 

Como acreditar em tais contos de fadas? Só há um meio: observar. Trabalho difícil e delicado. Aquele que recebeu o batismo do Espírito Santo possui o privilégio de uma comunicação permanente com o coração do mundo, sede central do Verbo. Lá, toda criatura se mostra em sua nudez original, em sua forma real. Mas não posso abrir seus olhos interiores e lançar vocês na corrente da Vida cósmica secreta. Seus cérebros, em sua maioria, não resistiriam a esse impacto, a esses tumultos, ao formigamento infinito dessas turbas.

 

Entretanto, anotem isto. Entre os pesquisadores que se ocupam do invisível, há os teóricos e os práticos. Os primeiros são poetas, filósofos, iniciados intelectuais; professam o subjetivismo, ou melhor, consideram as lendas, as recitações miraculosas, as teologias apenas como alegorias, símbolos, descrições metafísicas de meios dinâmicos. Para os práticos, ao contrário, tudo é real e objetivo, quer eles ajam na via da esquerda, como os feiticeiros do campo, os faquires, os mágicos, ou na via da direita, como os místicos. Uma vez mais, os extremos se tocam; a ignorância do selvagem, que discerne um espírito no trovão, no baobá ou no caïmã se une ao conhecimento perfeito do Amigo de Deus, cujo olhar traspassa os véus sob os quais se esconde a forma verdadeira das criaturas.

 

A Igreja acredita igualmente na existência dos espíritos das coisas; algumas de suas fórmulas litúrgicas o demonstram. Quando o sacerdote pronúncia: “Exorciso te, creatura aquae”, é porque há na água um princípio que entende esta palavra, que percebe o sentimento do padre; ou então a liturgia seria apenas literatura. Quando o clérigo abençoa uma colheita, uma casa, um telégrafo, um medicamento (1), é porque há vida nessas coisas, ou então esse apelo às forças divinas seria algo sem sentido, insultando a Providência.  Alguns taumaturgos perceberam o mundo dos espíritos. O admirável Francisco de Assis dizia “meu irmão lobo” e “minha irmã cotovia”; e também “meu irmão fogo, minha irmã cinza, minha irmã pobreza”. E não eram imagens poéticas de seu pensamento; ele conhecia o espírito animador desses seres, pois o fogo, os peixes e as andorinhas obedeciam a seus amáveis comandos.



Nossa inteligência dificilmente concebe que as fadas habitem as fontes, e os caprípedes, os desertos da Etiópia. Entretanto, aqueles que viram criaturas desse gênero não eram todos alucinados; aliás, a alucinação corresponde sempre a alguma coisa real. Toda a dificuldade consiste em mudar nosso ponto de vista. O marinheiro vê ondas, em uma maré; o engenheiro, uma curva dinâmica que ele transforma em equações; o astrólogo descobre as correntes fluídicas. Todos estão com a razão; somente aquele que observa com os olhos do próprio Verbo abraça simultaneamente o princípio e todos os aspectos. Eis o místico.

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Entre esses seres invisíveis, uns são microscópicos, outros imensos. Assim, a prosternação resplandecente do anjo da prece ostenta de uma à outra extremidade do firmamento feixes de estrelas brilhantes; ao passo que nós, quando oramos, entre os bilhões de células que compõem nosso ser, apenas algumas se iluminam. Grande é o medo, no coração do discípulo que viu esse anjo; mas sua alegria permanece inefável e inesquecível.

 

Os fluidos ódicos redescobertos pelo Barão de Reinchenbach não são os espíritos dos quais falamos; os halos ovóides multicolores que percebemos no plano magnético e no plano mental também não são esses espíritos. A entidade intelectual, a tendência moral de uma associação, de um colégio, de um movimento nada mais são do que a mistura de emanações vindas das vitalidades material e espiritual dessa coletividade.

 


Ao contrário, quando, em seus êxtases, Catherine Emmerich, arranca as ervas daninhas de uma vinha imaterial, anunciando, depois de despertar, ser essa vinha a Igreja, e a planta parasita, um prelado indigno, sendo que, pouco tempo após, o prelado nomeado por ela foi destituído de seu cargo, foi o gênio da Igreja que ela havia realmente visto. Quando uma mãe sonha que uma serpente se enrola em torno do pescoço de seu filho e que, no outro dia, o pequeno acorda com uma angina, é o gênio da doença que ela percebeu. Se, após terem orado por um aflito, vocês o virem em sonho receber a visita de um soldado, por exemplo, é o gênio do livramento que apareceu.

 

Alguns dentre os servidores do grande Pastor são colocados assim em relação com certos agentes gigantescos que governam as forças da Natureza. Foi assim que um dia, um dos meus amigos, que certamente não estava em correspondência telegráfica com os sismógrafos dos observatórios, me disse à queima roupa: “Esta noite, a tal hora, haverá um tremor de terra de tal parte à outra; mas ele não será sentido na aldeia onde habita o Sr. X... , porque ele é um bom soldado; combinaremos isto com o dragão” E, de fato, os jornais relataram  os tremores exatamente com a direção  e a interrupção inexplicável que me foram preditas. O que há de curioso nesse relato é a opinião subentendida que toda colina, toda montanha, todo rio, todo lago, até mesmo as profundezas do solo são moradas de numerosos gênios; e que, agindo sobre o gênio, se modificaria o lago ou a colina, exatamente como, quando as paixões mudam, a mímica muda igualmente. Essa opinião é muito difundida na Arábia, na Índia, entre os povos amarelos; mas é muito rara na Europa.


Eu teria várias histórias semelhantes para contar; mas é preciso me ater ao meu programa.

 

Para estudar um pouco mais de perto o espírito das coisas, escolheremos um exemplo que vocês poderão estender a todos os casos análogos.

 

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Eis uma casa. Todo o edifício é o corpo físico de um gênio. As casas comuns de construção moderna possuem também seus gênios. Esses gênios   revestem-se de formas animais, e o verdadeiro vidente entra em comunicação com eles, os educa, os faz agir segundo os seus interesses.

 

Entre parênteses, devo lhes dizer aqui que o que chamo de um verdadeiro vidente não é o médium ou a sonâmbula honesta, que não trapaceiam; mas algo totamente distinto. Os maníacos do psiquismo, desde o momento em que acreditam perceber em alguém sinais de desequilíbrio nervoso, se precipitam para desenvolver esse tema; mas como ignoram tudo sobre a constituição real do homem, as ligações entre o espírito e o corpo, caminham cegamente; e o desenvolvimento que obtêm são apenas mais desequilíbrios. A presunção desses experimentadores que julgam fazer algo útil seria risível, se não fosse digna de dó. O verdadeiro vidente é antes e acima de tudo um discípulo do Evangelho; é somente por acréscimo que exerce uma faculdade excepcional.

 

Retomo a seguir meu exemplo.

 

O que se passa no “outro lado” durante a construção de um edifício?  Primeiramente, o futuro proprietário recebe a forma espiritual desse edifício; esta visita ocorre no inconsciente.  Se o espírito desse homem se interessa por esse clichê, o acolhe, o nutre, a imagem pressiona o cérebro e entra no campo da consciência; a vontade opta pela aceitação ou recusa. Os clichês não podem se realizar sozinhos; é preciso a colaboração dos homens; mas a matéria tampouco pode evoluir sozinha; ela precisa das armaduras fornecidas pelos clichês.

 

Esses últimos, antes de se tornarem intuições, desejos vagos, projetos, planos, trabalhos e criações físicas, tiveram, antes, de coordenar em seu lugar próprio todos os tipos de correntes atrativas para religar uns aos outros os seres dos quais esperam sua materialização.

 

Um tipo espiritual cresce ou definha conforme os homens ou os lugares que ele toca lhe forneçam ou lhe recusem alimentos. Eis, por exemplo, um clichê de roubo passando pelo meu espírito. Antes não pensava em furtar; a cobiça me vem por causa de uma ocasião qualquer. Se a satifaço, as forças físicas e mentais que me servem para efetuar o furto serão absorvidas pelo clichê, o qual se distanciará em seguida de meu espírito um pouco mais vigoroso do que entrou; se resisto, após algumas tentativas o clichê irá embora um pouco mais fraco.

 

Esses contatos dos clichês com o mundo físico formam a trama de nossas existências. Percebemos aqui como, na realidade, podem ser graves decisões que o julgamento racional sozinho teria acreditado ser pouco importante.

 

O local onde uma casa deve ser construída é designado desde o nascimento do continente do qual ele faz parte. Muitos anos antes do escavador pegar sua picareta, correntes fluídicas se juntam nesse lugar. Quanto mais deve durar o edifício, mais remota é sua preparação. Proprietário, arquiteto, operários, as pedras, as vigas, o cimento, o metal, tudo enfim que concorre para este empreendimento, em seus mínimos detalhes, é fixado anteriormente nos arquivos da terra, segundo as leis mais imparciais.

 

Nada acontece, pois, a uma pessoa que não tenha sido chamado ou escolhido antecipadamente. O desabamento, os defeitos, os imprevistos, o incêndio futuro, os procedimentos possíveis, tudo isso é atraído magneticamente pelo clichê primitivo e pelos justos destinos dos proprietários, dos construtores e dos locatários.

 

Isto não exclui a má-fé, por exemplo, dos contratantes. Um empresário desleal somente é levado até mim e me prejudica porque mereço ser enganado; mas ele permanecerá responsável por sua fraude. Se ele resiste à sua avareza, age duplamente bem, para ele e para mim. Se reconheço a legitimidade espiritual desse roubo, me recusando a processar o empresário, pago a mim mesmo uma dívida, melhoro o meu porvir, o de minha casa, e mesmo o do empresário indelicado, porque deposito, por meio de minha renúncia, e sem o saber, o germe do remorso no espírito desse homem.

 

Há lugares nefastos, casas onde certa doença terrível parece ter escolhido seu domicílio. Frequentemente, vamos nelas nos instalar por ignorância; e essa ignorância é desejada por Deus para não escaparmos de nosso justo destino. Entretanto, não devemos afrontar o perigo com bravata: “Eu nada temo; sou mais inteligente que qualquer um; tenho uma saúde de ferro”. É preciso dizer: “Aceito morar nesta casa apesar de seus inconvenientes, porque o Cristo nunca teve tanto; posso muito bem me impor este incômodo, uma vez que um dos meus irmãos desconhecidos se beneficiará com o local mais cômodo que eu lhe deixar, e porque estou certo de ser ajudado.” Eis a linguagem de um soldado do Céu.


Observem a expressão singular desta frase do Evangelho: “Ao entrar na casa, saúde-a, dizendo: Que a paz esteja sobre esta casa; e, se esta casa for digna dessa paz, a paz virá sobre ela e, se ela não for digna dessa paz, que a paz volte para você”. De fato, uma casa pode, como toda criatura, desejar a Luz ou as Trevas; a discórdia acompanha estas, a paz escolta aquela.



O gênio de um edifício agrupa em torno dele outros gênios; cada peça possui um; cada parte da peça, cada detalhe da porta ou da janela, cada móvel, cada objeto somente subsistem pela ação coesiva de um espírito. 

 

A árvore da floresta, em sua estatura plena, é o corpo de um gênio. Quando o machado a joga por terra, cada uma de suas partes, cada prancha, cada pedaço de lenha torna-se o habitat de um gênio de ordem diferente, e o carpinteiro, o marceneiro, que dão a essas pranchas uma forma útil e um uso prático, evocam inconscientemente um gênio novo, semissilvestre e semi-humano, que habitará essa madeira, que se tornou mesa, cadeira ou armário, e dirigirá a existência dela em uma certa medida. 

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Cada homem aparece no invisível como o centro de uma falange mais ou menos numerosa. Há servidores para facilitar suas necessidades, e deuses para o benefício dos quais ele trabalha; os espíritos de seus ancestrais estão lá, os de sua aldeia, de sua pátria, de sua raça e de sua religião; guias o acompanham no exercício de seu ofício, no prosseguimento de seus empreendimentos, na procura de seu ideal; viajantes chegam até ele, atraídos por suas virtudes, seus vícios, ou suas preocupações. Ao seu lado estão enfim, dia e noite, um representante da Luz, o anjo guardião, e um representante das Trevas, o mau anjo.


Ademais, o deus que cada um serve – deus do dinheiro, deus da ciência, deus da arte – envia para seu fiel verdadeiras cortes de auxiliares e de colaboradores. Certos contos das Mil e uma Noites explicam isso muito bem. Um conquistador, Napoleão, se querem um exemplo, enviado à Terra como o cirurgião é enviado ao doente, somente fanatiza seus soldados e amarra a Vitória a seu cavalo porque os países que ele atravessa são povoados de homens e espíritos vindos em linha direta do mundo da guerra e enviados pelo deus das batalhas. 

 

Um concurso análogo é concedido ao grande filósofo, ao fundador de religião, a todo herói. Entretanto, é preciso observar aqui uma diferença essencial nas atitudes interiores desses missionários, atitudes que impõem a sua obra uma qualidade de Luz ou de Trevas – porque as Trevas possuem também seus enviados. Se o homem acredita em sua própria força e somente se apoia em si mesmo, fará de seus auxiliares invisíveis escravos, obedientes pelo medo e sempre prontos a se revoltarem. Se o homem se avalia em seu justo valor, isto é, como um puro nada, e somente se apóia no Céu, ele fará de seus ajudantes servidores voluntários, amigos sempre prontos a se sacrificar por sua obra. A qualidade de nossos desejos faz a qualidade de nosso entorno.

 

Podemos ver no tipo do adepto e no do místico uma ilustração muito clara destas atitudes interiores. O primeiro, pelos treinamentos do sistema nervoso, do mental e da vontade, pelos êxtases onde ele mergulha por conta própria força uma gama de espíritos de toda ordem a lhe servirem, e os incorpora, de alguma maneira. O Amigo de Deus, ao contrário, não deseja tornar-se um atleta espiritual, mas somente cumprir com perfeição a Lei na pequena esfera onde a Providência o colocou. Os servidores que ele possui lhe são enviados e, como eles vêm do Céu, seu devotamento é espontâneo, livre e total. 

 

A história da árvore sob a qual São Martinho de Tours tinha o costume de orar e que, serrada subrepticiamente por um criminoso, caiu do lado oposto ao corte para não esmagar o santo, não é uma lenda; o espírito desse carvalho teria reconhecido o espírito do bispo piedoso. A taça de veneno se quebrando entre as mãos de São Bento mostra também a inteligência das coisas, e sua pequena liberdade. Numerosos fatos análogos mostram como o Céu protege aqueles que têm Nele uma tranquila e corajosa confiança.

 

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Que instruções práticas podemos retirar desses quadros feitos apressadamente?

 

A sabedoria ordena não procurar relações com os invisíveis, sob nenhum pretexto, até mesmo recusar essas relações se os espíritos se manifestarem espontaneamente. Mas estamos longe da sabedoria; do contrário não haveria, por parte do mundo, tantos caçadores de fenômenos psíquicos.

 

O espiritismo, mesmo quando fornece certezas experimentais, é um engodo. Nunca uma invocação ajudou um defunto. As práticas espíritas negam a bondade do Pai, pois é sempre a falta de confiança que nos leva a elas; elas abrem uma porta – portas – a todo os desequilíbrios, fisiológicos e psíquicos; elas engendram apenas a discórdia no reino dos mortos; elas nos tornam cegos à Luz verdadeira.

 

A magia é ainda muito mais perniciosa. Ela pode operar grandes maravilhas, algumas vezes mesmos coisas grandes aparentemente; mas ela é sempre uma revolta contra a Lei, uma vez que ela comanda, usurpa e pilha, e uma vez que para ela todo homem, salvo o homem livre, só deve servir, se submeter e doar. A magia branca, esta que parece servir somente a boas causas, é mais perigosa do que a magia negra. O feiticeiro, de fato, não pode fazer grandes coisas; quando ele tiver matado um rebanho, homens, ou secado colheitas, serão apenas danos físicos. Mas o mago, o hierofante dos livros de ocultismo, o ser que se julga muito sábio, muito puro, muito elevado, que se diz um homem livre porque reduziu à escravização quantidades de gênios, porque inclusive – certos autores não encontram louvores bastantes para um tal crime - ele não teme tomar por meios secretos os corpos de jovens robustos para prolongar durante séculos sua própria existência terrestre: um tal homem é bem mais nefasto, porque, pela aparente beleza de sua vida, leva os outros para o orgulho, para o egoísmo espiritual, para a imobilidade, isto é, para a segunda morte.

 

Não procurem nunca agir sobre o espírito das coisas; não aceitem isto que Eliphas Levy chama a transmissão da varinha mágica. Não pode o Pai não lhes dar tudo? E não dá conforme vocês demonstrem ter a força e a sabedoria necessárias ao uso de Seus dons?

 

Desejam conhecer as coisas secretas? Comecem por manter sob um segredo inviolável as faltas do próximo e o que ele lhes confiou. Desejam realizar milagres? Comecem por se tornarem dignos dos milagres que, vinte vezes por dia, a Providência realiza em seu favor e que vocês não se dignam a notar. Desejam que os acontecimentos lhes obedeçam? Demonstrem-lhes, renunciando às vantagens pessoais de suas aflições, que eles não poderão jamais lhes obrigar a nada. Obedecer ao Pai, fazer o bem, combater seus próprios vícios; eis a receita mais justa, mais sadia, mais ativa.

 

Sem ter de recorrer aos artifícios das ciências ocultas e mesmo fora dos ritos litúrgicos, a simples qualidade, boa ou má, de nossa vida moral é suficiente para beneficiar ou prejudicar todo o meio onde nós evoluímos. A habitação será pura se o habitante for puro. Pode ser que os cérebros ávidos do maravilhoso julguem esta teoria muito simples; entretanto a simplicidade é o signo da verdade, o atributo da potência, o selo da Luz.

 

O conhecimento desses invisíveis nos é interditado porque comportaria um poder imediato sobre a matéria, por intermédio deles. Nos faltaria, desse modo, um dos objetivos da existência: evoluir o mundo material pelo esforço material. A evolução da matéria obtida por dinamismos espirituais seria muito brusca e, portanto, sem frutos.

 

As teorias que indico, por mais pueris que possam parecer, lhes trarão novos deveres; em contrapartida, elas só proporcionarão novos direitos mais tarde. Elas fornecem uma explicação nova e ao mesmo tempo muito antiga; outrora, frequentemente elas deram coragem aos humanos desanimados; desejo que elas ainda lhes concedam o mesmo serviço.

 

 

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O homem exerce, portanto, sobre os objetos do meio em que vive, uma influência real. Uma cadeira arremessada com furor armazena a cólera; os utensílios de uma dona de casa avara propagarão a avareza em seus futuros proprietários. O mesmo ocorre com os atos do homem bom, do ponto de vista dos fluidos e sobretudo do ponto de vista dos espíritos. Veem agora como é inútil se preocupar com as mil precauções inscritas nas Leis de Moisés ou de Manu? Comer em um prato já anteriormente usado, vestir vestimentas que outros já vestiram, alimentar-se de carnes ditas impuras, tocar cadáveres, isso suja, talvez, como pretendem os Orientais, o corpo ou a aura; mas não mancha nem o coração, nem o espírito. Os hierofantes antigos purificavam por fora; Jesus purifica por dentro. Uma mesa totalmente nova pode também ter sido manchada pela preguiça do operário, pela cupidez do mercador, pela malícia da árvore que forneceu os galhos. Em todo caso, o rito por si mesmo só purifica o plano das vibrações.  Ao contrário, ainda que um objeto tivesse servido para perpetrar o crime mais hediondo, se o empregarmos para fazer um ato de verdadeira caridade, isso será, para seu espírito, uma purificação perfeita.


A caridade, único dever do indivíduo para com o resto do mundo, é inumerável em suas aplicações. Não zombem de coisa alguma: isso seria oferecer um abrigo ao espírito da difamação. Não quebrem os galhos nas florestas, não matem os insetos, não destruam nada sem motivos relevantes. São sábios à sua maneira aqueles que, nos vastos celeiros das casas do interior, acumulam todas as velharias fora de uso; esses antigos servidores repousam juntos, como trabalharam juntos; eles não sofrem com a ingratidão humana; ainda prestam serviços a seus mestres, mas serviços espirituais em vez de materiais. Eles atam à casa que os abriga as imagens do passado, os laços tradicionais, as linhagens dos ancestrais e dos descendentes.



Não queimem esses velhos testemunhos; não os dispersem, salvo para socorrer algum infeliz; deixem-nos retornar docemente à poeira original.

 

É por caridade que é preciso guardar os presentes incômodos ou ridículos; hospeda-se assim o que um outro não queria.  É por caridade que não se deve destruir os velhos retratos, nem pela chama, nem pela tesoura; eles guardam sempre um pouco da vida daqueles que eles representam, mesmo se a pessoa já tiver morrido. Enterrem as fotografias desbotadas; a terra é maternal. Por caridade não soprem a lamparina ou a vela; evitem a morte súbita aos pequenos seres que fabricam a chama; uma vez que o seu sopro difunde em vocês a vida, não o obriguem a causar a morte fora. Por caridade não consertem indefinidamente as velhas roupas e as velhas vestimentas, se vocês podem comprar novos; a Lei é que tudo circule e que tudo se renove.

 

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Não economizem nenhum de seus humildes esforços, desses obscuros sacrifícios. Chegará um tempo em que vocês encontrarão, em alguma das brancas moradas do Pai, todos esses humildes gênios do lar, todos esses modestos servidores; e diante de seu olhar emocionado passará, do fundo dos séculos e dos espaços, a cena familiar onde vocês tiveram um gesto de doçura com as testemunhas mudas, ainda que vivas, de sua pequena existência terrestre.

 

Todas as preces que vocês tiverem pronunciado, no silêncio noturno e na solidão de seu quarto fechado, os objetos em torno de vocês as ouviram, delas se alimentaram e guardaram-nas na lembrança. As coisas possuem uma memória; a psicometria o prova. Saibam que seus livros, seus bibelôs, as árvores, em seu jardim ou no campo, sentem sua presença, compreendem um pouco do que se passa em vocês e esperam de vocês uma luz e uma direção.

 

Deem-lhes essa luz, não procurando esclarecê-los por vocês mesmos; sua luz própria é bem pouca coisa. Mas se esforcem por reter em seu coração a própria Luz do Verbo e serão para todos esses seres um guia seguro. Para reter Jesus em vocês, sabem como devem fazer.

 

Apliquemo-nos às tarefas cotidianas, aos deveres imediatos, aos trabalhos que podemos compreender; e deixemos as tarefas distantes, abstratas, muito difíceis àqueles que acreditam poder conduzi-las com êxito.


 

(1) Cf. Rituele Romanum.

 

* Retirado e traduzido do livro de Paul Sédir: Les forces mystiques et la conduite de la vie” ,  Paris, Amitiés  Spirituelles, 1977, Cap. 8,  págs 119 à 132.

 

Tradução : Pseudo-Sedir

Revisão : Anderson Fortes  Almeida

domingo, 4 de setembro de 2022

MEIA-NOITE DE NATAL NO PAÍS DE TRISTÃO

 

Nosso blog têm a honra de publicar um conto do realismo fantástico de Josephin Peládan (29/03/1858 – 27/06/1918), fundador da “R+C Artística” (Ordem Rosacruz e Estética do Templo e do Graal) e dos « Salões Rosacruzes de Arte », cujos livros e textos ainda se encontram inéditos em nosso idioma. Neste conto,  Sâr Mérodack desnuda a alma celta ainda presente na França cristã e ainda apresenta, ao estudante atento,  muitas questões para meditar a partir das situações apresentadas nesta singela narrativa natalina.

 

MEIA-NOITE DE NATAL NO PAÍS DE TRISTÃO

                                        Por   Joséphin Péladan

As ondas batiam fortemente contra os rochedos com um clamor prolongado de batalha. A lua cintilava. Do lençol de neve estendido sobre o campo, as árvores descarnadas se erguiam em ossaturas enigmáticas. O vento soprava tão intensamente pelas frestas da janela que me aproximei da lareira onde crepitava um fogo de giestas.

A velha bretã que me hospedara naquela noite ostentava galhardamente seus oitenta anos. Seus três maridos haviam perecido no mar. Mãe de onze filhos, todos desaparecidos, ela vivia com sua sobrinha, moça calada e esquiva que se apressara em desaparecer à minha chegada.

- Mãe, disse-lhe, certamente a senhora viu coisas do outro mundo, coisas da morte e do purgatório, e deve se lembrar delas hoje, dia de Natal...

A anciã acenou com a cabeça, gravemente afirmativa.

- O que aconteceu com os korrigans, as fadas?... a antiga amizade entre este mundo e o outro cessou... as almas penadas não aparecem mais, implorando preces e missas...eu daria muito, mãe, para ver o que a senhora viu...



Ela voltara para a chama a palma das suas mãos enrugadas, de dedos deformados, e se curvara sob o peso de tristes lembranças. Eu adivinhava singularidades em sua vida, mas como destravar a língua de uma mulher de Leonois?

- Vamos, mãe, diga-nos se ainda se pode ver espíritos, espectros, algo de sobrenatural?

Lentamente e sem me olhar, ela deixou escapar isto:

- Podemos sempre ver os mortos que amamos!

- A senhora então reviu seus maridos?

- Para cada um, fiquei de luto antes mesmo que se soubesse do naufrágio... a cada vez acharam que eu estava louca; mas eu os vi, duros na água, coitados! Então, disseram na região que eu ia à pedra das Fadas, e o decano me recusou por longo tempo a absolvição. Nunca fui à pedra das Fadas, fui ao calvário.



- Ao calvário? Por que ao calvário?

Ela se inclinou e baixando a voz:

- Circunda-se uma velha cruz com os braços e reza-se até que se conheça a sorte dos seus, sua sorte na terra como a do além...

E sentenciosa, recolhida, ela acrescentou com tons de autoridade:

- É o dever da mulher cristã... Deve-se pensar no marido que passa pelo julgamento de Deus e ajudá-lo pelos terços, pelas missas, pelo bem que fazemos aos pobres, em seu nome.

Essas últimas palavras foram pronunciadas imperiosamente. O camponês bretão considera o homem do país[1] de cima (Paris) como um ímpio, negador sistemático de toda misticidade, e ainda que a velha conhecesse meu propósito de ir à missa de meia-noite, ela não cessava de ver em mim um cético.

- Como se sabe, mãe, que aquele por quem se reza foi salvo?

- Sabe-se, na noite de Natal.

Pousando a mão sobre meu braço, para forçar minha atenção, ela disse:

- No momento em que o cura eleva a hóstia de Natal na paróquia do defunto, se, então, estivermos abraçados à cruz de um calvário, vê-se até os infernos e até os céus se o morto sofre ou triunfa!

Pedindo uma explicação, eu não teria permitido que ela continuasse a confiar em mim.  Ela recebera essas ideias como dogmas tradicionais de sua raça. Minha atenção silenciosa lhe agradou pois ela me lançou com um gesto:

- Ouça, filho, ouça a história de minha sobrinha. Ela fugiu à sua chegada e você não pôde ver que, apesar de seus vinte anos, ela parece ter quarenta. Ouça, ela tinha um pretendente, o mais belo e corajoso rapaz da região! Ele foi tentar a sorte na marinha do Estado. Ela o esperou, bem-comportada, como uma religiosa, a coifa tão fechada que nem se viam os cabelos. Ela não dançou sequer uma vez em três anos. Ela contava os dias. Contou mil. Quando ele desembarcou em Brest, estava tão feliz de caminhar sobre a terra, que ele bebeu, bebeu tanto, que arranjou briga. Na confusão, uma garrafa lhe atingiu a têmpora... Oh! A sorte! Ele estava a vinte horas daqui quando bebeu e brigou. Minha sobrinha chorou toda a sua alma, mas ela não abandonou o morto, como teria feito uma noiva das cidades. Para aquele que passa pela cólera e pela bebida, nenhum paraíso! Yvonne é uma boa trabalhadora, ela trabalhou noite e dia, com o que ganhou mandou celebrar missas e distribuiu esmolas. Já faz quatro anos que ela se extenua. Ela vê sem cessar seu pobre noivo se contorcer no fogo do Purgatório e sua agulha trabalha febrilmente: ela morrerá sem colher os frutos do seu trabalho.

A bretã exalou uma queixa profunda.

­­­­- Ela cumpriu seu dever de uma noiva bretã – concluiu.

Essa pobre costureira de aldeia era a irmã sublime de Elizabeth, a santa de Wartburg! Fiquei admirado!

- A senhora quer, mãe, que eu acompanhe sua sobrinha à missa de meia-noite?

- Não meu filho, não precisa.

As onze e meia soaram no relógio de pêndulo de cobre. Escutamos uns leves passos e Yvonne desceu a escada, semelhante, em sua capa, a uma beguina. Ela trocou algumas palavras em baixo bretão com sua tia, sem que eu pudesse encará-la, mas todas as palavras da aldeã se iluminaram. Yvonne iria ao calvário! Assim me fora dado contemplar um belíssimo rito de Fé céltica.

- Então – eu disse com um ar indiferente, abotoando o meu sobretudo – está na hora de sair para garantir um assento.

Lá fora, uma rajada de vento levou meu chapéu de feltro no primeiro passo: a neve, em turbilhão, me cegava. O mar uivava com uma voz rouca gemidos misturados a imprecações misteriosas. De que lado se elevava o calvário? Eu o ignorava e corri desorientado. Minha vida inteira parecia tomada pela minha curiosidade e experimentei uma angústia inexprimível. Contornando uma fazenda, percebi a longa silhueta de Yvonne. Ela caminhava com um passo seco e decidido em direção ao mar. Eu a segui com uma paixão de alucinado. Bruscamente, a enormidade negra e convulsiva do oceano apareceu, e sobre esse horror movente se erigia, elevada por alguns degraus, uma antiga cruz de granito. Segundo essa piedade armoricana que mostra junto ao divino crucificado a Santa Mãe e o discípulo bem-amado, a Virgem e São João estavam sobre cruzeiro. Yvonne subiu os degraus como a sacerdotisa druídica, sua ancestral, se aproximava do dólmen. Ela não se ajoelhou: abriu os braços com um gesto que ainda vejo, um gesto que, desenhado, seria imortal, e os fechou sobre a pedra, apaixonadamente. Assim, atada ao signo redentor, como um náufrago ao único mastro, ela encarnava esse gemido que sai de toda criatura, uma moça verdadeiramente santa, virgem de coração heroico que a morte do Amado não esfriara.

Meio escondido por uma guarita de aduaneiro, eu a contemplava. A neve parou de cair, a lua se desvencilhou das nuvens, Yvonne, a cabeça para trás, fixava com olhos extáticos o Cristo, e o vento agitava sua capa como asas negras. Ela esperava um sinal? Qual? Uma voz interior responderia à sua angústia ou talvez o invisível iria se manifestar?

Subitamente, uma forma alada veio do alto mar e se abateu sobre a cruz: era uma grande gaivota. Ela sacudiu as asas e retomou seu voo, soltando um grito de uma doçura, de uma humanidade que me fez estremecer. Um outro grito, dessa vez sobrehumano, cortou o ar com um tom de gratidão e alegria indizíveis. O braço de Yvonne se destacou da cruz e a grande silhueta sombria afundou. Lancei-me para socorrê-la, ela não me viu, toda entregue a sua ação de graças, pois a gaivota representava a alma, a querida alma de seu noivo saída da geena, resgatada e agora na bem-aventurança. Teria eu visto uma miragem? Eu me fazia essa pergunta quando a bretã se ergueu, saltando os degraus e correu para a aldeia. Lancei- me ao seu encalço e chegamos juntos à igrejinha cintilante de velas, murmurante de cânticos e plena de alegria santa.

Yvonne caiu de joelhos e pude estudar os traços finos e obstinados dessa Elizabeth que havia expiado, como a sobrinha do landgrave, o pecado de seu prometido. E me lembrei de que eu estava então na Cornualha, não longe de Caréol, no país de Tristão.




 

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*Traduzido do texto publicado na revista L’Initiation Tradicionnelle nº 1, de 2019. Revista editada pelo GERME (Groupe d’Études et de Recherches sur le Martinisme et l’Ésotérisme) e fiel ao espírito da revista L’Initiation, fundada em 1888 por Papus e relançada em 1953 por Philippe Encausse.

 

** Tradução e revisão de Anderson Fortes de Almeida.  Anderson é o tradutor de duas importantes obras para o Martinismo: “Mística Cristã” de Paul Sédir e “Revelações: Conversações espirituais sobre M. Philippe de Lyon” de Michel de Saint-Martin, ambas publicadas pela editora Clube dos Autores (https://clubedeautores.com.br).







[1] N. do T. Na França dá-se também o nome “pays” a localidades e regiões.

quarta-feira, 13 de julho de 2022

A QUESTÃO FEMININA NA INICIAÇÃO

 

                       A QUESTÃO FEMININA NA INICIAÇÃO

                                                   Por Sebastião Caracciolo**

Todas as Tradições nos ensinam que o acaso “não existe”, que a manifestação seja somente unida e participante de um único plano providencial e geral, e diferenciado em partes desiguais e que se harmonizam entre seus dias. Que as duas partes sejam complementares não significa que sejam iguais nem intercambiais, significa que no drama de sua existência uma parte é necessária à outra. A desigualdade entre as partes depende dos seus diversos modos de ser. A lei da manifestação é a diversidade e, portanto, duas partes não podem ser iguais sem que uma elimine a outra.

Assim a existência de uma “criatura” é determinada pelo próprio modo de ser e a diferença física vai de acordo com a correspondente de uma diferença espiritual. Não se é homem ou mulher fisicamente se não se o é espiritualmente. O sexo não é outro que uma consequência de uma variação inicial. No momento da separação algumas qualificações essenciais foram atribuídas ao macho e outras a fêmea, determinando dois diversos modos de ser e duas diversas funções. O macho e a fêmea, distanciando-se do Centro Divino, se tornaram involuídos na materialidade adquirindo características, que vez por outra, foram apensadas e tornaram-se grosseiras e distorcidas qualificações de que foram dotados na origem. Além disso, o macho e a fêmea são postos em contínua oposição entre si e em recíproca procura de uma integração que até hoje se expressa somente na prevaricação de um ser sobre o outro, é a fonte de confusão entre os dois. Isto tem acentuado sempre mais os sinais da “queda” até os nossos dias, onde não são nem macho nem fêmea, mas híbridos, quebrados, despedaçados, porque são necessários num e outro ser para recompor a essência específica, restituindo nos dois seres as suas especificas qualificações e funções originais, que podemos indicar, sinteticamente dizer “virilidade espiritual” para o macho e “espiritualidade feminina” para a fêmea.

O despertar de tais qualificações, segundo a Tradição, pode vir seguindo duas vias que, separadas ou unidas, deverão ser diversas para cada uma das duas. É necessário que na reconstituição harmônica e ordenada de cada um dos dois seres, que sigam uma “uma via iniciática” semelhante, mas não iguais, voltando a exaltar no macho todos os valores perfeitamente machos e na fêmea todos os valores perfeitamente fêmeos, para que ao término possamos reconduzi-los ao ponto de origem onde os Dois formarão Um.

Vale a pena recordar que, segundo a tradição, o rito consiste em uma ação sacrificial na qual intervém forças do alto e forças de baixo, ocultas e sutis, voltadas imediatamente à purificação da personalidade humana.

Havíamos dito que a lei da manifestação é a diversidade, podemos também afirmar, como [Julius] Evola, que a diversidade não provoca retorno idêntico, e que as várias partes do todo retornem promiscuamente unas, mas quer que tais partes sejam sempre mais SI MESMO exprimindo sempre mais o próprio modo de ser.

Na Tradição helênica, macho é o uno, isto é, em si mesmo, fêmea é a dualidade, princípio do outro ser.

Na Tradição hindu macho é o espírito impassível (purusha), fêmea é prakriti, matriz de toda forma condicionada.

Na Tradição oriental o princípio masculino (yang) se refere a “virtude do céu” enquanto o princípio feminino (yn) se refere a “virtude da terra”.

Na Tradição bíblica, Eva, como imagem de Narciso, representa a força universal em forma sedutora, Adão, como Narciso, representa a força do ser seduzido ao desejo de conhecimento. Através da iniciação as duas forças resultam sublimadas e transmutadas.

(...)

Em matéria iniciática não se trata de igualdade nem desigualdade entre dois seres, que diante de toda a manifestação tem cada um os próprios valores e a própria dignidade, se trata de diversidade e necessidade. (...).

** Caracciolo, Sebastião, falecido Hierofante do Supremo Conselho Adriático, mantenedor do  Rito maçônico de Mizraim-Memphis.  Trecho retirado do seu livro " A Ciência Hermética". Edição e tradução APROMM, págs 45 e 46.




domingo, 5 de junho de 2022

TRECHOS DE UMA CARTA DE BAUDELAIRE A WAGNER

 

Um dos autores prediletos da “R+C Artística” (Ordem Rosacruz e Estética do Templo e do Graal) de Joseph Peládan (29/03/1858 – 27/06/1918) foi Richard Wagner (22/05/1813 – 13/02/1883), cuja música possui a capacidade de nos propiciar êxtases estéticos e místicos em poucos acordes. A obra de Wagner, com melodias e enredos míticos e espirituais, revela, e desvela, profundos segredos do Caminho Iniciático, ao discípulo atento e sensível à linguagem do som e dos símbolos. Este arrebatamento é revelado, de uma forma explicita e apaixonada, nesta carta de Charles Baudelaire (9/04/1821 – 31/08/1867) endereçada ao autor de Parsival, postada abaixo.

  

TRECHOS DE UMA CARTA DE BAUDELAIRE A WAGNER**

 

 [Paris], 17 de fevereiro de 1860.

 

CARO SENHOR

 

Antes de tudo, quero lhe dizer que lhe devo o maior prazer musical que jamais experimentei. Estou numa idade em que não mais nos divertimos em escrever aos homens célebres, e eu ainda teria hesitado por muito tempo a lhe testemunhar por carta minha admiração, se todos os dias meus olhos não deparassem com artigos indignos, ridículos, onde se fazem todos os esforços possíveis para difamar o seu gênio. O senhor não é o primeiro homem em razão do qual tive de me envergonhar de meu país. Enfim, a indignação me levou a lhe testemunhar meu reconhecimento. Eu disse a mim mesmo: quero ser distinguido de todos esses imbecis. Na primeira vez que fui aos italiens para ouvir suas obras, estava com bastante má vontade e, devo confessá-lo, cheio de maus preconceitos. Mas posso me desculpar, fui frequentemente muito tolo, ouvi muitas músicas de charlatães de grandes pretensões. Pelo senhor, fui imediatamente conquistado. O que experimentei é indescritível, e, se o senhor se dignar em não rir, tentarei traduzir. Primeiramente, pareceu-me que eu conhecia essa música, e mais tarde, refletindo sobre ela, compreendi de onde vinha essa miragem. Parecia que essa música era a minha e eu a reconhecia, como todo homem reconhece as coisas que ele está destinado a amar. A seguir, o aspecto que me tocou principalmente foi a grandeza, essa música representa o grandioso, ela leva ao grandioso. Sente-se imediatamente enlevado, subjugado. Senti toda a majestade de uma vida mais vasta que a nossa. Experimentei frequentemente um sentimento de uma natureza bastante insólita. É o orgulho, o gozo de compreender, de me deixar penetrar, invadir, volúpia verdadeiramente sensual e que se assemelha àquela de subir aos ares ou de rolar sobre o mar.  Geralmente, essas profundas harmonias me pareciam se assemelhar a esses estimulantes que aceleram o pulso da imaginação. Há por toda parte algo enlevado e que arrebata, alguma coisa que aspira a subir mais alto, algo de excessivo e de superlativo. Por exemplo: servindo-me de comparações tomadas de empréstimo à pintura, suponho diante de meus olhos uma vasta extensão de vermelho escuro. Se esse vermelho representa a paixão, vejo-o chegar gradualmente, por todas as transições de vermelho e rosa, à incandescência da fornalha. Seria difícil, impossível mesmo, chegar a algo ainda mais ardente. E, no entanto, uma última combustão vem traçar um sulco mais branco sobre o branco que lhe serve de fundo. Será, caso queira, o grito supremo da alma que é alçada a seu paroxismo. Assim poderia continuar minha carta interminavelmente. Se o senhor pôde me ler, agradeço-lhe. Não acrescento meu endereço, pois poderia crer, talvez, que eu tenha algo a lhe pedir.


 

** Tradução e revisão de Anderson Fortes de Almeida.  Anderson é o tradutor de duas importantes obras para o Martinismo: “Mística Cristã” de Paul Sédir e “Revelações: Conversações espirituais sobre M. Philippe de Lyon” de Michel de Saint-Martin, ambas publicadas pela editora Clube dos Autores (https://clubedeautores.com.br).